Marinês Santos da Costa                                                                                             05/03/2008

FATOS E INFERÊNCIAS

 

Recentemente tive oportunidade de participar de um evento relativo à minha área de atuação em gestão de pessoas. Neste quesito já se percebe uma complicação, pois, “gerir pessoas” não é tarefa das mais fáceis, este é um fato constatado entre todos que trabalham em Recursos Humanos, porém, normalmente a reclamatória destes profissionais envolvem as relações trabalhistas e rotinas diárias de negociações patrão, empregado e etc. Não, eu não estou aqui fazendo um artigo profissional para “vender meu peixe”, por este motivo, vamos voltar rapidamente para o nosso contexto caboclo regional e para fazer tal ponte, quero explicar o porquê de minha referência ao evento em que estive presente.

 

Participava de um curso em São Paulo em que rezava a cartilha sobre as melhores maneiras de levantar as necessidades de melhorias tanto para uma organização quanto para os colaboradores, passamos dois dias intensos em busca de resultados positivos e em certo momento nosso consultor fez uma experiência simples, mas fantástica sobe como devemos direcionar nosso olhar para os acontecimentos rotineiros e triviais do nosso cotidiano, a fim de, percebermos o quanto somos induzidos e também induzimos os outros ao erro sem muitas vezes nos dar conta disso. Surgem neste momento, as duas palavras mais interessantes que já conhecia, mas não dava a menor importância, senhoras e senhores: Fatos e Inferências.

 

“Ih ... que é isso já?” a cabocla passou uns dias em Sampa e ta se achando, falando difícil... Não gente, até os bambas da capital ficaram impressionados com a dualidade das palavras, mas vamos pisar no chão e colocar as coisa no lugar, vamos rapidamente conceituar as duas palavrinhas assim:

                                                                                                              

Fatos: São os acontecimentos que podemos confirmar. Você vai lá, vê, diz o que esta vendo e pronto é aquilo mesmo, ninguém pode desmenti-lo, afinal, você viu não é mesmo?

Inferências: São as conclusões a que chegamos após tomar conhecimento de um fato, ou seja, é tudo aquilo que você diz: “eu acho que...”

 

É gente parece simples, mas sabe que tanta simplicidade gera uma confusão danada? Depende de como e onde nos utilizamos destes recursos, por mais incrível que possa parecer lá no nosso recanto paraense isso acontece muito, para me situar fui arremetida ao nosso cotidiano caboclo, onde é incrível como as pessoas se utilizam das “inferências sobre os fatos” de forma corriqueira, as coisas acontecem e logo sai dali uma enormidade de opiniões e estórias mirabolantes sobre o que realmente aconteceu, acredito que daí é que surgem os “causos” e aquele velho ditado que aprendi com minha querida avó que dizia:” Quem conta um conto aumenta um ponto”

 

Não é uma critica, de forma alguma, é uma constatação, as pessoas começam a conversar e dali surge conclusões e informações muitas vezes errada sobre um assunto ou muito mais grave que isso, sobre as pessoas, que muitas vezes nem sabem de onde começaram os boatos sobre sua conduta. Quantas confusões geradas que não se sabe onde e quando começou, nem como tomou as proporções inimagináveis que em alguns casos não prejudica ninguém, mas que em outros resulta em complicações terríveis.

 

Voltando o contexto para nossa Óbidos, em relação ainda às nossas palavrinhas aprendidas pela cabocla aqui. Certa vez em visita ao nosso Torrão querido, tive um exemplo muito interessante sobre o fenômeno da inferência na cidade. Meu irmão me contava que estava ouvindo a rádio local e teve uma grata surpresa (grata porque foi engraçado) quando sem “quê nem porque”, o radialista começou a reportar um acontecimento “ocorrido” na cidade que estava gerando uma controvérsia interessante, segue a estória veiculada:

 

Certo morador da cidade foi tomar aquele banho refrescante no nosso majestoso Rio Amazonas, ali no “Porto de Cima”, pois bem, estava ele, seus filhos e a esposa curtindo o lugar, dando seus mergulhos e tal, eis que o senhor teve a brilhante idéia de fazer aquilo que muitos de nós já fizemos em nossos áureos tempo de molecagem, “ir lá fora” e fazer isso na nossa linguagem de caboquês, é o mesmo que sair da margem do rio para o lugar mais profundo, ou seja, lá fora aonde a corrente de água é mais forte, pois bem voltando aos “fatos” o dito rapaz ao realizar tal proeza, sumiu... é gente segundo a esposa isto para ela levou uns 15 min, imaginem alguém sumir no Rio Amazonas por 15 min e logo ali no Porto de Cima, nossa, preocupante não? Então a mulher e os filhos em desespero não sabiam o que fazer e já estavam em busca de ajuda quando para o alivio deles o homem surge novamente à margem do rio, pasmem... segundo a mulher ele estava que nem papel, branco (não sei a cor original dele), e ainda em choque ele contava a seguinte ocorrência:” Um homem- peixe me pegou e puxou pra o fundo do rio...

Ele (o homem- peixe) disse: “Tu vens comigo, eu vou te levar...” e seguiu com a descrição do tal “sereio” e da forma como conseguiu escapar, que deixo a cargo de vocês leitores completarem em suas mentes a forma de tal figura...

 

Amigos vocês podem imaginar o que é uma estória dessas sair na rádio e contada pela própria “vitima”? Ah, foi pano para manga, diz meu irmão que daí em diante eram telefonemas e mais telefonemas para rádio, queriam contar as mais variadas formas de encontros com o “homem-peixe” por outras pessoas, novos casos foram relatados, surgiram também outras figuras além do homem-peixe, foi de uma audiência incrível a rádio neste dia.

 

Pois é, meus caros, até hoje não sei se foi verdade ou não, nem sei se contei realmente como aconteceu, pois, vocês perceberam que já conto o acontecido com minhas próprias inferências, mas o fato é que sorri muito da estória, não por acreditar ou deixar de acreditar, mas de ver como as pessoas se envolveram no acontecido e gerou uma cumplicidade entre eles. Venhamos e convenhamos que um “homem-peixe” ainda existir nas redondezas de Óbidos seqüestrando banhistas incautos é muito pano pra manga mesmo ein???

 

Neste caso especificamente foi uma coisa legal e que não causou nenhum tipo de complicações a alguém, claro, de alguma forma uns ficaram solidários a vitima e outros incrédulos devem ter encontrado motivo para fazer chacota com o pobre homem por um tempo.

 

Bom e assim posso concluir que realmente o consultor tinha razão, as coisas não são tão simples quanto parecem e nossas “inferências” atrapalham muito na hora de julgar um fato ou uma pessoa (apesar de sabermos que não podemos julgar ninguém e vivermos fazendo isso). Se não utilizarmos nossa razão e acima de tudo ser éticos ao lidar com informações, além, da busca por ser fiel aos fatos e acontecimentos sem tirar nem por, podem influenciar positiva ou negativamente até mesmo na pequena e pacata rotina de uma cidade...

 

Em relação ao acontecido com o nosso banhista posso inferir, em minha ótica que o máximo que pode ter acontecido, é que um belo de um Jaú procurando a refeição ali e encontrou um “peixe” muito fácil de abocanhar, mas graças ao nosso bom Deus o nosso banhista conseguiu se safar de virar almoço.

 

Se a minha avaliação procede ou não ai é uma outra estória....

 

Grande abraço!

 

Marines Costa

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