Manuel Ayres                                                                                                                  09/11/2010


UM TRIBUTO MERECIDO

Manuel Ayres

No ano de 1943 iniciei meus estudos na Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, tendo me graduado em 1948. Nesse período escolar, participei algumas vezes como Representante de minha turma, junto com o colega Miguel Lúcio Cruz e Silva, do Diretório Acadêmico de Medicina, tendo havido, como é natural, alguns desencontros com a direção da Faculdade e, também, entre colegas das diferentes turmas, dentre os quais se destacava pela sua inteligência e competência CLODOALDO BECKMANN.  

            Em 1970, com a Reforma Universitária instituída pelo Ministério da Educação, fui convidado para dirigir o Centro de Ciências Biológicas, tendo participado da Comissão de Implantação dessa Reforma – CIRU – Presidida pelo então Reitor, Professor ALOYSIO DA COSTA CHAVES, e a participação dos Pró-Reitores ARMANDO DIAS MENDES, MARIA ANUNCIADA CHAVES e NELSON RIBEIRO. Além desses Membros, compunha a Comissão um Representante Docente, Professor CLODOALDO BECKMANN, e um membro do corpo Discente. A escolha destes últimos - representantes dos Corpos Docente e Discente - constituía uma prerrogativa do Magnífico Reitor, na forma legal.

            Um aspecto que levantou certa celeuma foi a escolha do representante Docente, pois alguns Professores tinham tido alguma querela com  a pessoa  escolhida pelo Reitor. Em um dos meus encontros com o Professor CHAVES, sobre o Centro de Ciências Biológicas, ele mencionou para mim o assunto e me disse: “recebi algumas críticas ao escolher o representante DOCENTE junto à CIRU, mas devo te dizer que escolhi o Professor CLODOALDO BECKMANN por ser uma pessoa de alta competência, não podendo ficar marginalizado em um momento no qual a Universidade precisa dispor de seus melhores valores.. A contribuição do Professor BECKMANN foi preciosa, demonstrando o acerto de sua escolha para participar da Reforma Universitária.

              No final do século XX, por convite recebido da Direção do Núcleo de Medicina Tropical da UFPA, comecei a ministrar a Disciplina de Bioestatística aos alunos dos Cursos de Mestrado e Doutorado da área das Ciências Biomédicas. Além do Diretor do Núcleo, participava das deliberações um Docente na função de Coordenador da Pós-Graduação. Não lembro bem a data, mas após algum período, talvez dois ou três anos após meu ingresso como Docente, o Coordenador afastou-se dessa Direção, e os Docentes foram convidados pela Direção do Núcleo, para uma reunião, cuja finalidade era a escolha de um do novo Coordenador, a ser nomeado para essa elevada e importante função. Entre os componentes dos Docentes encontrava-se em atividade o Professor CLODOALDO BECKMANN. Fiquei surpreendido quando esse Professor pediu a palavra e propôs o meu nome para dirigir o referido Curso. Como não me julgava em condições de exercer essa nobre missão, pois tinha acabado de implantar duas pontes de safena no músculo cardíaco, agradeci comovido a indicação, elucidando o motivo de minha recusa. Guardei, entretanto, esse episódio que me envaideceu sobremodo, pois confesso que não esperava a indicação do meu nome pelo eminente Docente, eis que as nossas relações eram ocasionais e sem quaisquer vínculos familiares ou de natureza genética..

            Em março de 2003, meu filho JOSÉ MÁRCIO faleceu de neoplasia pulmonar e, embora o infausto episódio tenha ocorrido em Nova York, ele foi sepultado em Belém. Em maio desse mesmo ano, fui convidado pelo Professor CLODOALDO BECKMANN, que então dirigia o Conselho Estadual de Cultura, para proferir uma palestra sobre o trabalho de meu filho, voltado para a Conservação da Biodiversidade. Eu e IZA ficamos sensibilizados pelo convite e procuramos traduzir, nesse evento, as atividades que MÁRCIO desenvolveu ao longo de vários anos, motivo de relevância para a humanidade, no momento em que nos encontramos com a destruição cada vez maior da biodiversidade do nosso planeta. Ao final, o Professor CLODOALDO BECKMANN agradeceu em nome do Conselho de Cultura nossa apresentação, e nos incentivou para que publicássemos um livro sobre a vida do JOSÉ MÁRCIO. IZA já havia começado a reunir muitos documentos voltados para a vida de nosso filho, com destaque, sobretudo, para os aspectos do Desenvolvimento Sustentável na Reserva Mamirauá, no Estado do Amazonas. Era, portanto, também, um desejo do Presidente do Conselho Estadual de Cultura do Pará, Professor CLODOALDO BECKMANN. O livro sobre a vida e o trabalho hercúleo de JOSÉ MÁRCIO está pronto, cuja participação de ANA RITA ALVES, minha sobrinha, foi da maior importância, e será lançado no segundo semestre do corrente ano (2010).

            Em fevereiro de 2007, IZA encontrava-se no supermercado “Líder” efetuando as nossas comprar semanais, quando se aproximou da mesma o Professor CLODOALDO BECKMANN e lhe disse: “diga ao Manuel que estou muito doente, com uma neoplasia que me levará ao túmulo dentro de poucas semanas”. Quando recebi esse recado, confesso que nunca poderia esperar tão dolorosa mensagem, tendo ficado pasmo, em verdadeiro estado de choque, sem saber o que poderia fazer, embora reconhecendo, de imediato, o apreço e a elevada consideração que ele tinha pela minha família, como já havia demonstrado nos episódios rememorados nos parágrafos anteriores.

            Professor Emérito da Universidade Federal do Pará, CLODOALDO BECKMANN era médico de formação, mas sua atuação na UFPA foi além da saúde. Ministrava aulas na Faculdade de Medicina, participando, como um de seus Membros, da fundação da Universidade Federal do Pará, criada pelo Ministério da Educação em julho de 1957. Assim é, que, na gestão do primeiro Reitor, MÁRIO BRAGA HENRIQUES, o Professor CLODOALDO BECKMANN recebeu o desafio de organizar a criação da Biblioteca Central, que foi fundada em dezembro de 1962. O ilustre Professor foi ainda responsável pela formação de uma geração de Biblioteconomistas paraenses, ao fundar o Curso de Biblioteconomia da UFPA, em 19636.

            No período de 1981 a 1985 ocupou o cargo de Pró-Reitor de Planejamento da UFPA. Foi também um dos Membros-Fundadores da Associação dos Amigos da UFPA.

      Perdemos CLODOALDO BECKMANN, mas julgo que ele é merecedor de homenagens de seus discípulos, do Corpo Docente da UFPA, dos Membros do Conselho Estadual de Cultura e de todos os paraenses, pelo labor por ele dedicado à Educação.

Manuel Ayres - 2010
 


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