Roberto Carvalho de Faro                                                         14/09/2007

PRESSÁGIOS E PROMESSAS 

Nem parecia ter amanhecido. Continuava tão escuro como se ainda fosse madrugada. E a chuva miudinha não parava. Todos continuavam na rede, acordados, mas sem a mínima disposição para levantar. Deliciavam-se ouvindo o letárgico ruído dos pingos d’água na cobertura de palha. Só dona Josefa, por força da obrigação, tentava atiçar o fogo na lenha molhada, para fazer o café, ora soprando os gravetos, ora servindo-se do abano de talas.

Menos de meia hora depois, quando o cheiro do moca, coando na chocolateira, recendeu pela barraca, atiçando a vontade de esquentar o estômago, é que os preguiçosos começaram a deixar o calor das redes, pegando as canecas no desengonçado armário e servindo-se do café fumegante, já adoçado.

Nenhum dos quatro irmãos animava-se a enfrentar o mau tempo. Sentados no banco da cozinha, encolhidos por causa da friagem úmida, contemplavam a cortina de água que escorria pelo beiral, como uma grande sanefa de filó branco. Até o Nica, morrendo de vontade de defecar, se segurava para não ter que enfrentar a chuva e a lama até à retrete, a umas dez braças da barraca. Enquanto pudesse, agüentaria. Os outros, que só queriam urinar, aliviaram-se na porta da frente, longe da vista da velha Zefa, mas não tão longe de seus ouvidos. Ela ouvia benzinho o xororó da mijação dos rapazes, misturado ao gotejamento da chuva.

Quando os três voltaram para perto do calor do fogão, Nica, não suportando mais a dor de barriga, meteu a cara na chuva, no rumo da privada.

Dona Josefa, virando-se, com as mãos nas cadeiras, perguntou aos rapazes:

— Quer dizer que hoje não se come?

Entreolharam-se sem nada responder. Cadê coragem para enfrentar a chuva no lago, depois de terem o reconfortante calor do fogão da velha. Quando Nica voltou todo molhado, a cozinheira tornou a fazer a mesma pergunta, agora para os quatro. Como não havia necessidade de todos saírem para a pesca, Teodoro propôs:

— Vamos tirar na porrinha. Quem perder vai pescar.

Concordaram. Gaudêncio perdeu. Ainda reclamou que havia sido logrado pelo Dalberto, mas não teve jeito, o remédio era ir.

O lago (que Lago?), nessa época das chuvas que não estiavam e de cheia grande, estava ficando vasqueiro. Águas e peixes transbordavam para o rio e a pesca já não se comparava nem de longe com a fartura do verão. O problema da comida que podia ser resolvida em menos de hora com umas poucas tarrafeadas, agora levava muito mais tempo e sempre o mesmo pífio resultado. Não foi à toa, portanto, que Gaudêncio desceu para o porto reclamando. Já sabia que iria suar bastante para tarrafear talvez uma meia dúzia de acarauaçus, se tivesse sorte, ou até voltar para casa de mãos abanando. Bem, mas aí já seria muita panemice.

Amarrada à ponte, a canoa estava no fundo. A água da chuva e também as goteiras do calafeto velho, afundaram, durante a noite, a montaria. Só faltava essa!

Para afugentar as arraias que normalmente infestavam aquelas águas lodosas da beira, Gaudêncio entrou na água agitando-a com o remo. Não se podia facilitar. Nica que o dissesse. Ali mesmo fora ferrado na perna por uma. Não fosse a pedra preta que a velha Zefa mantinha sempre guardada no velho baú de couro, certamente teria ficado aleijado.

Com solavancos enérgicos, primeiro empurrado e puxando a proa e depois, pela falca, sacudindo a canoa para cima e para baixo, esgotou a água do porão. Esquentado pelo exercício, já nem sentia o frio dos pingos caindo às suas costas. Apanhou a tarrafa de cima da ponte, embarcou e afastou-se da margem. Como se esquecera de trazer uma cuia, tirava a água que filtrava pelas falhas do calafeto com o próprio remo. Isso era o de menos. Já estava acostumado a esse recurso.

Fazia mais de hora que saíra do porto e o tempo nada de melhorar. Continuava aquela chuvinha fina e persistente. O malandro esquecera-se da cuia, mas não da cachaça e isso o mantinha firme e esperto no cabo do remo. A um movimento diferente na água levantou-se na proa da canoinha, ajeitou a tarrafa no braço e com duas balanceadas vigorosas, lançou-a no ar, submergindo em larga circunferência. Puxou-a em seguida e ela veio vazia. Tentou novamente e o resultado foi o mesmo. “É, por aqui não vai dar nada. Só indo mais para a beira”, resmungou. E as horas avançando e peixe nem para remédio.

