"Histórias e causos do IG"

O Portal de Óbidos teve a honra de ter como colaborador assíduo o nosso grande escritor Ildefonso Guimarães. Aqui estão reunidas as ótimas histórias engraçadas relacionadas ao cotidiano da nossa cidade e também homenagens que ele prestou aos tipos inesquecíveis de nossa terra. Seu ultimo envio foi esse relato sobre Dona Chaguita, que ele mandou a menos de uma semana da sua partida aos 85 anos de idade.

 

“TIPOS INESQUECÍVEIS”
Contribuição de Ildefonso Guimarães

VI – Dona Chaguita

        Seu nome fidalgo (Francisca das Chagas Simões Pantoja), nada tem a ver com a popular Chaguiita com que a simpatia de seus conterrâneos a eternizou por sua doçura de pessoa humana, ágil, gentil e útil à coletividade.
        Não sei de nenhum fato pitoresco que envolva a lembrança de Dona Chaguita. Marcou-a sempre o carisma de sua personalidade administrativa. Jovem ainda, perdeu o marido na célebre batalha naval de Itaquatiara (1932) em que ele se engajou com o intuito de ajudar a derrubar a Ditadura Vargas (é mencionado em meu livro, Os Dias Recurvos: o Pantoja que fazia parte da cúpula civil da revolução. Foi um dos que não voltaram).
       Filha de tabelião (como se designavam, ao tempo, os atuais cartorários) seu pai, Carlos Simões, era um tipo bonachão, figura rotunda que irradiava simpatia. Lembro-me dele vagamente, sentado em sua confortável preguiçosa, em frente ao cartório-residência no antigo Largo de Sant’Ana, sempre rodeado por amigos para um papo legal, ao embalo da brisa fresca que sopra do grande Amazonas nas tardes estivais, acariciando a praça.
       Chaguita teve dois irmãos: o Carlos, que foi meu contemporâneo de infância e juventude (ainda estará vivo?) e a Zulma, uma beldade de lindos olhos azuis, que se casou com o fazendeiro Zé Paturi e mudou-se definitivamente para Belém.
       Chaguita, entretanto (além do jovem marido morto) parece só ter tido outro amor na vida: Óbidos, a quem dedicou o resto da existência. --- Durante o passar de mais de seis décadas viveu para servir à sua terra, a quem enalteceu: não só pelo trato administrativo memorável -- como secretária especial que foi da Prefeitura local, onde atuava como uma espécie de oráculo vivo --; como pela informação escrita que deixou sob a saga obidense, alvo da consulta de estudiosos da história, dos costumes  e da vivência pauxis.
      No fim dos anos 80 (ou início dos noventa?) Chaguita visitou Belém e deu-me a honra de ser seu assessor junto à direção da Academia Paraense de Letras. Foi a última vez que a vi e partilhei seu agradável e ilustrativo convívio.
       Nos fins da década dos 90 revisitei Óbidos. Tentei rever a conterrânea ilustre, mas soube por um seu familiar que ela já não reconhecia as pessoas. Desisti. – Não quis contemplar a decadência física da mulher mais brilhante e ativa da minha terra, durante a centúria que findou.  --- Óbidos ainda está a lhe dever uma justa homenagem. Que tal a Câmara Municipal outorgar-lhe post mortem o título de Personalidade Feminina Obidense do Século XX? Ou a placa de uma rua com seu nome. Ou ainda a Prefeitura Municipal mandar esculpir-lhe o busto em bronze e colocá-lo no pórtico do prédio da administração municipal, onde laborou por quase toda a vida?


V – Cora Simões

     Nestes ócios da velhice, ao relembrar fatos distantes para contar aos conterrâneos do presente, vem-me agora à memória um deles ligado à família Simões, de que fui vizinho na antiga Rua da Prainha (hoje Dr. Machado), na nevoenta década dos 20. Os fatos aconteceram ainda nos albores da juventude de sua protagonista, que se chamava Cora, falecida no recente ano de 2001, com mais de 90 janeiros de uma vida dedicada ao ensino fundamental.

