PERSONALIDADES


Francisco Manuel Brandão
Biografia de autoria de
Stela Maria Santos Brandão


   Francisco Manuel Brandão foi um homem eclético. O poeta, advogado, folclorista, escritor, ensaísta, professor, compositor, fotógrafo, veio à luz em 10 de abril de 1907, em Óbidos, Pará. Foi lá, embalado no lirismo e tradições de sua terra, que ele cresceu e formou sua alma de poeta.

   Sua infância de "curumim"  da beira do Rio Amazonas está parcialmente contada no seu livro "Terra Pauxi" (1955), uma ode de amor e exaltação à cidade de Óbidos e à própria vida na Amazônia. Um dos episódios mais marcantes foi o seu quase afogamento, com apenas cinco anos de idade, nas águas do grande rio-mar. Ele mais tarde referiu-se ao afogamento em "Filho das Águas Não Morre Afogado. Um Conto de Natal Segundo as Tradições Amazônicas".

   Francisco alistou-se aos 16 anos, voluntariamente, e aos 19 anos deixou sua terra natal rumo ao Rio de Janeiro, casando-se com uma paraense chamada Estelevita Rodrigues, com quem teve 9 filhos, dos quais 3 faleceram na primeira infância.

   Nunca abandonou o seu ideal de formar-se em Direito. Seguiu a carreira militar por algum tempo, chegando a ser Oficial Intendente do então Ministério da Guerra. Participou da expedição do General Rondon para implementar o telégrafo nas remotas regiões do Norte e Centro-Oeste do país. Trabalhou estreitamente com o General Rondon no Serviço de Proteção aos Índios, o que lhe valeu o precioso legado do conhecimento do território nacional e lhe reforçou o respeito e amor à cultura indígena brasileira, uma herança que já trazia em sua alma amazônica. Fez concurso para oficial da Secretaria de Guerra, passando à vida civil. Foi transferido para o Ministério da Agricultura e formou-se finalmente em advogado em 1943, pela Faculdade Nacional de Direito, já como pai de 6 filhos. Pouco depois de sua formatura, perde sua primeira esposa.

   Brandão, como passou a ser chamado em sua terra de adoção, tornara-se um espírita fervoroso. Vivia fazendo conferências nos centros, tomando parte nos congressos e em todos os movimentos espíritas da Baixada Fluminense, onde residia. Sua palavra fluente e inspirada tinha o dom de prender a atenção das massas e de angariar adeptos e admiradores. Foi neste ambiente que conheceu aquela que veio a ser sua segunda esposa. Casou-se em segundas núpcias em 1945 com Rosinah de Sousa Santos, natural do estado do Rio, com quem teve mais 8 filhos. Antes do primeiro matrimônio, porém, havia deixado uma filha natural no Pará, a qual levou para o seu convívio e o de sua numerosa família no Rio de Janeiro. Com a adoção de mais uma filha-de-criação, sentia-se orgulhoso em dizer que era pai de 16 filhos.

   Suas atividades na Baixada Fluminense tiveram uma abrangência fora do comum. Homem de visão e de ação, possuidor de um espírito humanista de rara intensidade, ele fundou a "Biblioteca Falada" na década de 40, a qual levava literatura e cultura aos humildes da região. Fundou também "A Casa da Mãe Pobre", que atendia de diversas maneiras as famílias desamparadas. Foi professor do Ginásio Leopoldo, em Nova Iguaçu. Foi também membro e Presidente da Arcádia Iguaçuana de Letras. Escreveu sobre os mais diversos aspectos da cultura e folclore da região, o qual ajudou a reavivar e a fomentar. Por sua iniativa e entusiasmo, a Folia de Reis passou a ser cultivada novamente nas ruas de Nova Iguaçu durante os festejos natalinos. Mais de trinta anos depois de sua morte, em setembro de 1998, discursou na cidade de Queimados, vizinha a Nova Iguaçu, o jornalista e historiador Ney Alberto, que lhe conhecera em vida, o qual disse que "Francisco Manuel Brandão foi um anjo de luz que havia deixado sua Óbidos, no Pará, para iluminar a vida da Baixada Fluminense".

   Durante os anos posteriores, Brandão permaneceu um defensor da arte e cultura populares até o fim de sua vida. Trabalhou ainda nos mais renomados cargos, como, por exemplo, diretor do departamento de Administração do antigo SAPS (Serviço de Assistência e Previdência Social), chegando a ser seu Procurador Geral. Mas a grande realização de sua vida foram os seus anos como pioneiro de Brasília em 1956, entregando-se de corpo e alma à jornada histórica, uma empreitada que lhe proporcionou um mergulho profundo na alma e cultura do cenário geográfico e humano onde se implantou a nova capital do Brasil.

   Em 1960, vitimado por um derrame que lhe custou uma vista, aposentou-se do serviço público, mudou-se com sua família para Niterói, e passou a dedicar-se totalmente à pesquisa e à literatura. Como a vida sedentária não se encaixava no seu temperamento alegre e dinâmico, logo encontrou outra ocupação que lhe desse oportunidade de continuar compartilhando e ensinando as alegrias do folclore. Tornou-se um entusiasmado "animador cultural" da Escola São Francisco de Assis, cuja diretora, a professora Etienne Santos Corrêa, era sua cunhada. O pacato bairro de São Francisco, em Niterói, viu florescer naquela escola um verdadeiro centro cultural e folclórico. Ali também foram levados os autos das Pastorinhas, do Boi-Bumbá, dos Caboclinhos, o alto da Burrinha, da Ema, sem contar as festas juninas, que de simples folguedo popular, transformaram-se em atração de dança e música para toda a comunidade.

  Sua produção literária inclui a publicação, em forma avulsa, dos poemas "O Homem Pensa Porque Tem Mão", "Paz", "A Morte do Líder", "Baião-de-dois". Deixou ainda outros livros inéditos: "Meu Baú de Emoções" (poemas), "Balaio de Lembrança" (letra e música de suas canções) e "Brasília Agreste" (fotografias e poemas). Por seu último poema publicado, "Paz", mereceu uma bênção especial de Sua Santidade o Papa Paulo VI, em fevereiro de 1968. Seu livro "Terra Pauxi" foi escolhido em 1997 para ser o marco comemorativo dos 300 anos de Óbidos, tendo sido reeditado pela Secretaria de Cultura do Pará, como o primeiro de uma série dedicada à literatura regional.

  Faleceu em 2 de março de 1968, na cidade de Niterói, vítima de derrame, poucos dias antes do que seria sua mudança definitiva para Brasília, a capital que ajudara a construir e que nunca deixara de lhe alimentar o idealismo e os sonhos. Foi enterrado no cemitério de Charitas, à beira-mar e ao lado da igrejinha de São Francisco Xavier, construída pelos índios e fundada por José de Anchieta.

  Deixou em todos uma grande saudade e a lembrança indelével do seu espírito vibrante e original, autêntico amante da vida, do mundo e dos homens.

Nota: Esta mesma biografia resumida de Francisco M. Brandão, escrita por sua filha Stela Maria Santos Brandão, foi publicado na segunda edição do seu livro "Brasília, Folclore e Turismo". Francisco Manoel Brandão foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem do Mérito de Brasília, em 2001, pelo Governador do Distrito Federal. Seu livro "Terra Pauxí" foi reeditado pela SECULT- PA em 1997, em comemoração ao Tricentenário da Cidade de Óbidos. Em 1998 foi inaugurada uma escola com seu nome em Queimados, município da Baixada Fluminense, lugar onde também deixou expressivo legado de contribuição humanística e literária.  

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