| Artigos de Paulo Pereira 22/11/2005 |
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Ser Humano I
Paulo
Pereira Eu pensava que o ser humano fosse uma raça que quanto mais conhecesse, menos eu entenderia. Entretanto, em dois anos de trabalho lidando com as reações de pessoas em seu ambiente profissional, posso afirmar que a raça humana, quanto mais conhecida, mais entendida se torna – desde que você esteja sensível a essa percepção - e não há limites para esse entendimento, já que o ser humano é por natureza, ilimitado. Essa compreensão, nem sempre, é sinônimo de aceitação as reações da raça, mas apesar de nos “acharmos” os “tais”, quem somos nós para rotular o próprio semelhante? A ciência tenta, mas não consegue explicar o começo da raça humana e muito menos, como vai acabar. De onde vem esse código genético tão complexo e ao mesmo tempo, fascinante, intrigante? Em quase quarenta e cinco anos de vida, eu continuo vibrando, ora com alegria, ora com tristeza, com as mais diversas reações da raça humana. E a “escola da vida” é sem dúvida, uma senhora” faculdade em nível de aprendizagem. Eu trabalho – como já disse em crônica anterior – na captação de recursos humanos para uma grande empresa de cobrança em Belém e na avaliação diária dessas pessoas no trabalho de telefonia. E o ser humano é maravilhoso, fascinante, pois revela diariamente facetas diferentes, normalmente ligadas ao seu “habitat” cultural. Foi aí que percebi que o ditado “eu deixo os problemas de casa na porta da empresa” é totalmente utópico, fora da realidade. O meu trabalho consiste em avaliar e dar “feedback” às pessoas que atuam na linha de frente da empresa, ou seja, na tele cobrança. Esse retorno do trabalho dos operadores dado individualmente aos próprios operadores, faz com que eles aprimorem seus pontos fracos e preservem os pontos fortes. Tudo depende da forma com que cada um vai receber as informações. Particularmente, eu me preocupo muito com a maneira de colocar o problema – ou os problemas – e afirmo que esse é um trabalho extremamente enriquecedor, já que cada um tem uma forma diferente de reagir e isso me torna por conseqüência, um aprendiz, juntamente com cada um deles. Os perfis desses profissionais, que podem também, estar na nossa própria família ou dentro de cada um de nós, são classificados em três categorias: “copo”, “cálice” e “balde”. Esse último assimila tudo com a maior facilidade! Absorve para si toda carga que lhe é “despejada” sem o menor constrangimento. Teoricamente é o tipo perfeito para se trabalhar, mas é preciso perceber, no entanto, se é ou não um “balde furado”, isto é, se tudo que está sendo dito não vai “entrar por um ouvido e sair pelo outro”. Aí, é necessário que o avaliador busque toda sua sensibilidade e habilidade para fazer o profissional entender que mudar faz parte da vida de qualquer ser humano, seja no trabalho ou na vida pessoal. O “balde”, ainda que não seja “furado”, costuma demonstrar falta de personalidade, pois não questiona nada e concorda com tudo o que ouve. Já o “copo” escuta atentamente, filtra o que lhe é dito, questiona e procura junto com o avaliador chegar à solução do problema. Esse indivíduo sabe da importante necessidade de auto-avaliação e reavaliação diárias das próprias atitudes, seja no campo profissional, seja no campo pessoal, para com isso saber “a quê veio” a este mundo e não apenas, passar por ele movido pela própria soberba de pensar que possui a “receita da vida perfeita”. Ninguém a possui! Todos nós somos passivos de errar, mas também somos capazes de acertar. Para isso precisamos de algo elementar, ou seja, perceber o erro para então, consertá-lo. Basta aprendermos o significado da palavra HUMILDADE, mas o ser humano, infelizmente, gosta por natureza de ser juiz da sua própria raça, mas não gosta de se colocar no lugar do réu. Por isso, é freqüente apontar o dedo para “fulano” e “beltrano”, esquecendo de olhar para a própria vida; julga estar acima do bem e do mal – ou um degrau acima dos outros – como se somente as outras pessoas errassem e ele (a), do alto de sua vaidade (forte característica da raça), não!