      Talvez a maioria de seus contemporâneos deste iniciar de milênio ignore o distante fato, mas a velha senhorita Cora Simões, conquanto não tenha a história ligada a nenhum vaticínio funesto, teve sua vida esmagada por um noivado infausto, que lhe marcou para sempre o destino de mulher e a ele conservou-se fiel pelo resto da vida. Fato semelhante assinalou também a existência de uma das figuras mais solares da inteligência paraense no século XX: o professor Francisco Paulo Mendes. Sua primeira e única namorada faleceu durante o noivado e ele tornou-se celibatário para o resto da vida.

      No caso de Cora Simões, todavia, o acontecimento foi cercado pela tragédia, o que amargurou para sempre o sentimento da jovem noiva, a ponto de conservá-lo fiel ao seu amado pelo total da existência. O que demonstra que ambos Cora e seu noivo, eram criaturas sensitivas, da mais alta sensibilidade já imaginada.

      Raimundo Palácios (Dico para os familiares) veio parar em Óbidos a fim de cumprir o serviço militar (como era prática na época) e logo se tornou conhecido e simpático na cidade, por suas qualidades de moço bem educado e pertencente a conceituada família santarena de ascendência boliviana (ou peruana).

       Daí que, em pouco tempo, enamorou-se de Cora, relacionou-se com a família Simões e pediu a moça em casamento – Não pretendia viver em Óbidos depois de cumprido seu recrutamento. Casado, voltaria para Santarém onde tinha emprego certo.

       Todavia, a insídia do destino resolveu em contrário. Palácios caiu na antipatia de um oficial do Forte de Óbidos, que tinha uma filha casadoira e com quem o rapaz parece que teve um namorico anterior. Quando soube do noivado de Dico, o militar começou a persegui-lo a ponto de acabar lhe aplicando uma punição disciplinar de 21 dias de xadrez.

         O rancoroso castigo levou o moço ao desespero. Extremamente sensível, sentiu-se desonrado e suicidou-se com um tiro de fuzil no peito, não sem antes deixar afixada, numa das paredes da prisão, uma folha de papel para onde transcreveu, como de sua autoria, o célebre soneto de Augusto dos Anjos, intitulado “Versos Íntimos”, cujo dístico mudou para o de um outro poema do mesmo autor: “Psicologia de um Vencido” e deixou a composição em duplo plágio como seu epitáfio e justificativa para o gesto supremo.

         Ninguém percebeu, na ocasião, o extremado, mas perdoável “furto”, que o tresloucado cometeu na literatura universal, para vergastar com seu suicídio a mão vingativa que o punira. Por certo o próprio “Poeta da Morte” o terá perdoado, comovido com o gesto do suicida, e cedeu de bom grado seus versos para castigar quem o injustiçou :

                               Vês! Ninguém assistiu ao formidável.
                               Enterro de tua última quimera.
                               Somente a ingratidão, essa pantera,
                               Foi a tua companheira inseparável. 

                               Acostuma-te à lama que te espera,
                               Homem, que nesta terra miserável,
                               Vive entre feras e sente a inevitável
                               Necessidade de também ser fera.

                               Toma um fósforo, acende o teu cigarro!
                               O beijo, amigo, é a véspera do escarro;
                               A mão que afaga é a mesma que apedreja.

                               E se a alguém causa, ainda, pena a tua chaga.
                               Apedreja essa mão vil que te afaga
                               E escarra nessa boca que te beija”.

      O acontecimento abalou a cidade. O enterro do jovem suicida é possível que até hoje não tenha tido ali precedente em compunção pública: atraiu ao velho cemitério de Óbidos quase toda a sua população, na época.
       Mas, dos milhares de seres que se comoveram com a tragédia do infeliz Palácios, um só não teve consolo com o repassar do tempo (e foi tão longo!): sua noiva, Cora Simões, que lhe ofereceu em holocausto a viuvez de seu coração, em quase oito décadas de saudade.



