Artigos de Paulo Pereira                                                                                                       18/12/2005


Ser Humano II - Final

Paulo Pereira
Jornalista e Consultor de RH
paulo.prcp@ig.com.br

Quero narrar e comentar uma experiência que tive com as reações de um ser humano, durante uma sessão de “feedback”, ou seja, no momento de dar ao operador de telemarketing a avaliação de seu desempenho. Era uma operadora de tele-cobrança, que começou a chorar no instante em que comecei a falar de seus pontos fracos e que, por conseqüência, deveriam ser aprimorados.

A moça, de 19 anos, “desabou” em um choro convulsivo, antes mesmo que eu começasse a destacar os seus pontos fortes. Eu não a ofendi! Sempre me preocupei e me preocupo com a maneira com que me dirijo aos analistas. Segundo eles mesmos, isso nunca foi problema! Pelo contrário! Os operadores acabam confidenciando problemas pessoais que, estando ou não interferindo no trabalho, fazem com que fiquemos muitos próximos nesse momento de avaliação das atividades profissionais de cada um, o que – sem dúvida – facilita bastante o meu trabalho. É uma relação de cumplicidade que me enriquece muito, enquanto ser humano, independente do posto que ocupo.

O fato, no entanto, é que a menina começou a chorar e a soluçar. Era a primeira vez que isso acontecia! Esperei em silêncio por uns 15 ou 20 minutos para então, retomarmos o diálogo. Deixamos o trabalho de lado e passamos a falar da casa dela, da relação com os pais, com a família em geral, etc. Foi aí que percebi o motivo daquele “desabamento” emocional: a moça, simplesmente, não se permitia errar. Mesmo aos 19 anos de idade, ela “puxava” para si uma carga de responsabilidade tão grande, que não a deixava, em sua visão, cometer nenhum desdize.

Antes que aqueles se julgam “exemplos a serem seguidos”, “palmatórias de mundo” e “coisas” afins se manifestem, dizendo do alto de sua vaidade “que menina responsável”, “é assim que se age” e outras inconsequências verbais, quero lembrar-lhes que essa postura excessivamente responsável é altamente prejudicial para qualquer ser humano que tenha um mínimo de vontade de praticar o auto-conhecimento. Qualquer um precisa – e deve – errar para que haja um crescimento como pessoa.

É bom ressaltar que ninguém consegue ser 100% responsável, muito menos 100% irresponsável. Todos nós temos qualidades e defeitos! Essas qualidades, muitas vezes, eram defeitos que, na medida em que os detectamos, mudamos de atitude, reavaliando posturas e valores, transformando esses erros em acertos.

É impossível, também, uma pessoa passar pela vida sem cometer erros. Eles fazem parte da evolução da raça. Portanto, é um crime para o emocional de qualquer um não se permitir errar. Essa postura, inclusive, já é um erro! Nós vamos errar até o final da vida. Em compensação, esperamos acertar bastante, também! Erros e acertos fazem parte da balança do crescimento humano.

Foi então que percebi, também, naquela menina o motivo de seu semblante sempre sério, carrancudo. Era o excesso de responsabilidade que ela se impunha e que não a deixava descontrair. A moça, no entanto, se mostrou bastante receptiva aos meus argumentos – os mesmos que faço aqui – e hoje, se mostra uma pessoa bem mais descontraída, relaxada, fazendo até com que essa mudança de postura influenciasse e continue influenciando no seu desempenho profissional, já que na empresa em que trabalhamos nós vivemos de metas a serem alcançadas mês a mês.

Por essas e outras é que nós seres humanos somos fascinantes! Temos as mais inusitadas ações e reações, e somos ricos no quesito sentimento. Sofremos, muitas vezes, porque não conhecemos os nossos próprios limites. Às vezes, razão e emoção se misturam e fica difícil estabelecer quem é quem nos pensamentos que formulamos e atitudes que tomamos. Tem muita gente vivendo com uma carga excessiva de responsabilidade nas costas. Essas pessoas acabam errando, pura e simplesmente pelo medo de errar.

Errar faz parte do nosso aprendizado e, na maioria das vezes, precisamos de “alguém de fora” para nos lembrar que somos apenas pessoas, seres humanos e não máquinas programadas que possuem a receita da “postura perfeita”. “O pulso ainda pulsa”; e que continue pulsando por muitos e muitos anos de aprendizado, recheados de erros e acertos, que na verdade são a base da nossa história, que somente a “faculdade da vida” pode nos proporcionar.

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