Manuel Ayres                                                                                                                  31/03/2010

GRANDES MESTRES

 

Manuel Ayres

 

Durante meu Curso de Medicina, recebi preciosas informações, conselhos, orientações e, sobretudo, ensinamentos sobre a área das ciências médicas, de vários mestres, muitos dos quais já não se encontram entre nós. Com a prestimosa ajuda de um colega de turma – Miguel Lúcio Cruz e Silva – comecei a freqüentar o Hospital da Santa Casa de Misericórdia do Pará, ainda no primeiro ano do Curso. Esse detalhe, de freqüentar o Hospital desde o primeiro ano, foi muito importante para minha aprendizagem, pois só a partir da quarta série é que os alunos podiam visitar e efetuar seus treinamentos nesse nosocômio.

 

Logo, de início, deparei-me com um Pequeno Laboratório na conhecida Enfermaria São João, pertencente à Fundação SESP. Nessa saleta, com a colaboração do doutorando OCTÁVIO MAROJA, aprendi a dar os primeiros passos no entendimento laboratorial do Hemograma: contagem de hemácias, de leucócitos e, sobretudo, distinguir corretamente os elementos da fórmula leucocitária: neutrófilos, eosinófilos, básófilos, linfócitos e monócitos. Nas lâminas destinadas a essa finalidade – esfregaços fixados com álcool e corados com o Giemsa – aprendi, ainda, a verificar a presença dos agentes da malária: P. vivax e P. falciparum. Fui me familiarizando também com outros exames, de tal sorte que esse meu aprendizado devo, com certeza, ao Dr. OCTÁVIO MAROJA. Viajei ainda, como estudante de Medicina, embasado nessa fase de estudante de Medicina, pelo Laboratório de Saúde Pública do Estado do Pará (1944/1945) e pelo não menos importante Laboratório de Análises Clínicas do Hospital da Santa Casa (1946-1947), tendo ao meu alcance, nessa mesmo Instituição, a figura insigne do Mestre e Professor JAYME ABEN-ATHAR.

 

Outro médico que me iniciou na anamnese e no exame físico dos doentes foi o Dr. SÍVIO BENTES. Ele não pertencia aos quadros de Professores da nossa Faculdade de Medicina, embora tivesse sido formado nessa mesma Escola, mas seus ensinamentos diários eram preciosos. Lembro que ele diagnosticava a doença dos seus pacientes – Enfermaria Santo Antônio – com interrogatório bem conduzido e um exame físico de primeira ordem, o que nos estimulava a seguir seus passos. Recordo, por exemplo, que o Dr, SÍLVIO BENTES foi chamado para atender uma Dirigente de uma Instituição Estadual, creio que em 1948. Após anamnese e o exame físico da paciente, e antes de solicitar qualquer exame laboratorial de apoio e evidência, ele deu seu diagnóstico: Uremia. Os exames complementares de sangue confirmaram plenamente o tirocínio do nosso Clínico. Na época dessa ocorrência, ainda não se falava em hemodiálise e muito menos em transplantes renais.

 

Eu estava me preparando em todas as matérias do Curso Médico, pois iria clinicar em Óbidos, meu torrão natal, e não podia me dedicar a uma só especialidade, tinha, como se diz, “de abarcar o mundo com as pernas”, na esfera da seara médica. Ora, com certeza, iria me defrontar com problemas cuja terapêutica seria cirúrgica, sendo as apendicites as mais conhecidas e as mais frequentes. Por sugestão de um colega, um ano mais adiantado que eu, o prezado amigo Paulo Castro, procurei o Dr. LUIZ CORRÊA, vinculado ao Instituto dos Marítimos, e um dos principais cirurgiões do Hospital da Beneficente Portuguesa. Durante meu último ano na Escola de Medicina, em 1948, fui um verdadeiro assistente desse experiente e renomado Cirurgião, e com ele aprendi a efetuar anestesias locais, tronculares e raquidianas. Ajudei, nesse período, a efetuar mais de 300 cirurgias de pequeno e médio porte, incluindo cesarianas chamadas então de corpóreas. E quando eu demorava um pouquinho nas suturas, ele exclamava: “não mastiga rapaz”. Foi com o conhecimento da punção raquidiana, para introduzir anestésico, que efetuei, em Obidos, o diagnóstico de meningite purulenta de um paciente, tratado com sucesso pelo antibiótico da época - a Penicilina em doses elevadas.

 

Antigamente algumas disciplinas do Curso de Medicina eram Optativas, de livre escolha pelos estudantes, como Oftalmologia, Ginecologia e outras, sendo suficiente ter apenas frequência regulamentar para ser aprovado. Eu me matriculava em todas elas, pois pacientes com problemas relacionados a essas matérias estariam me aguardando em futuro bem próximo. Quando me matriculei em Ginecologia, o Conselho da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará transformou todas as disciplinas Optativas em Obrigatórias, ou seja, deveríamos também efetuar provas prática, oral e escrita, como em Anatomia, Histologia, Obstetrícia, etc. Em Ginecologia tive pouca aptidão e acabei, como a metade da minha turma, indo para a conhecida Primeira Época, a ser efetuada no final de novembro, poucos dias antes da Formatura, que ocorreria impreterivelmente no dia 8 de dezembro, comemoração de Nossa Senhora da Conceição. No período que antecedeu o meu exame em Ginecologia, recebi ajuda de um médico, que embora não fosse docente, era brilhante e me ensinou os principais meandros da Ginecologia, de tal maneira que fui aprovado com distinção. O nome desse meu amigo e colega, que tenho sempre muito apreço, chama-se Dr. RAMIRO KOURY.    

 

Em minhas reflexões do dia a dia, guardo com carinho a lembrança desses ilustres médicos e amigos, em uma Placa fixada em minha memória, com a seguinte inscrição:

 


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