IV -- Benjamim Muniz

      Para falar a verdade, até hoje não sei ao certo de que vivia Benjamim Muniz. Só posso dizer que era o playboy de uma família de grande tradição obidense. Seus outros irmãos eram todos militares; um deles o Tenente Pedro Muniz, chegou a ser Prefeito da cidade. O mais velho, Antônio, era brigada , graduação que corresponde atualmente à de Sub-Tenente, ou Sub-Oficial. Desse Antônio Muniz descendeu um dos mais brilhantes zagueiros do então glorioso Clube do Remo, o Muniz da famosa zaga (Modesto, Jambo e Muniz), num tempo em que não havia futebolista mercenário. -- Mas isso não vem ao caso, o que interessa aqui é a figura divertida do nosso biografado de hoje: o pândego Benjamim Muniz, conhecido na saga pauxi pelas suas embrulhadas farofeiras, sua divertida figura de irreverente, seu jeito descontraído de levar a vida. O outro irmão militar era o cabo, também do Exército, Joaquim Muniz, o Cabo Diniz de “Os Dias Recurvos” que foi guindado a tenente na Revolução do Pompa.
   
 Se não me engano, Benjamim teve vida curta. Quando voltei à Óbidos, nos anos 40, depois da primeira temporada fora, cumprindo a carreira militar, não ouvi mais falar dele; creio que emigrou para o então emergente Território do Amapá, ou mesmo para Belém; sei lá.
      Benjamim – além de suas farras e brincadeiras -- era dado a conquistas amorosas; sua glória era namorar as garotas mais difíceis da cidade. Namorar, naquele tempo, não tinha as permissividades de hoje. Hímen era coisa seriíssima (tanto que a casamento chamava-se também himeneu) e mulher lhe sabia muito bem a duplicidade do preço: era a gloria ou o abismo. Daí as conquistas de Benjamim serem por assim dizer aleatórias; calcadas apenas no prazer de realizá-las sob um clima de passageiro triunfo, que pouco depois ele esquecia, partindo para outra, sem qualquer compromisso a reparar.
       Como naquele tempo – principalmente em cidade do interior – a maioria católica superava nas estatísticas, Benjamim, por gauchada, se comprazia em conquistar as beldades das minorias confessionais então existentes: a evangélica ou a espírita (por serem mais raras e mais difíceis) e sua estratégia consistia em se converter “à priori” ao respectivo credo da pretendida. Então, dava gosto se ver seu ardor religioso: nos Cultos, o fervor de suas pregações evangélicas que encantavam e compraziam os fiéis; nas reuniões cardecistas, destacavam-se as qualidades de médium vidente do dedicado catecúmeno...
      
 Só por birra, arrastava também a asa para a filha do fogueteiro local, um nordestino aleijado de uma das pernas, que andava apoiado em duas muletas. O fogueteiro, que o conhecia de sobejo,  não suportava o namoro e descarregava o desgosto em sua mulher, mãe da menina: “Oia, muler, outra vez que eu Bejamim Muniz conversando com Izabé (a filha), eu dou-te de perna-de-pau, muler. Eu dou-te de perna-de-pau! ”
        Porém, (embora não tivesse feito carreira), Benjamim também passou pela caserna, como a maioria dos obidenses de então. Cumpriu seu serviço militar sob o comando de um capitão  chamado Bastos Nunes, que tinha rixa política com o Promotor de Justiça local, conhecido por Dr. Galdino. Certa noite, em que Benjamin estava de serviço, dando sentinela no portão principal do quartel, um troço de soldados à paisana, usando máscaras de pano e armados de porretes, saiu do quartel – dizem que sob a complacência do Comandante – e foram aplicar uma surra no detestado Promotor. --- Foi um escândalo na cidade, e no meio dos muitos murmúrios e boatos que se sucederam a respeito, um contava que – apavorado – Benjamim Muniz, de sentinela na hora do acontecimento, borrou-se no culote...
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                Não demorou nada, uma chula travessa (música de crítica popular que predominava na época) assim cutucava o acontecimento:

                                               Meu Deus que horas são estas,
                                              Que o Galdino apanhou!
                                              Embala, embala, embala:
                                             O Benjamim já se cagou...

