Roberto Carvalho de Faro                                                         31/08/2007

O CÍRIO DOS ANOS 50 NA
VERSÃO DO MESTRE PORFÍRIO

Mestre Porfírio, conhecido contador de casos, não podia chegar numa fazenda ou comunidade daquelas bandas de Faro, lá pelos idos de cinqüenta, que não lhe fossem logo pedindo para contar suas histórias. E ele não se fazia de rogado. Desde que tivesse um mata-bicho para lubrificar a goela assunto não faltava.

         Não foi diferente quando, depois de amarrar sua canoinha na ponte, subiu o barranco da Vista Alegre, no igarapé do Nhamundá. Foi logo recebido no meio do caminho pelo pessoal da fazenda.

         Enquanto apertava sua primeira dose de cachaça, já bem acomodado na cadeira de embalo, na varanda do casarão, foi logo assediado pelo vaqueiro Tuísca.

— Por acaso, mestre Porfírio, o senhor já teve alguma vez nesse tal de Círio, lá de Belém?

— Tive essa felicidade, seu Tuísca. Deus há de recompensar o seu Marcos por essa bondade que nunca vou poder lhe pagar. Pois não é que numa viagem de baixada do vapor “Barão de Cametá” ele me botou pra bordo do navio, dizque pra fazer companhia, que não gostava de viajar sozinho. Acreditar, não acreditei. Adonde já que um branco da marca dele ia precisar dum caboco feito eu pra companha? Depois pesquei a tenção dele. Queria mesmo que eu conhecesse da festa da santa de Belém. 

— E o que o senhor achou? Conte pra nós o que o senhor viu.

— Olhe, é até difícil de contar. Nunca tinha visto na minha vida festa daquela natureza, seu Tuísca. O senhor acha que a festa de São João Batista, de Faro, a de Santa Isabel e São Sebastião, de Terra Santa ou a de Nossa Senhora do Carmo, de Parintins é animada com gente que aparece de tudo que é paragem? Então o senhor não viu foi nada! Nada mesmo, isso eu lhe agaranto. Nunca vi tanto ajuntamento de gente. Se duvidar, botando assim, enfileirado todo aquele magote de povo, ia daqui até Manaus.

— Será mesmo, mestre? — perguntou admirado o Zeca da Brígida. — Olhe que daqui até Manaus é um besta dum estirão. Dá dias de viagem!

— Se não acredita, seu Zeca, pergunte o senhor mesmo pro seu Marcos que ele confirma o que digo. É que vocês tão acostumado a ver só povinho. Acham que mil já é muito. Lá é capaz de dá de milhão pra mais. É tanta gente que até o diabo perde a conta.

— Tá bom, mestre, não se aborreça. O senhor diz, nós acredita. Fale do resto.

— Pois é. Começa a chegar magote de gente de tudo que é paragem. Até dos estrangeiros vem cristão pra esse Círio, sem falar no povo do Sul e dos da redondeza de Belém.

— E onde esse povo se acomoda se é tanta gente assim? — quis saber o Tuísca.

— Ora, lá tem muito hotel, seu Tuísca. Sabe o que é hotel, não sabe?

— Já ouvi falar, mas, pra bem dizer, não entendi foi nada.

— Pois olhe, sabendo o que é prédio que eu até já expliquei doutra vez pra vocês o que é, é fácil de imaginar. Entrando no prédio aparece logo um salão cheio de cadeira e sofá que chamam de recepção. Num canto, assim, mais pro fundo, tem um balcão, de nome portaria, adonde um empregado todo no uniforme atende o pessoal que procura arrumar pousada, que nem na pensão da dona Catitinha, lá de Terra Santa. Mais pra trás tem o elevador. É um troço amodo uma gaiolona quadrada que cabe uns cinco dentro. Esse bicho sobe e desce, parando em cada lance do prédio. Nesses lances que uns chamam de andar, outros de pavimento, tem um corredor de fora a fora e de cada lado do corredor ficam os muitos quartos do hotel. Tudo com número na porta que é pro cristão não entrar no lugar errado. Agora que já sabe o que é um hotel, deixe eu continuar. Pois é. Tem o Grande Hotel, o Central, o Avenida, o dos Viajantes. Uma batelada deles de toda categoria e pra tudo que é bolso, que nem vale a pena dizer o nome, sem falar de pensão e casa de família, que também acomoda essa gente. Lugar é o que não falta, seu Tuísca, já que quer saber.

— E daí, mestre?

