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Eduardo Henrique Chaves
Dias
por Manuela
Carvalho Rodrigues
Quem o
escuta cantando, custa a acreditar que o início de sua carreira de cantor
talentoso foi algo acidental - não tendo encontrado intérpretes para as
suas primeiras composições viu-se obrigado a cantar, e para públicos cada
vez mais numerosos, sempre fazendo belíssimas apresentações vocais,
perfeitamente harmônicas com os sons que saem de seu próprio violão e dos
instrumentos encontrados às mãos dos músicos talentosos que o acompanham
no palco; como disse um crítico a respeito de um de seus primeiros
trabalhos fonográficos: "disco de autor com qualidade de intérprete". Quem
o escuta cantando o hilariante brega Não tem as condição, com versos que
aludem a um difícil relacionamento amoroso entre jovens suburbanos de
Belém, de gênios e valores completamente incompatíveis, não tem como
ignorar que a irreverência é uma de suas características mais marcantes;
algo expresso em seus inúmeros shows durante esses vinte anos de carreira,
nos brevíssimos intervalos entre as canções que apresenta.
Contudo, os que conhecem Eduardo Henrique Chaves Dias e sua obra -
todos os que amam a música paraense - sabem que o brega e a irreverência
peculiar a sua personalidade forte e marcante, pouco têm a ver com o
refinamento poético e melódico e com o apego às coisas da região que
caracterizam o vasto conjunto de suas composições musicais e justificam
sua
consagração, pela crítica e pelo público, como um dos maiores
representantes da música paraense e amazônica, de todos os tempos. Eduardo
Dias sabe cantar e sabe brandir ao violão os mais cultivados ritmos
regionais, dos mais contagiantes aos mais harmônicos; sabe, como muito
poucos, recriá-los em fusão com poemas de sua própria autoria que mais
parecem letras de música, dedicadas ao amor e a nossa região. Eduardo Dias
é sinônimo de criatividade e orgulho da origem amazônica e paraense, que
transpassam a alma do talentoso artista e se misturam às suas composições
musicais, fazendo florescer a verdadeira música regional. Sua música “tem
olho de boto, garrafa de cheiro e benzera de avó”; tem o cheiro e a
resistência do povo do Pará, da Amazônia; a história de nossa melhor
música já não pode ser narrada sem referência a esse grande autor.
Obidense, nascido no dia 12 de setembro de 1962, Eduardo mudou-se
para Belém no começo da adolescência “com uma viola festeira, uma modinha
de rio” e iniciou sua carreira aos vinte anos de idade, com serestas
acompanhadas por cavaquinhos. A intimidade com este instrumento musical o
fez participar inclusive de um festival de chorinho, mas o cavaquinho logo
foi substituído pelo violão, que se tornou seu fiel companheiro. E foi com
seu violão que passou a se apresentar nos bares da noite de Belém, subindo
com este ao palco pela primeira vez em uma apresentação que ficaria
assinalada como um marco de sua carreira: na semana de Artes da
Universidade Federal do Pará, evento realizado em virtude da comemoração
dos vinte e cinco anos de implantação da Universidade, Dias soltou a voz
publicamente ao lado de vários artistas já importantes na época, entre os
quais Altino Pimenta, Alfredo Reis, César Escócio e Rafael Lima. E não
mais parou de cantar, composições próprias e de outros autores regionais;
ele que estava há mais tempo condenado a criar músicas e poemas.
O laborioso teor de suas composições, moldadas pelas mãos desse
habilidoso ourives da música, logo ganhou reconhecimento, aclamado que foi
pelos críticos da época, entre eles um dos mais exigentes: o poeta Rui
Barata, que acenou positivamente para a estrada artística de Eduardo. O
jornalista Euclides Farias lembrou a respeito que “a anuência do poeta era
passaporte certo para quem sonhava com a carreira de músico” e “ não sem
alguns ralhos, carimbou (referindo-se ao passaporte) o de Eduardo, com
visto duradouro; e assim, reconhecido pela verve de Ruy, o jovem
compositor pôde viajar o tempo que o tempo tem para emergir na virada do
milênio com uma obra consolidada, fecunda, multifacetada, participativa e
vibrante como o cubo de gelo no inquieto copo de uísque do mestre”. Esse
brilhantismo inerente a um artista tão bem conceituado pela crítica é
reconhecido por meio de premiações, sendo importante ressaltar que em
todos os festivais dos quais participou, tanto no Pará quanto em outros
Estados brasileiros, foi contemplado com prêmios. Dias ressalta a
relevância dos festivais como a “melhor forma de revelar valores, pois
conseguem atingir a um público que se torna cativo”, acrescentando que “a
competição com nomes famosos vem só incentivar os novos a darem o melhor
de si, mostrando o que sabem fazer ao invés de se inibirem”.