III – “Seu” Maguito

     Lembro-me vagamente de “Seu” Maguito. Acredito que ele se tenha ido ainda na primeira metade do século passado. Mas me recordo bem do seu bio-tipo: magrinho e ligeiro, meio ciclotímico, mas sempre elegante. Trajava diariamente paletó e gravata; chapéu de palhinha com sua indefectível faixa preta e laço borboleta (que hoje só se vê em telenovela de época), pois era funcionário público: parece-me que chefe de uma das mesas-de-renda locais; não sei se da federal ou da estadual. Nas horas vagas, entretanto, era um dos mais impagáveis boêmios de que houve notícia em Óbidos, naqueles recuados tempos; famoso por suas paradas sensacionais. Nada de escandaloso ou prejudicial; apenas patuscadas leves, mais para o humorístico que para o escabroso. “Seu” Maguito era um gozador inveterado. Das muitas sortidas que cometeu, uma há que patenteia sua performance de irreverente incontrolável. – Contava-se que, certa vez, ciceroneando um inspetor de sua repartição em missão de serviço na cidade, levou-o a visitar uma das famílias destacadas da terra, para apresentá-lo – como prometera – às moças que considerava as mais bonitas de Óbidos. --- Na casa, moravam a matriarca e três filhas solteironas, pois os homens, todos casados, cada qual tinha seu lar em separado.
        Recebido pela dona da casa, Maguito apresentou-lhe o seu colega de repartição e pediu à senhora que chamasse à sala suas três filhas, pois queria que seu amigo as conhecesse – Atendido o pedido, depois das competentes apresentações, Maguito iniciou seu discurso:
       “Seu Leocádio, como o senhor está vendo, e eu lhe prometi,  estas são as moças mais  bonitas de Óbidos. Veja só que olhos... Que cabelos...Que lábios!”
       -- Desconcertadas, as meninas começaram a sentir-se acanhadas, num tempo em que pudor era lugar-comum entre as mulheres bem criadas.
       “Que é isso, Seu Maguito, não exagere! – Arriscou encabulada a velha senhora”.
       “Nada disso, Dona Marocas! Só falo o que eu sinto...”

E prosseguiu:
    “Veja, Seu Léo! Olhe só que braços, que carnadura!... Ponha bem seu reparo nesses ombros carnudos, nesses peitos de sereia,  e veja que seios rijos. O senhor já viu seios mais duros e apetitosos, na vida?... Hein, Seu Leocádio?”
   -- Encabuladas, as três solteironas se levantaram, já dispostas a deixar a sala. Porém, Maguito prosseguiu inflexível:
    “Veja, Seu Léo... Preste bem atenção nessas coxas... O senhor já viu coisa mais perfeita que esses pares de coxas?”
    Aí, foi o princípio do fim: as três donzelas baixaram as cabeças, mortas de vergonha, voltaram-se imediatamente, dando as costas aos visitantes e caminharam ligeiras, dirigindo-se para o interior da casa.
     Então Maguito arrematou triunfante: -- “Veja , Seu Leocádio! Repare bem, meu amigo! ... Olhe só que bundas!”

 

II -  “Seu” Ayres

         A biografia de Seu Ayres (José Cardoso Ayres), o cidadão português-obidense (acho que muito mais obidense  que português) já consta deste site com exímia precisão, relatada por seu neto-escritor Ademar Ayres do Amaral. No que me diz respeito, quando me entendi, já o conheci obidense, de gravatinha borboleta, dirigindo sua farmácia e prestando relevantes serviços de saúde à população (instalou-se em Óbidos, segundo Ademar, em 1918, um ano antes de minha vinda ao mundo). Mais tarde, eu já homem feito, viemos a ser muito amigos e fundamos juntos a atual Loja maçônica de Óbidos. Da importância social e econômica de seu Ayres na vida do município, já o relata com justo orgulho ancestral o nosso escritor Ademar Amaral; o que importa aqui, nesta breve nota, é destacar uma faceta do caráter desse obidense admirável: seu destemor indômito, sua coragem espartana. De estatura mediana, mas de robustez inimaginável (certa feita vi-o levantar com as mãos uma motocicleta, para afastá-la da porta da nossa loja maçônica, onde estava estacionada empatando a entrada). Seu Ayres era um homem que enfrentava impassível qualquer situação; irradiava uma aura de respeito ingênito, repontada no olhar tranqüilo e firme e em sua postura natural de líder inato. Em quase todas as ações em que tomava parte na sociedade obidense, era invariavelmente escolhido para funções de relevo: na Maçonaria, foi por diversas vezes o Venerável (presidente) da Loja local; na Igreja, dirigia a Irmandade dos Vicentinos de que fazia parte para prática de caridade; e no Amazônia Clube (onde se aglutinava a elite local) foi por diversas vezes Presidente da associação.

