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Marinês Santos da Costa 26/03/2008 |
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Crianças estupradas em Óbidos: Sim o título desta pequena crônica tem o objetivo de chamar a atenção, um tema como este sempre chama a atenção pela curiosidade de saber o que aconteceu e como aconteceu, mas não por vontade de solucionar ou procurar formas de mudar uma realidade existente em nossa sociedade. Dia desses se estampara nos jornais a noticia que já é corriqueira, pessoas que vão a lugares pobres seduzem os pais de crianças com a promessa de prover uma vida de oportunidades que mudará seu status social e acabam por escravizar, torturar e até matar as crianças. Noticias como estas são acontecimentos diários na vida de muitas crianças e jovens no nosso País como em outros países, porém, no Brasil eu vejo este tipo de acontecimento permitido por uma questão não social e sim cultural, é claramente uma cultura na nossa sociedade entregar nossas crianças às pessoas que se apresentam com valores nem sempre monetários, porque sempre se acha que os outros tem valor e nós não, ou seja, mesmo que uma família pobre saiba que pode criar seus filhos (com dificuldade, mas pode), se chegar a casa desta família uma outra (mesmo que seja tão pobre quanto) pedindo um de seus filhos, a tendência é entregá-lo a outra família, pois, existe a cultura de que o jardim do vizinho é bem melhor cuidado que o nosso. Este fato decorre de uma herança cultural, somos um País colonizado, nos tiraram tudo e sempre disseram que nada do que havia em nossa pátria era bom, nossos tesouros, nossas frutas, nossas iguarias e principalmente nós os colonizados, não tínhamos valor a não ser como escravos, não servíamos para nada além de fonte de riqueza e trabalho escravo. Hoje alguns de nós que vivemos neste País temos uma noção do quanto somos fortes, talvez por ouvirmos alguém que já saiu da nossa pátria voltar dizendo: “somos muito melhores do que pensamos nos fizeram acreditar que somos inferiores”. Infelizmente muito poucas pessoas ouvem e acreditam nisso por aqui. Voltando a questão, explico agora o porquê da ligação entre a cultura e o estupro infantil ocorrido em Óbidos: Em nossa cidade existe a cultura de se arregimentar *lambaios no interior e nos bairros mais pobres. Não está claro? Vamos lá, então, as pessoas que possuem uma condição melhor de vida ou moram na cidade, quando estão precisando que alguém para trabalhos domésticos, não colocam um anúncio nos jornais para contratá-las, vão a casa mais próxima ou onde se encontram famílias com um número acentuado de filhos e os “pedem” para tal finalidade com a promessa de prover estudo e alimentação, as crianças são entregues a estas pessoas e lá estão sujeitas a todo tipo de exploração como pode se constatar em noticiários. Acompanhei alguns casos e posso comparar dois deles um aconteceu há muito tempo atrás quando os padrinhos de uma menina de 11 anos (hoje com 45) foram pedi-la de seus pais para que a mesma fosse para Belém ser babá de sua filha recém-nascida. Eles um casal de advogados conceituados na capital e a então criança, filha de um casal pobre com mais seis filhos para criar, esta criança na época sofreu todos os tipos de violência sem poder comunicar-se com a família para pedir ajuda, saiu da casa de seus opressores por milagre, pois um juiz ao fazer uma visita ao casal presenciou a violência e a tirou de lá a devolvendo a sua família, hoje a menina que sofreu em sua infância é uma senhora muito revoltada e infeliz com a sociedade que permitiu que tudo aquilo acontecesse com ela. Culpa de uma cultura: a de buscar *lambaios no interior. O outro caso mais recente, que mesmo sendo recente, parece estar sendo esquecido, é caso do padrasto que estuprara suas enteadas com o conhecimento da mãe, este fato eu acompanhei por dois motivos: Conheci os envolvidos, em algumas de minhas idas à Óbidos recebi a visita deles em minha casa (lógico não sabia o que se passava) eram nossos conhecidos, jamais se imagina que as pessoas possam ser capazes de tal ato. O outro motivo foi de estar também na cidade quando a noticia (que era segredo de justiça) se espalhou pela cidade, como sempre estarrecidos os moradores se indignaram, surgiu todo tipo de comentários e vários foram envolvidos inclusive outras crianças. O motivo de tudo o que aconteceu com as duas crianças estar ligado a uma cultura passa também pelo social, mas neste caso o envolvimento daquela mulher com aquele padrasto foi pela cultura que se prega na cidade de mostrar o poder, o nome da família ainda é importante nesta cidade, uma mulher submetida a uma pessoa que tem um sobrenome importante na cidade e que ao mesmo tempo poderia prover a sua sobrevivência e de suas filhas. A que preço? Quem a fez acreditar que esta seria a melhor opção para ela e suas filhas? Resposta: A cultura de que o pobre vale menos, vale qualquer coisa. Aconteceu o que é de rotina em casos como este, o padrasto com sobrenome importante na cidade conseguiu apoio de seus familiares, amigos e saiu da cidade com a possibilidade remota de ter que provar insanidade mental (o que não será difícil com seu nível de amizades e sobrenome influente), todos na cidade sabem quem são as pessoas envolvidas, mas para todos os efeitos o fato é segredo de justiça. As crianças que foram sodomizadas infelizmente não terão a mesma sorte, continuam ainda na cidade sendo apontadas, penalizadas e correndo o risco de perder o que nunca fora seu: casa, família, vida presente e futura. Com certeza não terão amigos influentes nem alguém para ajudá-las a superar os traumas sofridos (pobre não tem trauma, não ser quando em sentido médico-hospitalar). Ainda perguntam por que tanta criança vive na rua, ainda querem julgar se o aborto é legal ou ilegal, ainda existem ONG’s de fachada explorando o sofrimento alheio, mas não existem projetos sérios para evitar que as crianças saiam de suas casas em busca de segurança na rua, ainda não existe a preocupação da igreja e dos políticos em orientar e criar um programa de controle de natalidade, não existe Juizados da Infância e da Juventude indo nas casas verificando quantas crianças estão sendo abusadas sexualmente dentro de seu lar por seus familiares e “amigos” da família. Cresci em uma família que como quase todas em Óbidos, é numerosa, somos oito irmãos, sempre, sempre mesmo, apareciam por lá parentes, amigos, padrinhos e outros pedindo que mamãe nos “desse” para tomar conta do fulano, fazer companhia para o cicrano, para ter melhores oportunidades... Ao que meu pai sabiamente respondia, quando percebia em minha mãe a intenção de ajudar estas pessoas: “Meus filhos, não são filhos de cachorro, para eu sair dando eles por ai” Meu pai, já falecido, não tem idéia do quanto estava fazendo por nós seus filhos, este sim fora um herói anônimo. Grande abraço! |
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