Gaudêncio remou para a margem do lago e deu com o igapó que ia varar no rio Carimã no tempo da cheia. Só que tarrafear no emaranhado do igapó, podia até perder a tarrafa. Se tivesse levado um caniço, aí sim, não seria difícil pescar alguma coisa. Desanimado, parou de remar e deixou que a canoa parasse encostada no tronco de um pau. Puxou debaixo do banco sua garrafa de cachaça e deu uma boa duma golada. Ainda nem bem havia tampado a garrafa, quando um brutelo dum aruanã saltou da água para pegar alimento num galho e caiu no porão da canoa. Antes que o peixe pudesse voltar para a água, Gaudêncio, mais do que depressa cacetou-lhe a cabeça com a quina da pá do remo, imobilizando-o. Dois daqueles já davam um bom almoço. Sabia, contudo, que não conseguiria outro caindo assim do céu. Por isso dispôs-se a voltar para o lago, já com a intenção de ir embora para casa. Na saída do igapó aventurou mais uma tarrafeada. Só conseguiu meia dúzia de peixes miúdos. Deu-se por satisfeito.

Já beiravam as onze e meia quando encostou no porto com a minguada pescaria. Fazer o quê? Pelo menos não voltou de mãos abanando, graças à surpresa do aruanã.

— Assim como foi o aruanã — comentou a velha Zefa — bem que podia ter sido uma cobra pulando dum galho no seu pescoço. E aí, nem almoço e nem Gaudêncio, não é?

— E a senhora pensa que quando entro num igapó não vigio cada pé de pau?

— É, mas chovendo como está, tu teve foi muita sorte, porque a vista não vê tudo. Não é a mesma coisa que no aberto do lago.

  Bem, velha, a comida tá aí. Agora é com a senhora.

— Deixe está que já vocês comem. Cozinhar peixe não gasta tempo.

Nica ainda caçoou da panemice do irmão, mas só para arengar, pois sabia que nessa época, qualquer um deles podia ter a mesma desdita. Querendo reparar a brincadeira, comprometeu-se a pescar no dia seguinte sem precisar do jogo da porrinha.

Naquela noite a velha Zefa teve uns sonhos ruins e acordou cismada, levantando-se mais cedo do que de costume. Enquanto coava o café ainda pensou em aconselhar os rapazes a não saírem para a pescaria. Mas, aí, o que iriam comer? Diante do inevitável, não custava nada implorar que tomassem o máximo de cuidado. Era tudo o que podia fazer.

Diferente do dia anterior, não amanheceu chovendo, embora o sol também não mostrasse a cara.

Nica desceu para o porto assobiando com as tralhas de pesca e o remo no ombro.

Já passava do meio-dia e nem sinal do rapaz voltar. A cada instante aquele aperto agoniado no peito da velha se tornava quase sufocante e os sonhos lhe voltavam à cabeça, embora sem a nitidez de quando acordou. Enquanto rezava em silêncio, recriminava-se por ter consentido que Nica tivesse saído. Por várias vezes foi ao terreiro sondar o lago na esperança de enxergar sinais do rapaz. Mas a vista fraca não lhe permitia vislumbrar grande coisa. Até que, não suportando mais a gastura, chamou Gaudêncio para vasculhar o lago também. De pronto não viu nada. Porém apurando mais a vista, percebeu, quase do lado oposto, um ponto negro que bem podia ser a canoa.

— É. Parece que ele já vem vindo — disse para a velha, sem muita convicção, pois podia ser apenas um tronco de pau boiando. — Vamos esperar mais um bocadinho.

Depois que a velha Zefa desabafou suas inquietações, relatando o sonho que tivera, onde vira um homem que não conseguira identificar, se debatendo no estertor da morte, ora por afogamento, ora pelo arrocho de uma enorme cobra sucuri, enrodilhada ao corpo do coitado, aí, sim, não só ela, mas também Gaudêncio, Teodoro e Dalberto, postaram-se no terreiro atentos aos movimentos do lago. O ponto escuro aumentou um tantinho, mas nenhum podia afiançar o que via. As opiniões divergiam.

— Se a gente tivesse outra canoa, era já que eu ia atrás dele — falou Teodoro.

