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Manuel Ayres 02/07/2007 |
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RECORDAR É VIVER... As festas juninas na Cidade de Óbidos são muito famosas. Desejoso de lembrar, com saudades, esses festejos, descrevo alguns episódios por mim vivenciados no Tempo da minha infância (1925/1935). Desde o início do mês de junho, as Donas de Casa começavam a preparar o gostoso aluá, guardar achas de lenha para as fogueiras e cortar papel de seda colorido para confeccionar as “bandeirinhas”. Estas alegravam os ambientes festivos, penduradas em longos fios, cujos rolos tinham sido adquiridos na Padaria do Careca. As chamativas blusas usadas no período eram de chita e as calças de riscado, compradas nas Casas do Seu Priante, do Silvestre Savino e do Seu Chocron. Os chapéus de palha, enfeitados com fitas de gorgorão e cetim, com pequenos espelhos em volta, davam o charme aos caboclos envaidecidos, tostados pelo sol, e com os cabelos reluzentes de óleo de mutamba. No terreiro do Amazônia Clube as fogueiras atingiam cerca de 4 a 5 metros de altura e os balões do Chico Santos encantavam a comunidade obidense, sem esquecer o famoso “Pau de Sebo”, um esteio de pau mulato, bem ensebado, com um envelope na extremidade, contendo certa quantia em dinheiro da época –, em geral dez mil réis. E haja candidato a tentar subir para ganhar a oferenda, esfregando muita areia nas camisas e nas calças, para aumentar a aderência na escalada com a ajuda das peconhas. Quem conseguisse a façanha de atingir o topo, que só ocorria após muitas tentativas com a retirada gradual da cera pelos subintes, recebia muitos aplausos dos participantes da brincadeira. Na véspera de Santo Antônio, o Santo Casamenteiro, o compadrio aumentava, mesmo entre jovens, que aos pares, e dançando ao redor da fogueira, diziam:
“Santo Antônio disse, Aumentavam, assim, as relações de amizade iniciadas em torno de uma fogueira e esse sentimento se prolongava para sempre. Nessas ocasiões assustavam-se os transeuntes com os “estalinhos, foguetinhos e busca pés”. A Casa do Seu Bichara Matar vendia esses folguedos para a criançada. Destaque-se que os festejos juninos começavam com Santo António, prolongando com São João e São Pedro e encerrando com São Marçal, dia 30, obrigatoriamente comemorado com fogueiras de paneiros. As “Quadrilhas” disputavam a preferência da garotada, com o “Passa, Passa Gavião, Todo Mundo Passa”... Os blocos de “Pássaros” e o “Boi-Bumbá” eram obrigatórios, espelhando e traduzindo a cultura de um povo unido, altaneiro e diversificado em suas diversas etnias. Paulo Rego, filho do Seu Felis Rego, o gerente dos Correios, embora muito jovem e descontraído, sempre apresentava um bloco, com pássaros – bem-te-vi, beija-flor e outros -, trazendo muita alegria quando cantava pelas ruas da cidade, regozijando os obidenses. Outro grupo muito famoso do período junino era o da “Garcinha”, dirigido por Maria José Ferreira, e que havia sido criado pelo Professor José Barroso Tostes, professor emérito de muitas gerações de obidenses. Esse bloco era constituído por crianças de 10, 11 anos e, segundo informações ora obtidas, será revivido nas festas juninas deste 2007, pela colônia obidense radicada em Belém. O famoso Cordão do Rouxinol cantava em frente às casas onde era convidado, com o seguinte estribilho:
“O Cordão do Rouxinol Grande sucesso era obtido pelo “Boi do Antonico”. Mais de quarenta pessoas tomavam parte nesse espetáculo. Destaque-se que foi organizado por um obidense que chamavam de Seu Antonico Pé de Arpão, muito conhecido e reconhecido, pela disciplina, organização e diretriz, tanto em Óbidos como nas cidades vizinhas, sendo seu Boi Bumbá apreciado pela beleza, cantos e encantos. Lembro que o “Caçador”, o “Pagé”, e a “Mãe Catirina”, eram destaques, sem esquecer o garbo do “Boi Bumbá”, conduzido por um caboclo experiente chamado “O Tripa”, que dançava ao som de pandeiros, cuícas, flautas, violões, cavaquinhos e bombos, encantando a numerosa assistência. Quando o “Boi” era atingido pelo tiro do “Caçador”, cânticos em tons lamurientos tentavam reverter a desgraça:
“Chico tira a língua, E o Pagé respondia:
“A língua ta dura, Após várias tentativas, o Pagé conseguia seu objetivo e o “Boi”, recuperado da maldade do Caçador, voltava a alegrar a população dos brincantes. Presto justa reverência ao criador desse “Boi Bumbá”, – Seu Antonico – pela esplêndida obra de sua autoria, traduzindo uma cultura ímpar da minha terra natal. Jamais esqueci esse folguedo da minha infância. Em 1975, conheci um Pintor na cidade da Vigia chamado Nenê Leal, e para reviver minha infância, lhe solicitei que pintasse um “Boi Bumbá”. Com sua maestria ele atendeu meu pedido, cuja fotografia dessa tela está contida no final desta narrativa. As lembranças do período infantil das nossas vidas sempre nos enriquecem, pois tais episódios já foram bem traduzidos por Casemiro de Abreu em seus versos “Os meus oito anos”, abaixo transcritos.
Do alvorecer ao anoitecer quantos misteres perpassam por todos nós. E viva o Tempo, pois como afirma Dona Alcinda, varzeira da Costa de Óbidos, “O Tempo não muda, o que muda são os Homens”
Manuel Ayres
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