         Aconteceu, pois, numa dessas ocasiões em que dirigia o clube, o episódio-motivo deste relato. O Amazônia, com seus dois amplos salões de baile, abrigava muitas vezes funções extras, tais como exibições teatrais (em palco improvisado) de trupes mambembes que naquela época percorriam o oeste paraense, operando seus espetáculos. Numa dessas ocasiões, seu Ayres, na presidência, foi avisado de que um soldado do Exército havia pulado a cerca dos fundos do Clube e “furara” o espetáculo. Imediatamente dirigiu-se ao salão respectivo e ordenou que o furão se retirasse do recinto. O soldado negou-se a obedecer. Seu Ayres então sacou do revólver que sempre o acompanhava e fez o sujeito deixar, não só o recinto, como pular novamente a cerca por onde tinha penetrado no clube.

 Nesse tempo, comandava a tropa local um capitão que deixou sombria memória em Óbidos, por suas maneiras de feitor. Chamava-se Frederico Drummond e a cidade deve a ele a atual praça de esportes em frente ao Quartel, feita a braço e suor de soldado. Deixei o meu por lá durante seis meses de recruta. -- Na manhã seguinte, mal chegado ao quartel, o caso do praça intruso lhe foi relatado. Em vez de punir merecidamente o infrator, o capitão achou que deveria castigar Seu Ayres por ter humilhado publicamente um soldado de seu comando. Ato contínuo, montou o cavalo-de-sela de sua servidão e lá se foi, possesso da vida, no rumo da Farmácia Esculápio, que nesse tempo ficava no fim da Rua do Bacury, de frente para a foz do igarapé Pauxis. Na ocasião, por uma dessas coincidências do destino, Seu Ayres estava abrindo uma caixa de garrafas de ácido sulfúrico, cujos rótulos, em letras graúdas, se destacavam, estampando inclusive o conhecido símbolo de veneno.

         O capitão adentrou, furibundo, a farmácia e, chicote em punho, bradou que ia retalhar a cara do galego de m... que tivera a audácia de humilhar um soldado sob seu comando...

         Seu Ayres encarou serenamente o ferrabrás, apanhou do bloco arrumado no balcão ao lado uma das oportunas garrafas de ácido, desarrolhando-a. Ergueu-a a altura do ombro direito e disse secamente ao ameaçante: “O senhor pode entrar!”... Foi a conta: o capitão esbravejou, lançou impropérios e ameaças à vontade, disse que faria e aconteceria... Mas não usou transpor o gradil que o separava do impávido farmacêutico. Sua mão sequer se aproximou da cancela.


