Ministro:
'Plano do pan poderia ser mais consistente'
Fonte:
BBC Brasi
Daniel Gallas - São Paulo
O ministro
do Esporte, Orlando Silva Júnior, disse nesta
quinta-feira que o planejamento dos Jogos Pan-Americanos
do Rio de Janeiro poderia ter sido "um pouco mais
consistente".
O orçamento
original do Pan, elaborado em 2002, previa uma verba de
cerca de R$ 800 milhões. No entanto, entre verbas
públicas e privadas, já foram gastos mais de R$ 3,6
bilhões nos Jogos que começam nesta sexta-feira.
"Não há que se
tapar o sol com a peneira, o planejamento talvez pudesse
ser um pouco mais consistente, de modo que a expansão
(do orçamento) fosse menos significativa."
O ministro
afirmou que não pretende apontar problemas neste momento
"para não contaminar o ambiente dos Jogos", mas disse
que o planejamento do Pan deverá ser analisado após o
encerramento do evento.
O ministro,
que ficará no Rio de Janeiro durante o Pan, conversou
com a BBC Brasil por telefone e respondeu a perguntas
enviadas por internautas.
Confira abaixo
a íntegra da entrevista.
Que planos
o senhor considera mais apropriados para o uso futuro
das obras que foram feitas e quanto será gasto
anualmente para manutenção desses prédios? (pergunta de
Leonardo C. Costa, Luis Claudio Ornellas Coelho e Marcus
Macedo)
Primeiro, é
preciso transformá-los em centros nacionais de
treinamento para cada uma das modalidades possíveis de
serem praticadas nestes locais. Segundo, alguns espaços,
como a Arena Multiuso e o Maracanãzinho, são instalações
que podem ser disponibilizadas para outros tipos de
atividades, não apenas esportivas, como culturais, pois
têm um caráter multiuso.
Não há um
orçamento definido para a manutenção das instalações,
porque isso vai ser estruturado a partir de projetos
debatidos com cada confederação.
E essas
instalações seguramente permitirão ao país participar do
circuito desportivo internacional. Receberemos vários
eventos com essas instalações para receber torneios
internacionais das várias modalidades.
Haverá
verbas para a manutenção das dependências esportivas
após o término do Pan? Quem irá bancar essas despesas?
(Jorge de Almeida Porto)
Estas
estruturas podem ser mantidas por recursos próprios do
Ministério do Esporte, por recursos do Estado ou da
prefeitura, dependendo de quem é o ente governamental
responsável pela estrutura ou instalação. E pode ser
mantido, eu acredito, através de recursos privados que
podem ser estimulados com a lei de incentivo. A lei de
incentivo, que foi aprovada no ano passado e que o
presidente Lula agora regulamenta durante os Jogos
Pan-Americanos, vai servir de estímulo para que as
empresas possam investir no esporte.
Isso já
está definido? Quais instâncias de governo vão herdar as
estruturas depois dos Jogos Pan-Americanos?
Já está
definido. Alguns deles são próprios, no caso do Estado.
O Estádio de Remo da Lagoa, o Maracanã e o Maracanãzinho
são áreas específicas próprias do Estado. A Vila Militar
Deodoro e o Parque Aquático Maria Lenk, que tiveram
investimento grande do governo federal, são instalações
nas quais nós deveremos assumir a coordenação.
No caso do
Estádio Olímpico João Havelange, que é um espaço da
Prefeitura, ela já sinalizou que pretende fazer uma
seleção pública para definir quem vai ocupar e explorar
aquelas instalações. Será uma disputa saudável entre
Botafogo e Fluminense, ou um entendimento para que os
dois possam ocupar conjuntamente aquele espaço, o que
tornaria mais sustentável a ocupação do Estádio.
Já se tem
idéia de qual será o legado do Pan para a segurança no
Rio? (Jorge Antonio Barros)
Foi feito um
investimento importante de aproximadamente R$ 562
milhões em segurança. E 75% desse investimento vai ficar
para o Rio de Janeiro. Esses recursos foram utilizados
para compra de aeronaves e viaturas, para modernizar
meios de comunicação, para comprar armas, e um
investimento forte para garantir uma força nacional de
segurança forte e capacitada. Ela estará qualificada
para se mobilizar a qualquer tempo para qualquer ação
estratégica de segurança do país.
E ficará com o
conceito de segurança-cidadã, que é um conceito que
prevê não só a repressão quando for necessário, mas
sobretudo que parte da premissa de prevenção, de
garantia de direitos para que populações vulneráveis não
fiquem expostas à ação criminosa.
O Brasil
está se preparando para adequar sua infra-estrutura -
não só a esportiva - para as necessidades exigidas de um
país que quer ser sede de uma Copa do Mundo? (Fernando
Ramos Gonçalves, Hans Misfeldt, Patrícia Jaeger e Marcus
de Sousa)
Eu tenho dito
que Copa do Mundo é muito diferente de Olimpíadas e
Pan-Americanos. Copa do Mundo é uma modalidade apenas e
acontece em 32 cidades diferentes, já que cada Seleção
deve estar em uma cidade, durante a fase preparatória do
evento. Deve haver 12 sedes, pelo menos. Pan-Americanos
e Jogos Olímpicos são eventos multi-esportivos
concentrados em uma cidade.
