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José Cardoso Ayres
(Seu Ayres)
Biografia
escrita por Ademar Ayres do Amaral
Filho de família humilde, José Cardoso Ayres nasceu em Portugal em 8 de
Junho de 1886, na aldeia de Murganheira, Província de Beira Alta. Começou
a trabalhar ainda muito jovem, logo mostrando uma vocação de berço para o
ramo da farmácia, conseguindo um emprego de auxiliar lá mesmo em Portugal.
Forçado pelas circunstâncias de sobrevivência, pelas dificuldades da
família e por um grande espírito aventureiro, um dia tomou um vapor para
tentar a vida no Brasil, chegando no porto de Belém do Pará em 1908, com
22 anos de idade. E ele sempre contava cheio de orgulho que dormiu a
primeira noite daquele distante 1908, tendo como cama um banco da Praça do
Reduto e, como teto, as estrelas do firmamento. Procurando os patrícios na
cidade, ele conseguiu morar de favor com um deles em uma casa de venda de
frutas e, por ter experiência no ramo de farmácia, logo arranjou uma vaga
na tradicional Farmácia Pontes, pertencente à família Brito Pontes, lá
mesmo no bairro do Reduto, onde, por sua dedicação e competência, logo
passou a atuar como o principal auxiliar no setor de manipulações.
Recebia, na época, um salário de 400 mil reis, dos quais enviava metade
para o sustento da mãe viúva, em Portugal, e dos seus cinco irmãos.
Posteriormente, com a melhora no emprego e algumas economias, instalou por
conta própria uma farmácia em Belém, localizada na esquina da João Balbi
com a 22 de Junho(hoje Rua Alcindo Cacela). Isso, após haver obtido o
título de Prático de Farmácia em exame realizado no Departamento de Saúde
do Estado e sem nunca ter freqüentado estabelecimentos de ensino médio e
superior. Mais tarde, insatisfeito com o comércio farmacêutico e sempre
empurrado pelo espírito aventureiro de conhecer melhor nossa Amazônia,
conseguiu vaga de “médico de bordo” e passou a fazer viagens, no percurso
Belém-Acre, nos navios gaiolas da Amazon River. Eram viagens longas de 6
meses em barcos a vapor(a lenha era o combustível), parando às vezes dias
em cada porto para apanhar passageiros e abastecer o navio, sendo, por
isso, muito comum na região amazônica daquela época, o termo “porto de
lenha”. Responsável pela saúde dos passageiros durante o trajeto, o Sr.
Ayres também prestava assistência aos ribeirinhos por onde o navio
passava, tendo experimentado episódios incríveis naquelas viagens. Um
deles aconteceu por volta de 1910. Num dos portos de lenha da Ilha do
Marajó, viu-se chamado para atender, em terra, uma senhora que há mais de
5 dias estava em “trabalho de gestação”, mas já não tinha forças para
terminar a última fase natural do parto. Seu Ayres, como já era chamado,
sem ter sequer uma ampola da valiosa ergotina para dar solução imediata ao
problema da parturiente, mas desejando solucionar a situação crítica
daquela pobre criatura, pediu um pouco de tabaco e preparou um bom rapé,
cuja aplicação foi suficiente para, no 3º espirro, obter o
resultado esperado e fazer nascer mais um caboclinho marajoara. Nesse
período, sua fama pouco a pouco foi se espalhando pelas beiradas dos
nossos rios, atendendo a todos com muita abnegação e sendo considerado uma
pessoa muito prestimosa. Com regalias de “médico de bordo”, era sempre
benvindo nos portos e nas casas das famílias, para dar soluções das
doenças mais freqüentes e até mesmo para pequenas cirurgias, que fazia com
improvisações capazes de suprir as deficiências instrumentais. Ao mesmo
tempo, encantado com nosso interior, foi observando atentamente cada
cidade, vendo o movimento do comércio, tudo na tentativa de identificar
uma delas onde pudesse, mais tarde, parar para instalar uma farmácia e
constituir família. Foi assim que ele passou a ter a idéia fixa em Óbidos,
que era a cidade interiorana mais progressista daquela época da história
paraense, com comércio forte, e uma grande guarnição militar.