Sempre vibrando com os ritmos amazônicos Eduardo Dias protagonizou
no palco novos momentos marcantes de sua carreira. Em 1987, aos vinte e
quatro anos, fez “Cheiro de Maresia”, acompanhado por uma banda composta
por músicos ecléticos, através do projeto Clima do Som, da Associação dos
Compositores, Letristas, Intérpretes e Músicos do Pará. Com alusões ao
homem amazônico que mora na beira do rio, Dias conquista definitivamente
seu público, que não mais se restringia aos universitários, congregando um
universo muito maior de admiradores do lirismo com que declara sua paixão
incurável pela cultura legitimamente amazônica e pelas belezas naturais
desta região. Dois anos depois, em março 1989, no show “Mato Matado” cuja
temporada teve início em Belém no teatro Waldemar Henrique e desdobrou-se
em Santarém, durante a Semana de Cultura, e em Óbidos, no salão paroquial,
Eduardo pode confirmar outra vez o reconhecimento pelo público de seu
talento extraordinário. Além de interpretar músicas de compositores
paraenses de renome nacional, com destaque para Alfredo Reis, Paulo André
Barata, Gilberto Ichiahara e Walter Freitas; cantou músicas de sua própria
autoria como “Canto para Despertar” . Esta, que recebeu uma premiação no
festival do Baixo-Amazonas em 1987, impulsionou a abertura da porta para o
caminho da vida artística fora do Estado: cantou no SESC de Santos, no
Estado de São Paulo, dividindo o palco com outros artistas paraenses que
já faziam sucesso no eixo sudeste.
O primeiro compacto duplo “Lira d'água”, foi lançado, em 1986, na
Casa da Cultura de Santarém, em que a música “Água” desponta tornando-se a
mais conhecida deste cantor e compositor. Mas é com “Estrela Negra” seu
primeiro LP, que data o ano de 1991, que Dias se consagra como músico
“engajado na defesa radical da cultura regional, da qual a música é seu
produto de maior lance (...). O disco vem reafirmar o movimento
regionalista (...) contrário à marginalização dos valores locais.” (Jornal
Diário do Pará, 1991). “Estrela Negra” traz 10 músicas de diversos ritmos:
oito composições de Eduardo, além de ”Dança da Mata”,de Beto Paixão, e
“Tocaia”, de Mario de Moraes e Sidney Piñon. No disco de vinil,
Sarakura-mirá, reafirma a resistência aos produtos comercializados pela
indústria cultural tratando novamente de temas regionais. Eduardo Dias
contabiliza cerca de cinco CDs gravados de maneira independente, tendo
várias de suas composições gravadas por grandes intérpretes como a cantora
lírica premiada internacionalmente Márcia Aliverti, Alcyr Guimarães, Vital
lima, Fafá de Belém, Ana Cristina (prêmio Sharp de MPB), Côro Cênico da
Unama, Grupo Vox Brasilis, Alexandra Sena, dentre outros. E participou de
coletâneas como “Canto pela Paz”, Omani Omani, II Festival de Música
Paraense, Feart, Festival da Canção de Marabá e Coletânea Chico Senna.
Eduardo Dias conquistou seu espaço no cenário musical com uma
música imbricada de leveza regional, sem superproduções, destoante daquilo
comercializado pela indústria cultural ao não se comprometer com modismos.
Para Edgar Augusto Proença o reconhecimento conquistado pelo cantor foi
merecido “tudo de até certo ponto sofrido, por isso mesmo mais valioso”.
Suas composições assemelham-se a belos poemas literários com uma pincelada
de romantismo. Segundo o jornalista Euclides Farias, Dias “sem saber fazer
outra coisa senão perceber a beleza poética que emana de rios, igarapés,
falares, costumes, lendas, contradições e da gente amazônica (...) ignorou
os pichadores da obra alheia(...), cantou sua terra como poucos,
produzindo rico, genuíno e sensível painel da Amazônia musical”. Para,
Galdino Pena, professor da Fundação Carlos Gomes e compositor paraense, “a
música de Eduardo é genuinamente amazônica, sobretudo por que nos traz à
mente a imagem dos barrancos, dos remansos da beira-rio do médio Amazonas.