A maior parte
das instalações esportivas que o Rio de Janeiro possui
agora a partir do Pan possui uma qualidade e um padrão
compatível com necessidades olímpicas. Nosso desafio
agora é mantê-las qualificadas permanentemente, de modo
que na hipótese de o Brasil sediar uma edição dos Jogos
Olímpicos nós não tenhamos retrabalho e possamos partir
de um belo parque esportivo instalado no Rio de Janeiro.
Qual o
motivo para o orçamento do Pan ser agora quase dez vezes
o planejado inicialmente? (Claudio Lara, Leonel Ricardo
de Andrade, Isac, Eduardo Silva e Antonio Cesar Costa
Nunes)
Essa é uma
informação que careceria de precisão. Se nós
atualizarmos os números do projeto que foi aprovado na
época da candidatura, nós chegaríamos a valores
aproximados de R$ 900 milhões. Então não é exatamente
dez vezes. Mas ainda a expansão de quatro vezes do
orçamento é uma expansão muito significativa. E se deve
a dois fatores.
Primeiro, a
elevação do padrão das instalações. No processo de
preparação do Pan, concluímos que faria pouco sentido
você fazer um investimento em um evento dessa magnitude
se isso não permitisse o país ter, após o Pan,
instalações que servissem a um projeto olímpico.
Segundo, o Pan
é oportunidade de investimento. No caso da segurança,
por exemplo, eu falei de R$ 560 milhões. O orçamento
previsto inicialmente era praticamente para segurança
patrimonial. Se nós não fizéssemos o investimento em
segurança, por exemplo, nós iríamos perder uma
oportunidade de transformar a segurança pública do Rio
de Janeiro.
E terceiro,
não há que se tapar o sol com a peneira, o planejamento
talvez pudesse ser um pouco mais consistente, de modo
que a expansão fosse menos significativa.
Mais
consistente aonde, exatamente?
No conjunto da
obra, né? O conjunto do planejamento evidentemente deve
ser objeto de análise no futuro, após o encerramento dos
Jogos, uma vez que os Jogos estão em curso nesse
momento. Mas haverá um momento em que faremos uma
avaliação e identificaremos fatores que determinaram que
essa expansão tivesse se dado na magnitude em que se
deu.
Há algo que
o senhor já tenha visto que deveria ser melhor...
Eu prefiro
falar sobre isso depois. Para não contaminar o ambiente
dos Jogos. Ajuda pouco. Não vai ter nenhum tipo de
repercussão na preparação dos Jogos, vai ficar apenas
como lição, como legado, para projetos futuros.
Para
conquistar um lugar no pódio, muitos atletas tiveram que
lutar muito e contar com muita sorte e pouco incentivo.
Então, porque não investir R$ 3,6 bilhões no esporte
nacional ao invés de bancar um evento como o Pan? O
senhor acha justa e correta a aplicação desse montante
em um evento com duração de 30 dias? (Sebastian Krieger,
Emerson, Wanderley Stagilano, Karina Efigênia Tola, Cris
Fonseca e Luis Claudio Ornellas Coelho).
Esse é o
problema do ovo e da galinha. Quem vem primeiro? É
semelhante. Não dá para nós estabelecermos uma
contradição entre grandes eventos internacionais e
desenvolvimento do esporte nacional, assim como não
podemos estabelecer uma contradição entre o esporte
competitivo e o recreativo.
O trabalho que
nós fazemos hoje é para garantir políticas públicas que
assegurem o direito ao esporte. Competitivo para quem
queira participar dos esportes de rendimento, e
recreativo, no sentido de integração, de qualidade de
vida, de promoção de saúde.
Então, não tem
contradição. Do mesmo modo que não há contradição em
apoiar o esporte do Brasil e promover um evento
internacional. Um evento como o Pan promove o país no
exterior. Um evento como o Pan pauta o esporte na agenda
nacional. Cria instalações adequadas para o
desenvolvimento do esporte brasileiro.
Ele motiva os
nossos atletas e permite que os nossos atletas convivam
com os melhores do mundo. Ou os melhores das Américas, o
que repercute também na elevação do nível técnico do
nosso esporte.
Então, fazer o
Pan no Brasil permite participar de todas as
modalidades, até nas que temos menos tradição. Imaginar
que o Pan é um entrave ao desenvolvimento do esporte é
fazer uma leitura, digamos, equivocada das oportunidades
esportivas, econômicas e de investimento nas cidades,
como o Rio de Janeiro, que é um portal de entrada do
mundo para o Brasil. O Pan significará um divisor de
águas no esporte brasileiro.