Certa vez, aproveitando a parada do vapor na cidade de Maués, no Amazonas,
saltou para conhecer o lugar e viu uma bela moça debruçada numa janela.
Ela, pertencente à tradicional família Michiles, das plantações de
guaraná, encantou o visitante e o namoro acabou acontecendo e progredindo
em cada passagem do navio pela cidade. Em 1918, com apenas 700 mil reis no
bolso, seu Ayres casou a bordo do navio Santa Maria, no porto de Óbidos, e
lá desembarcou para nunca mais sair. Fixou residência e instalau sua
famosa e histórica farmácia, a Farmácia Esculápio, nome dado em homenagem
ao Deus da medicina.
De carater reto, trabalhador e sempre dedicado aos pobres e aos fracos,
logo tornou-se um participante ativo da comunidade obidense, como membro
e, mais tarde, presidente por vários anos da Sociedade de S. Vicente de
Paula. Do casamento com a moça de Maués, nasceram, Maria, José, Miguel,
Ana( a professora Santana), Dolores e Manuel Ayres, este último, médico
que anos depois se notabilizaria no Estado do Pará, com feitos no campo
científico e na administração pública. Com seu trabalho na área da saúde,
seu Ayres, mais tarde “velho Ayres”, foi se tornando figura benquista e
respeitada, pois não havia quem chegasse na cidade e não o procurasse, não
só para pedir-lhe uma receita, como também para uma boa prosa. Sempre
encontravam-no cordial em sua roupa branca, camisa de mangas compridas,
suspensório, gravatinha borboleta e um inseparável chapeu de palhinha para
os atendimentos caseiros sob o sol escaldante da cidade. Nada cobrava
pelos serviços, pois sempre afirmava que era apenas um prático de
farmácia, mas até os médicos da época, como Firmo Cardoso, Cordeiro de
Melo e outros da guarnição militar de Óbidos, reverenciavam a grandeza e o
conhecimento do velho Ayres nessa área.
Utilizando a flora amazônica, o farmacêutico foi autor de vários produtos
com fórmulas próprias, sendo os mais destacados, o Elixir de Marupá,
Elixir de Paxuri, Elixir de Salsaparrilha, Carnaúba e Cabacinha e Elixir
Contra Icterícia. A casa de moradia, anexa à farmácia, era como um
laboratório, sempre cheia de ervas em infusão para o preparo dos remédios,
os quais eram receitados pelos médicos da localidade e muito elogiados
pelas curas obtidas.
Ocupou o honroso cargo de Vice-Consul de Portugal, em Óbidos, função que
exercia na época dos festejos do Centenário da nossa independência, em
1922. Amigo dos esportes, ajudou, como sócio e como presidente, o
memorável Amazônia Clube de Óbidos, deixando uma grande soma de
realizações.
Quando instalou sua farmácia na cidade, era Intendente, na época, o Sr.
Augusto Correa Pinto, pai do escritor Augusto Correa Pinto Filho. Seu
Ayres teve várias divergências com o então Intendente, e acabou
filiando-se aos revolucionários que levaram à nação ao movimento vitorioso
de 1930. Preso o Intendente Correa Pinto pela revolução de 30, Seu Ayres,
apesar das relações estarem cortadas pelas divergências anteriores, mas
reconhecendo os excelentes trabalhos daquele probo e digno homem público à
frente da Prefeitura, na década de 20, foi à Delegacia de Polícia e, com
sua autoridade reconhecida por todos, libertou o pai do nosso escritor e
poeta. Esse gesto foi sempre reconhecido pelo saudoso Correa Pinto Filho,
que homenageava o Sr. Ayres todas as vezes que o encontrava, derramando
agradecimentos para aquele que considerava seu segundo pai.