I  -  Hermogenes

    Entre meus contemporâneos de adolescência e juventude, um se destacava por sua verve satírica: o gozador e sarcasta Hermógenes Leão da Costa, figura inesquecível da paisagem humana obidense, naqueles tempos adoráveis.  Em nossa fase de rapazolas (mudando a voz), fundamos um clube virtual que só funcionava aos domingos, alugando um dos salões do fidalgo Amazônia Clube e embarcando na música (banda) dos dançarás que o Amazônia oferecia a seus sócios nas tardes domingueiras: a nossa sede era nos fundos do botequim de Dona Amália (mãe do nosso consócio Didoca) na esquina da rua Eloi Simões com o Largo de Sant’Ana. Quando a coleta da mensalidade corria numa lista entre os associados do nosso clube, Hermógenes escrevia no lugar de seu nome: já  falecido  -- Inteligente e satírico, ele foi autor de dezenas de apelidos, alguns clássicos e inesquecíveis como o do músico Eduardo Perna-de-Arco (tinha uma perna defeituosa e manquejava, o coitado). Eduardo tocava clarinete e Hermógenes costumava levar no bolso uma banda de limão embrulhada em papel-de-seda, ao comparecer às festas dançantes, principalmente às do Amazônia Clube (ora transformado num supermercado), onde se reunia a élite obidense da época, para suas vesperais dançantes nos domingos, ou nas grandes soirées da soçaite local. Lá pelas tantas, o Curica  -- que se não me engano era o apelido do meu biografado --, postava-se diante da orquestra, tirava a metade de limão do bolso da calça e começava a chupá-la tranqüilamente... Daí a instantes, era aquela salivação nos instrumentos de sopro e a música tinha que parar para correr de sua frente o safado chupador de limão... Entre as inúmeras brincadeiras e gozações hermogeneanas, havia uma paródia da letra do Hino Nacional, mexendo com figuras populares da terra. Lembro-me que a farsa começava mais ou menos assim: Ouviram do Piranha a voz  do Plácido / Embriagado o Ernesto vem tombando! – e mais adiante – E o Antenor com sua lealdade / Lá estava conquistando a Feio-e-Forte*. -- Entre as inúmeras piadas que Hermógenes inventava, uma, meio sacrílega e fescenina, vale a pena recordar. Dizia ele que numa procissão de Sexta-Feira Santa, quando saiam em préstito pelas ruas da cidade a imagem de Nossa Senhora das Dores seguida do esquife do Senhor Morto – não sei se a tradição ainda se conserva --, a banda de música, dirigida por Eduardo Perna-de-Arco, seguia logo atrás do féretro sagrado, tocando marchas dolentes onde sobressaiam os acordes do clarinete do chefe da orquestra. Contava Hermógenes que, numa dessas tocatas processionais, a imagem do Senhor  Sacrificado botou a cabeça para fora do ataúde e reclamou: p...  a  m..., Eduardo! Vai tocar clarinete assim na p... que te  p... O pobre músico execrava o Curica.  Não suportava suas brincadeiras avacalhantes! --  Na vida séria, Hermógenes Leão Costa foi doublé de alfaiate e serventuário da Justiça, exercendo o cargo de Adjunto de Promotor; figura leiga que, naqueles tempos, substituía o Promotor Público nas comarcas interioranas, durante seus impedimentos, ou quando havia vacância do titular. -- Hermógenes era também irmão de um obidense notável, que por muitos anos exerceu em Belém o cargo de Diretor Regional do IBGE: o professor Floriano Leão da Costa, de saudosa memória pública e social

*
-- Piranha era a alcunha de um carregador da cidade, num tempo em que ainda nem se sonhava em Óbidos com serviço motorizado; o Plácido , um caboclo leiteiro da Costa de Óbidos, que todas as manhãs atravessava a Garganta do Amazonas e vinha vender leite natural nas portas das casas da gente;  o Ernesto, que entornava uma pinga presidencial, era o filho mais novo do italiano Ambrósio Ilbelloni, um dos fundadores da colônia itálica na pauxilândia;  e o Antenor, um crioulo expedito e brejeiro, era o responsável pelo serviço do abastecimento de água. Da Feio-e-Forte, já falei aqui, quando enumerei   os apelidos do meu tempo obidense.


História de caserna
Contribuição de Ildefonso Guimarães

Houve um tempo, na história militar de Óbidos, que a cidade era guarnecida por um Grupo de artilharia (o 4º GAC), o que corresponde na arma de infantaria a uma Companhia. A unidade, por ser isolada, era comandada por um oficial-superior (major) e entre outros serviços internos tinha o de Carpontaria. Chefiava na época esse serviço um 1º Sargento muito bonachão e estimado, cujo nome-de-guerra era Paixão. Certa vez, em tempo de inspeção de saúde semestral da tropa, o sargento Paixão recebeu uma ordem do comando para fazer apresentar à Enfermaria Regimental, a fim de submeter-se à mencionada inspeção, o pessoal do Serviço de Carpintaria, inclusive ele, chefe da oficina.