E essa atitude é bem própria do “cálice”. Esse profissional – ou ser humano – como o nome já diz, é raso, sem muito conteúdo e, consequentemente, sem o menor poder de absorção. Gosta muito de usar o pronome na primeira pessoa do singular e está sempre cheio de “eu penso...”, “eu acho...”, “eu sou...” e não admite ter as suas convicções contestadas. No âmbito profissional, não consegue trabalhar em equipe e no cotidiano apóia-se em algo, seja na condição social, profissional, educacional ou emocional. Baseia-se no que ele chama de “minha personalidade” para explicar a própria teimosia. Seus erros estão sempre associados aos erros dos outros. Esse profissional (e SER HUMANO, repito) é na verdade, vaidoso e não admite “mexer” dentro de si e rever suas posições. É mais fácil dizer para si que está certo e o mundo está errado, do que admitir que precisa mudar. Não só no campo profissional, mas em qualquer outro segmento (familiar, pessoal, sentimental, etc.), essa pessoa tende a ser isolada pelos que a cercam, a não ser que esteja proporcionando alguma vantagem para essas pessoas. É extremamente difícil conviver com a arrogância de quem não faz do diálogo uma via de mão dupla e não troca experiências, admitindo erros e compartilhando acertos. O “cálice” também é conhecido por “engenheiro das obras prontas”, pois nunca está por perto para ajudar, mas é mestre em criticar os outros, quando os mesmos não tomam determinadas atitudes. Aqui vai inclusive, um aviso: as pessoas que desfrutam de uma condição social privilegiada devem tomar cuidado. Os privilegiados economicamente, normalmente – eu disse normalmente - se acham os “donos da verdade” e escondem-se atrás de sua condição social para se “defender” do que eles pensam ser “ataques” desferidos a sua personalidade. Os “cálices” não absorvem críticas, que na verdade, nada mais são que alertas em relação aos seus pontos fracos; e que todos nós os temos, sem exceção! Na realidade, do ponto de vista dessas pessoas privilegiadas e que julgam ser, por vaidade, “donas da verdade”, as observações feitas aos seus pontos fracos representam verdadeiros “bombardeios” ao seu próprio ego. E por isso elas não ouvem ninguém e se iludem ao cercar-se de amigos, acreditando que isso é o bastante. Os “cálices” costumam esconder-se atrás de algo ou de alguém para não ficar frente a frente consigo e promover mudanças interiores, que para o bem do comodismo humano, não são e nunca serão bem vindas. E por serem privilegiados economicamente, oferecem “vantagens” a seus amigos, que desaparecerão na medida em que essas “vantagens” deixem de ser oferecidas. Você, portanto, pode ser um “cálice” e não saber! E se achou tudo isso um monte de besteiras, o seu caso é grave! Para finalizar, quero narrar brevemente uma estória (quando real, começa com a letra “h”), que pode servir de sinalizador para sua reflexão, caro leitor. Um menino queria surpreender o velho sábio de sua região e que vivia acertando as respostas com relação às perguntas que lhe eram feitas. O garoto pegou um passarinho, colocou-o em uma das mãos e pensou: “Vou surpreender aquele sábio, escondendo o pássaro na mão e perguntando ao velho sábio o que eu tenho escondido. É claro que o velhote vai dizer que é um passarinho. Aí eu pergunto se está vivo ou morto! Se o sábio disser que está vivo, aperto o bicho na minha mão, mato-o e digo que ele – sábio – errou. Se o velho disser que está morto, eu apresento o animal “vivinho da silva”, dizendo ao sábio que ele errou, mesmo assim”. Chegando à frente do sábio, perguntou: - O que eu tenho na mão, senhor sábio? O velho sábio, de cabeça baixa e com toda calma, respondeu: - Um passarinho! O garoto, então, eufórico em finalmente estar prestes a “pegar” o ancião, fez a segunda pergunta: - E ele está vivo ou morto? O velho levantou a cabeça, olhou fixamente nos olhos ansiosos do garoto e respondeu: - Só depende de você! Portanto, caro leitor, as mudanças que precisamos fazer em nosso interior, pois maturidade não tem nada a ver com idade, só depende de nós! |
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