Seu Ayres teve outro gesto de grandeza durante a Revolução
Constitucionalista de 1932, quando foi sublevado o Quartel de Óbidos pelo
Coronel Pompa, episódio esse imortalizado pelo escritor obidense,
Ildefonso Guimarães, no excepcional livro, Os Dias Recurvos. O braço da
revolta paulista em Óbidos, havia sido derrotado, o Coronel Pompa já era
um fugitivo escondido nas matas do Trombetas, mas os oficiais da
legalidade ainda continuavam presos no quartel pelos novos comandantes
revolucionários, que ainda não tinham sido informados da derrota e fuga do
coronel. Sabendo o que tinha acontecido, seu Ayres foi com a cara e a
coragem até o Quartel dar a notícia da derrota, e mesmo com risco de levar
um tiro, conseguiu libertar todos os prisioneiros na base da conversa.
Esse fato está descrito nas seis últimas páginas de Os Dias Recurvos,
conforme um dos trechos abaixo :
-
Me desculpe, Seu
Ayres; não é duvidando da sua palavra, mas não posso acreditar que o
Coronel...
- Pois,
acredite-me, Cabo. Não só o finório do coronel como os demais seus
comparsas de revolução embarcaram há pouco na lancha “Iracema” e deram as
de Vila Diogo! Foram-se muito lampeiros esconder-se em Oriximiná e
deixaram você aqui sozinho para enfrentar as forças do governo que logo
mais à noite devem estar a chegar. Por isso, não percamos mais tempo;
leve-me logo à presença do Comandante Arruda que quero ter o prazer de
dar-lhe a notícia em primeira mão.
Diniz se contrai. Por sua cabeça passam, em cadência acelerada, a vontade
de descarregar logo o “45” na cara daquele “galego”.....
Mais adiante, na última página do livro, dada a notícia sobre a fuga do
Coronel Pompa ao Comandante Arruda, este diz as seguintes palavras ao
farmacêutico Ayres : “Fique
certo de que jamais esquecerei a sua prestimosa solidariedade!” Em
seguida, Arruda tranca o “tenente” Diniz(na verdade um cabo que havia sido
promovido a tenente pelo coronel Pompa) no xadrez, conforme narra a
talentosa caneta do mestre Ildefonso :
O último a deixar o xadrez
foi o comandante; fez questão disso. Aí, mandou que o cabo entrasse no
recinto e ele mesmo trancou a porta. – Estava terminada a revolução.
Durante esse movimento, seu Ayres teve a Farmácia Esculápio invadida pelo
Coronel Pompa, que requisitou medicamentos e mandou a tropa esvaziar as
prateleiras. Ele então aproveitou para negociar com o coronel a retirada
da família e levou todos para um sítio na costa fronteira de Óbidos,
temendo algum bombardeio da cidade por parte das tropas do governo. Obteve
a permissão do coronel desde que atravessasse o Amazonas hasteando um pano
vermelho na canoa, para não servir de alvo aos canhões da serra da Escama.
Muitos dias depois, segundo narra a professora Santana(filha que na época
tinha 9 anos), o português apareceu a cavalo, no sítio, dando a boa
notícia : - Pronto, vim buscá-los, vamos pra casa, o Coronel
Pompa está preso e a revolução acabou.
Personagem na vida da cidade, o velho Ayres também ingressou na Maçonaria,
tendo sido Venerável da Loja Maçônica de Óbidos, sempre reconhecido pela
sua capacidade de luta e coragem, por sua inteligência e desejo de fazer
justiça. Granjeou tanto reconhecimento que suas opiniões políticas eram
respeitadas e muitas vezes determinavam para que lado se inclinava a
balança. Tinha a amizade do General Magalhães Barata, que não pisava em
Óbidos sem visitá-lo. Por fim, naturalizou-se brasileiro e foi eleito
vereador em 1950, tendo apresentado uma série de projetos junto à Câmara
Obidense, sempre voltados para o lado da saúde e tendo como alvo as
pessoas carentes. Era, então, prefeito da cidade, o saudoso médico,
Raymundo da Costa Chaves.
Seu Ayres faleceu em Óbidos, em 5 de Novembro de 1967, aos 81 anos de
idade. E em 12 de Novembro de 1979, com a presença dos seus filhos e
netos, ele foi homenageado em sessão solene na Assembléia Legislativa do
Estado do Pará, recebendo o Título Honorífico “Post-Mortem” de “Cidadão do
Pará”, por relevantes serviços prestados ao Estado.
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