Na data aprazada, Paixão reuniu o seu pessoal e o mandou apresentar-se, comandado pelo cabo carpinteiro, ao serviço de saúde . Ele não foi. -- Dois dias passados, o sargenteante da Unidade enviou um soldado para informar-lhe que devia apresentar-se no Gabinete do Comando, pois o major comandante, em pessoa, queria lhe falar. Paixão imediatamente desfez-se do macacão de trabalho, uniformizou-se devidamente e subiu à casa das ordens para se apresentar ao Comandante. No gabinete, depois de despachar alguns papéis, o major o encarou por baixo dos óculos e lhe perguntou:

  • Sargento Paixão, qual foi a ordem que o senhor recebeu sobre a inspeção de saúde do pessoal da Carpintaria?
  • A ordem que eu recebi, seu major, foi pra mandar se apresentar na ER todo o pessoal da Carpintaria... inclusive eu! – Respondeu serenamente Paixão.
  • Certo, sargento. – redargüiu o major – E o que o senhor tem por inclusive?
  • Inclusive, seu Major, é eu mandar o pessoal e eu ficar.
  • Muito bem, sargento Paixão! – retornou escarninho o major – Então o senhor vá se apresentar ao Inferior de Dia*, e diga-lhe que, de minha ordem, o senhor fica detido no quartel por oito dias, para aprender o que é inclusive!...

* -- Inferior-de-dia, era, naquele tempo como se designava o sargento-de-dia à guarnição, que auxiliava ou substituía o oficial-de-dia em seus impedimentos.

 


Óbidos, terra de apelidos
Colaboração de Ildefonso Guimarães

Se não me engano, o próprio Inglês de Souza já comentava em um de seus livros a vocação que têm os obidenses para criar alcunhas pitorescas e duráveis. Aqui vão algumas, de que me recordo, no meu tempo de vivência na bem-amada Cidade Presépio, na primeira metade do século passado.:

Braçais: Augusto Preto, João Pitiú, Manoel Pretinho, Zé Torrador, João Meia-Lua, Pedro Monte-Alegre e João Bolacha. "Mariposas": Ana Borracha, Antônia Escapole., Gita Cabanela, Ana Mingau, Açúcar Preta, Isabel Taperebá, Antônia Polegada e Caçula Três-Bês, esta considerada a p... respeitosa . Músicos: Eduardo Perna-de-Arco e Manduca Onça. Domésticas: Ana Cobra, Rosa Feio-e-Forte; Teresa Cajú e Chica Maracajá. Magarefes: Chico Cobra-Preta, Mané Fussura, Antônio Camarão e Mané Português. Feiticeiras: a Nega Aramã e Nhá Paula. Avulsos: a Família Coroca, o Julinho Boto, o Zé Presepeiro, o Lulu Sapo, o Gito Ariramba, o Pedro Cachorrão, o João Bacu, o folclorico Antonico Pé-de-Arpão, a parteira Pelelé e seu marido Eduardo Pirarucu; a Maria Cobra-Lambada, o Manoel Três-Almas, Dona Raimunda Mana (costureira), Dona Tapuia Nogueira (parteira); o João Pirão, a velha Xiripana, o Zé Paturi a Tapuia-da-Floresta, o cabo Porca-Velha; o sargento Bofe-Sêco, a Gita Canarana, o Joaquim Sete Cabeças, o João Boca-de-Velha, o Mucura d’Água,; os italianos: Nicolau Careca, Antônio Zólho-Azul e Casaca-de-Ferro; os párias Solouça (maluca), Nhozinho-Bicheira, e "Olha-o-Diabo-Atrás-de-Ti". E, finalmente, o Mané Galinha, o único gay da cidade (conhecido), o que naqueles tempos ainda não era motivo de orgulho... Locais de recreação: O Curral das Éguas (bordel noturno) o Corre-Liso e o Baile do Macaxeira, dançarás de "terceira".

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Alguns livros do Ildefonso Guimarães:

     

 

"Os Dias Recurvos"
Ildefonso Guimarães
SECULT - PA
ISBN 85-7313-028-8

 

"Sombras do entardecer"
Ildefonso Guimarães
Editora Paka-Tatu
ISBN 85-87945-55-6

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