—Daí que no primeiro dia, bem de madrugadinha, vão pegar a Santa numa igreja num lugar de nome Cidade Velha que eles chamam de catedral pra levar pra Basílica, no largo de Nazaré. Antes que me perguntem, explico logo. Catedral e Basílica é tudo igreja. Igreja grande, é verdade, como nunca ninguém viu por aqui. A diferença pelo que reparei é que a Catedral é uma igrejona velha ainda dos antigamentes. A Basílica, não. Essa é moderna, bonita e toda coberta nos ouros por dentro. Muito que bem, vamos pra diante. Aí começa a procissão no clarear do dia. É uma boa duma pernada num estirão de mais de légua. Quando se vê, é povo varando por tudo quanto é rua, que nem formiga se ajuntando com os outros. Com pouco é aquele mar de gente. Gente pra dá na canela! Agora já me disseram que vai cristão de toda qualidade. E vai mesmo. Isso eu vi com esses olhos.  Uns vão só de abelhudice. Rezar que é bom, necas. Outros que o Manduca me falou só vão mesmo pra caboquear que é como eles dizem. Esses aí são mais os rapazes que aproveitando a besta quantidade de fêmea que acompanha a santa não perdem tempo pra tirar um sarrinho. E disque muitos deles se dão até bem. Foi o Manduca que disse. Tem também os políticos que desfilam na frente da procissão, no meio do povo, só pra se amostrar e caçar voto. Acho que nem entram na Basílica. Também tem muito vendedor trançando perna no meio da procissão, vendendo de um tudo. É bebida, comida, imagem da santa, brinquedo de miriti, tudo que pode dar dinheiro. E apuram uns bons cobres. Tem também os punguistas muito ladinos que se misturam no meio da multidão só pra bater carteira dos homens e bolsa das mulheres. Esses também apuram um bom dinheiro e muita jóia. Os mais conhecidos da polícia, antes da festa são presos, mas sobra muito vigarista pra fazer o serviço, e se dar bem. E, justiça seja feita, tem os muitos que vão mesmo pra rezar e pagar suas promessas com tudo que é troço na cabeça. Sem falar também numa besta duma corda, rodeando o andor da Santa, que os promesseiros vão tudo agarrados nela disque pra pagar promessa.

— De que troço já, seu Atanásio, o senhor falou inda agorinha?

— Hum, seu Tuísca, é coisa de promessa. Curou doença, levam estearina, perna, braço, cabeça. Tudo de cera. Escapou dum naufrágio, levam barcos de miriti. Arrumou sua barraquinha, levam casinhas de papelão ou de madeira. Pra cada graça alcançada, o cristão paga sua promessa pra santa, no pé da bucha, que ele não é besta de não pagar senão ela não atende da outra vez.   

— E que mais, mestre?

— Bem, depois que termina a procissão já pra banda do meio-dia, o grosso do povo fica mesmo pelo arraial porque não ia ter mesmo lugar pra tanta gente dentro da igreja. E olhe que ela de jita não tem nada. Dá pra mais de trinta da de Faro. Então? Como tava dizendo, o povo fica se divertindo pelo arraial, onde tem roda gigante, carrossel, teatro de marionete que são uns bonequinhos engraçados que dançam e fazem palhaçada que até hoje não sei como aquilo acontece. Tem também tiro ao alvo e outros brinquedos que não sei o nome. Fora os brinquedos tem também tudo quanto é categoria de jogo. Do jaburu, passando pelo sete e meio, até o carteado, adonde rola dinheiro grosso. Tem do jogo inocente só pra passar tempo, até aquele que o cristão enrica numa noite ou sai só de cueca. E tem também comida nas barracas que muitas vocês nem conhecem por aqui. Maniçoba, caruru, vatapá, tacacá, pato no tucupi. Algumas eu provei. Mas até mesmo as que tem aqui pras nossas bandas, como o tacacá, não tem o mesmo gosto. Esse tal de pato no tucupi, meus camaradas, é a comida principal deles. Tanto que muitos, mal acaba a procissão, já estão correndo pra casa deles de carro, de bonde, de ônibus e até de a pé pra se empanturrar no pato que já ficou pronto de véspera.

— E aí acaba tudo?

— Não. Como acaba tudo? A festa dura quinze dias igual a nossa daqui. O pessoal de lá também tem fôlego, seu Tuísca. E lhe digo mesmo, parceiro, se dependesse do povo era festa pra mais de mês.

— Mestre, sei que tem muito coisa pra contar do Círio, mas a bóia tá esfriando. — disse o capataz. — É servido do jantar?

— Com muito gosto, seu Argeu. — respondeu o mestre Porfírio, levantando-se, já inebriado pelo cheiro bom da caldeirada que vinha lá da cozinha. E encerrou seu relato, dizendo: — Ainda tenho muita coisa pra falar desse Círio. Depois da janta eu conto o resto.

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