| Roberto Carvalho de Faro 08/09/2008 | |
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APERREIOS DO MARUJO
Só vou lhe contar, parceiro, porque está insistindo. Repare bem. Já nasci de padrasto, que meu pai verdadeiro morreu quando minha mãe pegou bucho. Bucho de mim. Sempre achei que o seu Zeca, que é o homem da minha mãe, nunca gostou de mim. Devia de me maltratar desde o cueiro, porque quando me entendi como gente só vivia me batendo. Por isso que eu digo que a mal querência já vinha desde o começo. E a minha mãe nunca me defendeu. Ou tinha medo do homem ou gostava dele mais do que de mim. Ela via eu apanhar e ficava quieta no canto dela ou arrumava um jeito de sair de perto. Aí, parceiro, um dia que o peste foi pro mato, dizque caçar uma onça que andava comendo os bezerros, eu aproveitei, peguei a canoinha e fugi, descendo o igarapé do Nhamundá. Remei o dia todo até a noite fechar. Não sei até hoje onde fui arrumar tanta força daquela vez pra remar todo aquele estirão sem parar. E pensa que o escuro me botou medo? Nada, parceiro. Paresque que o que eu queria mesmo era chegar no fim do mundo, bem longe daquele tinhoso. Uma hora dei de ouvir o barulho dum motor. Começou bem baixinho que eu só ouvia quando tirava o remo da água. Depois veio aumentando, aumentando, até que, quando olhei pra trás, vi a luzinha do mastro da embarcação na curva do igarapé. E aí eu apertei na remação, mas não adiantou. O barco vinha à toda no meu rumo. Olhei de novo. A luz e o barulho diziam que tavam perto. De vez em quando focavam com o holofote direto na minha canoa. Endoidei no cabo do remo pro barco não me pegar, mas aí o casco não agüentou o repuxo e virou. Ainda quis me agarrar nele, mas qual, afundou logo. Parceiro, quando me pegaram já tava nas últimas. Olhe bem que curumim de beira de rio já nasce a bem dizer nadando, mas se não fossem eles eu tinha morrido afogado. Me puxaram pra bordo e me botaram numa rede. Só já quando o dia tava clareando é que me acordaram e me deram café com beiju. Quantos anos eu tinha? Tava na casa dos nove. Só que eu era bem entanguidinho que não davam pra mim mais de sete anos. Pois é, o pessoal do barco era de Parintins e fui com eles pra lá. Acabei sendo cria do cozinheiro do motor, chamado Expedito. Esse velho Expedido foi o pai que não tive. Pra onde ele ia, me levava com ele. E me ensinava de um tudo. Da cozinha até as letras. Ele dizia: — “Meu filho, — ele me chamava de filho — aprenda um pouco de escrita, nem que seja só pro gasto dum bilhete. Não vai se arrepender”. E não é que o velho tinha razão? Só tinha. Penso que ele adivinhava o futuro. Pela casa dos dezesseis perdi meu protetor. Como já entendia de embarcação e gostava, continuei embarcado nos motores pequenos de Parintins que não se arredavam muito de lá. Agora o meu sonho mesmo era passar prum recreio e viajar até Manaus. Só que tinha que esperar a idade. No que eu fiz dezoito anos tirei minha carteira de marinheiro fluvial e consegui uma vaga no “Leão do Norte”. Na primeira viagem para Manaus, conheci uma passageira que se agradou de mim. Se agradou, não. Se grudou, melhor dizendo. Quando chegamos no porto, em vez de se despedir, ela fez foi me convidar para ir morar com ela. A dita já era uma mulher feita. Uma coroa muito da sua boa. O que é que o parceiro queria? Casa, mesa, cama e roupa lavada eu ia dispensar? Topei na hora, meu camarada! Nem me despedi dos companheiros de bordo e também não disse nada pro comandante. Dizendo que eu ia ajudar a levar a bagagem da mulher pra terra, sumi do porto com ela. A Cida, que era o nome da coroa, me levou pra casa dela, acho que no fim de Manaus. Só pode. Era demais já longe a casa da figura e ficava numa invasão. E olhe que era de táxi! Até que chegamos lá. Pagou o taxista e me mandou entrar. Só aí é que foi me dizer que era casada. Mas que eu não me incomodasse porque o marido trabalhava na Petrobrás, no rio Urucu, e que só vinha em casa de mês em mês. Se ela sabia o que estava fazendo, por que já que eu ia me preocupar? Fiquei na minha. Como eu tinha largado tudo que era meu a bordo do “Leão do Norte” e ele, a essas horas, já tava fazendo vento no rumo de Parintins, fiquei só com a roupa do corpo. Cida falou: — S’incomode não, meu bem, Amanhã compro roupas boas para você. Conhece o Shopping Amazonas? Vai conhecer. Lá só tem boutique legal. Vou lhe dar de um tudo. Vai ver. Você merece. Parceiro, a noite não acabava. A coroa tava num fogo que só vendo. Quase não preguei o olho. E olhe que eu tenho muito gás. Estou no fogo da idade. Mas a mulher era gulosa demais. Pra banda da madrugada eu já tava pedindo penico. Aí ela me deixou dormir um bocadinho. Parece que ela também tava cansada. No que clareou o dia, pelo costume de embarcado, eu já tava de pé e o estômago