Um causo de contraste
cultural
Marinês
Santos da Costa -
santosmarines@hotmail.com
Dia destes estava eu conversando com os amigos de Óbidos
sobre a forma de falar de nossos pais, caboclos da terra
Pauxis.
Aquele sotaque arrastado que só o caboclo tem e a mania
arraigada de sempre ao encontrar um de seus conterrâneos
sair logo com as célebres perguntas: “E o fulano como vai?
Onde está morando? Já casou?” Quando não conhece o fulano
que se diz ser de Óbidos ai outra célebre pergunta: É filho
de quem? De que família? E daí então, são elaborados
questionários e questionários sobre a vida e os
acontecimentos do cotidiano.
Nós mesmos
continuamos estas tradições, não mais com o sotaque
carregado, mas com a mesma curiosidade, com certeza. Afinal,
é a única forma de traçar a arvore genealógica e por fim
descobrirmos se existe alguma relação de parentesco entre os
conterrâneos.
Sendo eu uma
cabocla de Óbidos que gosta muito de viajar pelo interior da
Amazônia, pois, não há melhor forma de recarregar as
energias do que voltar às origens e apreciar as belas
paisagens do nosso interior, sentindo aquele perfume
agradável da mata e dos rios. Nas andanças por este Amazonas
encontrei um fato interessante que somente em minha conversa
com os amigos conterrâneos resolvi contar também aos
leitores dos artigos.
Existe
no Estado do Amazonas um município chamado Parintins que
realiza todos os anos o Festival Folclórico de Boi Bumba, é
realmente um espetáculo, transmitido para outros países
inclusive. Bem, para prestigiar este festival os turistas
vêm de toda parte do Brasil e até do exterior, então se pode
imaginar como a pequena cidade fica lotada, a população
triplica e com o fenômeno, também todo tipo de situação
acontece.
Numa destas situações presenciei uma cena hilária e ao mesmo
tempo, percebi a beleza do contraste cultural, que ainda
permanece. Pois bem, andando com um grupo de amigos e
apreciando a riqueza do artesanato local além do movimento
de tantas pessoas na cidade, estas trajando sungas e
biquínis (trajes usados normalmente para ir à praia ou à
piscina). Porém, é interessante afirmar que em Parintins não
tem praia e as pessoas usam estas roupas no centro da
cidade, principalmente porque o verão amazônico é de deixar
qualquer turista louco de calor e quem conhece Parintins
sabe que é suicídio arriscar-se a pular no rio que banha a
cidade devido à forte correnteza do Rio Amazonas, daí
desfilarem pelas ruas em trajes de banho a espera de uma
oportunidade para refrescar-se nem que seja em um dos
chuveiros públicos, que ficam instalados em locais
estratégicos pela cidade.
Durante este passeio perto do porto, aonde atracam os barcos
lotados de turistas, também chegara um barco vindo do
interior próximo à cidade (“ do lado de “lá” como dizem os
conterrâneos), deparei-me então, com duas senhoras beirando
seus 70 e poucos anos com seus vestidos longos, cabelos
amarrados no alto da cabeça e aquele jeito simples e
caboclo, que saindo da pequena embarcação ficaram atônitas
ao ver tanta gente em sua cidade e mais ainda quando
perceberam que grupos de pessoas andavam a sua frente
seminus, quase sem roupa.
Uma delas não conteve sua indignação ver tal cena e logo
disparou em seu caboclo arrastado:
“Mas
deviam de pruibir desses home andar só de cueca pela
cidade...”.
Sorri
muito da cena e fiquei me perguntando o que elas diriam
quando se deparassem com as mulheres andando de biquíni
fio dental pelas ruas da cidade...
É parece que algumas coisas nunca mudam e algumas mudam para
pior, pois o que para uns parece normal, para outros parece
coisa e outro mundo.
Viva o nosso caboclo que ainda consegue se surpreender com a
diversidade deste Brasil imenso. E permanece incrédulo aos
acontecimentos assombrosos da modernidade!!!
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