Aliado a um estilo marcante e pessoal, evidente em composições como
Cabanear, Eduardo consegue cantar o canto das águas o universo do homem
amazônico de uma forma talentosa e promissora”. A formação do músico teve
a influência de Caetano Veloso, João Bosco, e de Rui e Paulo André Barata,
destes últimos extraiu a essência regional vista em suas composições em
que ressalta o folclore local, por meio de uma linguagem peculiar, típica
do povo paraense. Eduardo salienta a necessidade de se investir no
regionalismo, nunca forçosamente, mas de maneira espontânea, citando as
obras de Walter Freitas e Ronaldo Silva como parâmetros de qualidade.
Não é de se estranhar que o compositor de músicas que se constituem
em primorosas poesias, seja também autor de obras relacionadas a esse
gênero literário. A sensibilidade intrínseca para a escrita resulta em
poemas que mais parecem letras de música porque, para o artista Eduardo
Dias, os “poemas de amor” devem ser versados “por uma linguagem simples e
musical”. Nascido na “Terra dos Escritores” logo mostrou sua inclinação
para as letras, atividade que se pôs a desenvolver, desde o ano de 1982,
antes mesmo de trilhar o caminho musical. Cursou Direito pela Universidade
Federal do Pará e logo após tornou-se estudante do Curso de Letras e
Artes, podendo se dedicar à vocação de escritor. Assim, pode publicar uma
série de obras poéticas em que o foco principal é o amor, abordado em suas
diversas faces destaque para o amor entremeando a vivência do homem
amazônico; esse amor descrito nos poemas traspassam suas composições.
Eduardo tem ao todo sete livros lançados: “Uma Vidal Viver” (1982), “De
Proa” (1986), “Sinfonia dos Delírios” (1989), “A Sombra Oculta dos
Mistérios” (1990), “Sonhos em Maresias”, “Poemas de Amor e Outras Canções
de Amar” em que são reunidos versos que discorrem apenas sobre o amor; e
“Nas Trilhas do Pingo D'Água”, seu trabalho mais recente. Grande parte das
composições que canta são elaboradas por ele, entrelaçadas por um
regionalismo amazônico com um toque romântico em que as belezas e riquezas
da região são exaltadas, proporcionando um resgate cultural e histórico,
bem como, um movimento de resistência às imposições da indústria cultural,
que veicula na mídia preferencialmente músicas advindas da cultura de
massa por atingirem a um público bem maior.
Opondo-se à utilização da música como produto a ser comercializado,
visando unicamente ao lucro, Eduardo Dias dispôs-se recentemente a
contribuir para a criação de mais uma rádio comunitária FM, a da
Associação do Conjunto Habitacional Júlia Seffer, (ACHAJUS) localizado em
Ananindeua, acreditando que a mesma poderá contribuir efetivamente para a
divulgação e valorização da música popular e regional. Procurado pelo
Instituto Cultural Fala para o Desenvolvimento das Mídias Populares da
Amazônia, aceitou prontamente gravar músicas de seu vasto repertório em CD
que ele próprio concebeu e que está sendo lançado com a finalidade de
arrecadar fundos para a implantação da rádio Trata-se do CD “Batuque
Amazônico, Coletânea Especial Nº 1”, que reúne em 15 canções uma
esplêndida mostra da obra de Eduardo e outros autores da terra. “Caminho
Nativo”, música de abertura do CD, que canta as belezas de alguns dos
nossos mais importantes municípios. Beto Paixão, santareno, canta com João
Otaviano Matos “Dança da Mata” sua bonita homenagem aos “encantos” de
Santarém. “Matutando” conta com a participação especial de Nazinha. O
saudoso Wilson Fonseca é lembrado com a regravação de “Lenda do Boto”. As
faixas finais “Canto da Lua” e “Carimbo da louvação” são interpretadas por
Ilma Maria. Estão entre outras canções conhecidas do público e que ajudam
a compor o que a música paraense e amazônica tem de melhor.
Como poucos, Dias consegue congregar emoção, amor, ternura ao
cantar histórias típicas do povo, fazendo resplandecer em cada verso o
orgulho de ser da Amazônia, a paixão de ser paraense, e valorizando o que
há de melhor na região: os rios caudalosos, a mata verde e exuberante, o
caboclo, o boto, o boi-bumbá, o perfume da terra. Canta o Pará autêntico
em seus ritmos, danças e lendas. Seu “canto é flor de sangue” seu “verso
seiva de amor”. Eduardo consegue exprimir em tudo o que canta o fascínio
próprio de quem ama o que faz. É Cantor, compositor e poeta. Versátil.
Três figuras que se complementam de forma harmoniosa, incorporadas em um
único ser: Eduardo Henrique Chaves Dias, ou simplesmente Eduardo Dias.
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