— Mas não temos, não é? — arrematou Dalberto. — E sem canoa o que se pode fazer?

— E se vocês emparelhassem aqueles paus que estão de bubuia na enseada, bem que dava pra atamancar uma jangada — argumentou a velha.

— É mesmo. A senhora tem razão. Vamos agir, pessoal! — ordenou Gaudêncio.

Hora depois a jangada foi enjambrada até com linha grossa de pesca, sem falar em cipós e cordas. Duas tábuas arrancadas do jirau substituíram os remos.

E assim, Dalberto e Teodoro partiram na direção do que achavam ser a canoa do Nica, enquanto Gaudêncio ficava fazendo companhia à dona Josefa que não estava se sentindo bem.

Depois de penosa remação, os “jangadeiros”, primeiro, avistaram apenas a canoa. Só mais adiante é que perceberam que alguém se debatia do lado oposto da montaria. Era Nica que remava com o braço esquerdo, enquanto a mão direita segurava uma linha por cima da borda da embarcação.

Ao abordarem o irmão, puderam então compreender o que estava acontecendo. Nica arpoara uma besta duma pirarara de quase dois metros. E como fosse impossível embarcá-la na canoinha e tendo perdido o remo, cacetando a cabeça do peixe, decidiu arrastá-lo da melhor maneira que lhe pareceu.

Já se avizinhava o crepúsculo quando finalmente chegaram ao porto.

 Naquela fim de tarde o almoço ajantarado foi saboreado como há muito tempo não se fartavam daquele jeito, graças à proeza temerária de Nica que, exultante e bravateiro,  minuciava os lances da sua aventura para os felizes comensais.

Bem mais feliz que todos estava velha Zefa, sentindo-se leve e aliviada, posto que os maus presságios que lhe atormentaram o dia inteiro não se confirmaram, graças à intervenção da santarada do seu humilde oratório a que se apegara com extremada fé e desesperadas promessas, e que, agora, teria de começar a pagar, embora lhe custasse isso penosos sacrifícios. Mas como promessa é promessa, falhar umazinha que fosse jamais passaria pela cabeça da velha. Trair os santos? Nunca. Credo em cruz!

 

GLOSSÁRIO

ACARAUAÇU – Peixe de escamas com coloração geral pardo-escura, com faixas transversais escuras e um ocelo característico na base da nadadeira caudal, chegando a medir até 30 cm de comprimento, sendo o maior dos acarás brasileiros.

ARUANÃ – Peixe da bacia amazônica, de até um metro de comprimento, escamas muito grandes de coloração cinzento-prateada no dorso, amarelada no abdome, boca com fenda oblíqua, mento com dois barbilhões curtos. É capaz de saltar até 2 metros fora d’água para apanhar alimento (insetos) nos galhos de árvores nos igapós.

ATAMANCAR – Fazer, consertar ou remendar toscamente. “Quebrar o galho” como se diz na gíria.

BESTA – grande, enorme (no texto).

BUBUIA, de – Flutuando.

CANIÇO – Vara de pesca.

ENJAMBRADA – Improvisada.

FALCA – Tábua estreita e arqueada que corre de proa à popa da canoa, rematando a borda.

IGAPÓ – Mata cheia de água, isto é, trecho da floresta onde a água, quando da enchente dos rios e lagos, fica por algum tempo semi-submersa.

MOCA – Café. Variedade de café originário da região de Moka, na Arábia. Usado, na Amazônia e em outros lugares, como sinônimo de cafezinho.

PANEMICE – Falta de sorte. PANEMA: que ou quem é infeliz na caça e/ou na pesca.

PEDRA PRETA – Trata-se de uma pedrinha roliça, polida e de cor preta que em algumas regiões ribeirinhas da Amazônia é usada para absorver o venero da ferrada de arraia. Colocada sobre o local da picada, fica ela grudada ao orifício até absorver toda a peçonha, quando, então, cai. Dizem que só os índios sabem reconhecer a pedra “milagrosa”.

PIRARARA – Peixe da Amazônia que atinge grandes proporções em tamanho e peso. Tem dorso escuro, uma faixa amarela ao longo da linha lateral, com duas séries de pigmentos amarelo-ouro; cabeça e parte anterior do dorso revestidas de uma couraça amarela.

RETRETE - Privada, sentina, sanitário.

SANEFA – Cortina.

VASQUEIRO – Difícil de encontrar ou obter.

VIGIO (de vigiar) – Prestar atenção.

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