roncando, pedindo, pelo menos, um café com pão. Sem saber onde ficavam as coisas na cozinha, o jeito foi acordar a coroa. Resmungou um pouco, mas se levantou e foi fazer o café que a gente tomou com bolacha que ela tinha na despensa. Meia hora depois entrei no banheiro, querendo um banho para ficar em forma. Quando eu já tava todo molhado debaixo do chuveiro, Cida se enfiou já nua, dizendo que queria que eu desse banho nela. Conversa, parceiro, ela queria outra coisa! Não deu outra. Depois saímos pro tal do shopping que era longe pra danar. Desta vez fomos de ônibus. Pelo visto, o marido da coroa devia ganhar muito bem. A mulher me encheu de roupa, sapato. Tudo de primeira. Acho que ela tava com vergonha dos molambos que eu vestia. É, porque ela não deixou mais eu tirar a roupa nova nem o sapato. Não custava fazer a vontade dela. Comprou até um Seiko todo afrescalhado que ela mesma botou no meu pulso. Lá mesmo a gente forrou a barriga. Eu nem tava acreditando. Como já que um caboquinho do igarapé do Nhamundá, sem eira nem beira, bate pau de embarcação, tinha virado um cara com pinta de barão? Eu me olhava no espelho do restaurante e não me conhecia, de tão pintoso que eu tinha ficado. "É. - pensei - Com essa coroa vou me dar bem. É só fazer as vontades dela". Já tinha passado mais de semana que eu tava morando com a Cida e nem pensava em voltar pro meu ofício de marinheiro. Foi quando me deu um estalo. Então perguntei pra ela: — E quando o seu homem chegar, onde eu fico nessa história? — Primeiro, que ele não vai chegar agora. Mas na véspera eu lhe boto no hotel de um conhecido meu, lá no centro, até ele voltar pro Urucu de novo. Sossegue que eu já tenho tudo resolvido. — Se é assim, já me calei. — eu disse. Naquela noite, ainda bem que eu não tava mais na cama, fazendo as vontades da coroa. Nessa hora, eu zanzava pela cozinha, só de cueca, caçando alguma coisa pra comer, quando bateram na porta. No que bateram com mais força pela segunda vez e a Cida perguntou quem era, e com a resposta vindo lá de fora "Sou eu. Quem mais podia ser?", eu compreendi que tava ferrado. Não pensei mais em nada. Só pensei em dar no pé. E foi o que fiz. Abri a porta da cozinha e corri pro fundo do quintal. Dali mesmo pulei o cercado e fui cair no terreno do vizinho que dava fundos para a casa da Cida. Um cachorrão preto quando me viu, partiu pra cima de mim, latindo feito um doido. Aí quem endoidou fui eu. Saí pulando de cerca em cerca, ouvindo atrás de mim só latido de cachorro e gente gritando: "Ladrão! Ladrão!" Quando ouvi disparos de tiros eu já tava numa rua de terra que eu nunca tinha andado antes. Já bem longe, me encostei num poste de luz. Foi aí que reparei que eu tava só de cueca. "E agora, o que que eu faço, a bem dizer, nu?" Mais na frente, na esquina, tinha um boteco ainda aberto sem nenhum freguês. Fui me chegando de mansinho, meio como que escondido, até que avistei o dono atrás do balcão. Chamei pelo homem que veio ver quem era. Quando me viu daquele jeito, voltou rápido e pegou acho que uma espingarda, atrás da porta. — Calma, patrão! Não é nada que o senhor tá pensando. É que eu fui assaltado e os bandidos me deixaram deste jeito. Levaram tudo. Até minha roupa e ainda me bateram, como o senhor tá vendo — e lhe mostrei os ferimentos e os arranhados provocados pelas farpas das cercas. — Se o patrão me arrumasse nem que fosse uma bermuda velha eu lhe agradecia muito. Acho que ele acreditou na conversa porque eu tava em petição de miséria. Pediu para esperar. Depois veio lá de dentro com uma calça e uma camisa de malha do Flamengo. Era roupa velha, mas servia. Ainda indagou o que eu fazia por aquelas bandas tão tarde da noite. Dei a desculpa de que foi uma piranha que me trouxe do porto para ficar com ela. E eu não tava mentindo. Ainda me arrumou uma passagem de ônibus, me ensinando o caminho para chegar no cais do porto, quando lhe falei que era embarcado e não conhecia nada de Manaus. O ônibus demorou, mas, lá pelas tantas, ele passou. Rodou um tempão por um monte de lugares até que avistei as luzes dos mastros das embarcações encostadas. Foi um alívio só! Mais aliviado eu fiquei, parceiro, quando topei com o "Leão do Norte" naquele cipoal de barcos. Parecia que tava acordando dum pesadelo. Subi na prancha e pulei pra bordo. Tirando o marinheiro Tolentino que tava de vigia, toda a tripulação roncava. Ainda ele quis saber o que tinha acontecido comigo, sumido pra mais de dez dias. — Na viagem eu lhe conto tudo, Tolentino. — Eu disse pra ele. — Agora, se o companheiro me emprestasse sua rede até que eu ai ficar lhe devendo essa, pois tou todo quebrado, como pode ver. É isso aí, meu camarada, quem nasceu pra jaraqui nunca vai chegar a pirarucu. Isso a Cida me ensinou. |
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