| |
Padre José Nicolino de Souza
Extraído do anuário da Prelazia de Óbidos,
edição comemorativa do 25º aniversário
de criação da Prelazia.
Foi à margem do Nhamundá na Vila de Faro que, em humilde cabana, nasceu José Nicolino de
Souza, em 10 de agosto de 1836. Fez seus estudos primários no modesto
Colégio São José, o venerando Bispo D. José Afonso Moraes Torres havia
fundado em Óbidos para dar ensino aos meninos pobres destas regiões.
Outro não menos venerado Bispo, Dom Antonio de Macedo Costa, que tão
heróicos esforços fez para levantar o nível moral e intelectual do clero
de sua diocese, tendo ocasião de conhecer o bom coração de José Nicolino,
o mandou para a França estudar as matérias necessárias para um ministro do
altar.
Surgiu em 1862 contando já vinte e nove anos anos de idade; fez todos
os preparatórios no Seminário de Serigueunx, e depois passou para o de
Aire, onde concluiu o curso de Teologia.
Regressando ao Pará já com ordem de Presbítero, foi logo
encarregado de lecionar no Seminário Menor da Capital.
O padre Nicolino era filho de uma índia, é pois descendente dessas
pujantes tribos que em remotas eras dominaram como soberanos e ricos o
vale do Trombetas. Uma força oculta e irresistível atraía sua alma
contemplativa para aquelas explêndidas regiões. A seu pedido foi pelo seu
Prelado dispensado do magistério que exercia no Seminário da Capital, e
nomeado vigário de Monte Alegre e depois de Óbidos, em 1875.
Então teve ocasião oportuna de realizar um pensamento que desde longo
tempo o preocupava; era o de penetrar naqueles vastíssimos desertos do
Trombetas.
Quando, no Seminário de Aire, em França, fazia seus estudos teológicos,
dirigido pelos Padres da Companhia de Jesus, o velho Padre Reitor do
Estabelecimento lhe mostrou um manuscrito, redigido em Latim pelos
Missionários da Companhia, o qual continha o itinerário de uma expedição
feita desde o Orenoco até o Prata. Nesse manuscrito encontrou o Padre
Nicolino notas preciosas, especialmente a notícia da existência de
extensos campos ao sul das Cordilheiras de Tumucumaque.
Ora nas regiões encachoeiradas do Alto Trombetas, e do seu afluente
Cuminá existiam grandes Mocambos, onde viviam há longos anos escravos
fugidos do Alto e Baixo Amazonas. O Padre Nicolino, alma verdadeiramente
cristã, se havia feito espontaneamente um missionário, um apóstolo daquela
pobre gente. Aos velhos habitantes dos Mocambos interrogava o Padre
Nicolino sobre a existência desses campos. Os mocambeiros tinham relação
de amizade com os índios Pianacatós, que ainda habitam ao Vale do Cuminá e
que, haviam feito com eles largas excursões pelas florestas, haviam
atravessado os campos, chegando até a vertente meridional do Tumucumaque
aonde os Holandeses do Suriname vinham com ele comerciar.,
Os negros interrogados pelo Padre Nicolino, responderam que tais campos
existiam realmente, e que por eles vagavam índios mansos e quase brancos,
e se prestavam da melhor vontade para acompanhar ao Padre na execução que
desde logo resolveu fazer a essas remotas regiões.
Alguns fazendeiros de Óbidos, e alguns cidadãos importantes da capital
auxiliaram a expedição, e tinham um interesse em abrir um trilho por onde
pudesse passar gado para esses enormes campos onde a industria pastoril
pudesse tomar incalculável desenvolvimento.
De sua primeira viagem
o Padre Nicolino, após penosos trabalhos, chegou até os campos. Da
narrativa do seu roteiro, se deprende que a sua segunda viagem teve por
fim estudar o terreno, e traçar uma picada desde o baixo Cuminá até os
mesmos campos.
Em sua
segunda expedição saiu o Padre Nicolino da foz do Samuhuma, a pé, através
de matas virgens mas não lhe foi possível alcançar a foz do Urucuryana.
Por isso voltou o ano seguinte, e de novo embrenhou-se pela floresta,
prosseguindo a exploração que havia empreendido. Foi então que morte
traiçoeira lançou por terra o arrojado explorador. Os seus restos mortais
foram levados para a sua igrejinha de Uruá-Tapera, (lugar que deu origem
ao nosso município vizinho de Oriximiná), onde uma pequena pedra e cobre
tem esta singela inscrição: “AQUI JAZ O PADRE NICOLINO DE SOUZA. NASCEU NA
VILA DE FARO EM 10 DE AGOSTO DE 1826. FALECEU EM 12 DE OUTUBRO DE 1882.
LEMBRANÇA DE SEUS AMIGOS.”
©
LABS Graphic Arts
|