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Manuel Ayres 20/08/2009 |
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O MESTRE E OS DISCÍPULOS Manuel Ayres ABELARDO SANTOS, o Mestre, nasceu em Belém, capital do Estado do Pará, em 03 de fevereiro de 1916, em um casarão da Rua Padre Eutíquio, antiga São Mateus, entre as artérias Conselheiro Furtado e Veiga Cabral. Iniciou seus estudos em Portugal e completou-os no Colégio Nazaré, em Belém, Pará, orientado pelos Irmãos Maristas, onde efetuou todo o curso secundário, concluído em 1933. No ano seguinte, após aprovação em exame vestibular, matriculou-se na então Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, diplomando-se em 8 de dezembro de 1939, e aí “começou a estudar”, como dizia aos novos, esclarecendo que “a colação de grau é menos o remate de um curso do que o início de um longo, inacabável e infinito itinerário”. Destacou-se como professor, médico pediatra, escritor, cronista, conferencista e crítico de arte. Como médico pediatra, foi um dos mais requisitados e afamados de seu tempo, tendo consultório localizado no Edifício “Aliança do Pará”, na rua Santo Antonio. Serviu, com destaque, no Instituto Ofir Loyola, na Prefeitura Municipal de Belém, na Hospedaria dos Imigrantes do SESP, na Legião Brasileira de Assistência e, sobretudo, no Hospital da Santa Casa de Misericórdia do Pará, onde desenvolveu intenso trabalho de ensino e formação acadêmica. Conquistou, por concurso, a Livre-Docência e depois a Cátedra de Pediatria e Puericultura da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, tendo exercido também, como docente, as disciplinas de Puericultura e Pediatria da Escola de Enfermagem “Magalhães Barata”, do Curso de Enfermeiras Voluntárias da Aeronáutica e do Curso do Centro Internacional da Infância, no Rio de Janeiro. Pertenceu à Sociedade Médico-Cirúrgica do Pará, à Academy of Pediatrics, USA, à Sociedade Brasileira de Pediatria, Rio de Janeiro, da qual foi Presidente, à Sociedade Paraense de Pediatria, da qual foi fundador e Presidente, ao Instituto Paraense da História da Medicina, à Academia Paraense de Medicina, da qual foi um dos fundadores, ao Instituto Histórico e Geográfico do Pará, ao Conselho Estadual de Cultura e à Academia Paraense de Letras. Como Diretor do Instituto de Higiene e Medicina, integrou o Conselho Universitário da Universidade Federal do Pará. Em 1951, quando assumiu a cadeira de Puericultura e Pediatria da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, Abelardo Santos organizou um grupo de professores para o ensino da pediatria e puericultura, constituído, de início, pelos docentes Mário Rodrigues Ferreira, Manuel Ayres, Heber Chilon de Monção e Fernando Ribeiro Otero, mais tarde enriquecido com médicos já especializados nessa disciplina no próprio serviço de Abelardo Santos, dos quais lembramos, entre outros, Maria Yeda Siso de Oliveira, Manoel Coimbra, Leoni Matos, Amélia Macedo Ribeiro, Fernando Veloso, Augusto Bellard Pereira e João da Costa Costeira. Abelardo Santos criou, assim, com esse conjunto de professores, uma verdadeira Escola Paraense de Pediátrica, consolidada ao longo de três décadas e formando cerca de 200 pediatras de renome. . Outro aspecto a destacar, relaciona-se com o trabalho desenvolvido em sua tese de Cátedra, defendida em 1958, mas iniciada em 1955, quando voltava sua atenção para um dos problemas de real importância pediátrica nos países subdesenvolvidos, ou seja, a desnutrição infantil. O Mestre já havia detectado entre nós, pela primeira vez, uma forma de desnutrição grave, conhecida nos meios acadêmicos como Pelagra Infantil, Distrofia Pluricarencial Hidropigênica ou Distrofia Farinácea, da Escola Alemã de Czerny. Abelardo Santos tinha escolhido esse tema para a sua tese, quando chegou a Belém o professor Waterlow, médico inglês e renomado especialista em nutrição, o qual passara longos anos na África, estudando essa forma de carência alimentar na infância. Ele esclareceu ao professor Abelardo Santos que, no continente africano, a denominação dada a esse estado carencial, designada pelos próprios nativos, era de Kwashiorkor, o que descomprometia com os possíveis agentes causais ou com as manifestações da doença, e que foi aceita como título de sua tese, tendo a literatura nacional adotado, a partir desse momento, a mesma denominação para essa forma de desnutrição. Abelardo Santos defendeu com brilhantismo sua tese à cátedra de Puericultura e Pediatria, cuja banca examinadora estava constituída de eminentes e renomados pediatras brasileiros, entre os quais se destacavam os professores César Pernetta, Martinho da Rocha e Mário Olinto, que emitiram, ao final do concurso, laudo de aprovação de Abelardo Santos, com distinção e louvor. Participou ativamente da vida cultural em nosso Estado, jamais se confinando nos limites de sua profissão e, menos ainda, da sua especialidade na área da medicina. Possuía, como afirmava Otávio Mendonça, “a leveza do estilo, o bom gosto, o senso da medida e o horror à vulgaridade”. Com essa linha, como jornalista, manteve por vários anos, em “O Liberal”, a acreditada página “Cultura”. Deixou, dentre seus trabalhos, quer na área da Pediatria, quer em suas manifestações jornalística e de crítico de artes, entre outros, os seguintes: “Kwashiorkor – Alguns aspectos estudados em Belém do Pará”, “Criança e Higiene”, “Considerações sobre Paralisa Infantil”, “Panorama da Patologia Infantil Amazônica”, “Alguns Aspectos da Recreação Infantil”, “Considerações sobre a inapetência infantil” “Camilo Salgado, o Mago da Cirurgia”, “Acylino de Leão, o Médico de Branco”, “Aben-Athar, o Sábio de Gurupá”, “Ismael Nery, o Pintor Reencontrado”, “Atividades da Tapeçaria Brasileira”, “A Cerâmica através do Campo”, “Divagações sobre a Cruz”, “Um Museu Art Noveau Perdido para Sempre”, “Villa Lobos, um Compositor Nacionalista”, “A Missa Como Forma Musical”, “Violão in concert”, “O Aleijadinho”, “A Realidade Histórica e Humana do Crucifixo” e “Os 60 anos da Velha Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará”. Conquistou dezenas de Títulos Honoríficos, tais como a Palma Universitária, Classe Especial, e diversas Medalhas de elevado significado cultural, tendo o Governo do Estado do Pará, ao inaugurar, em 27/10/92, Unidade de Saúde no distrito de Icoaracy, Município de Belém, homenageado o caro Mestre, designando-a de Hospital “Dr. Abelardo Santos”. Aspecto do eminente paraense que deve ser destacado diz respeito ao seu amor pela Música, pois, como afirmavam seus amigos, era um irreprimível adepto dessa luz que fala e que ele entendia nas profundezas do seu sentir. Todos os dias ele reservava algumas horas para ouvir seus clássicos favoritos e não pouco se retraia de compromissos sociais para render culto a Chopin, Schumann, Bach, Mozart, Beethoven, Brahms, Vivaldi, Tchaikovsky e Villa Lobos, engolfado em Baladas, Fantasias, Prelúdios, Polonaises, Sonatas e Concertos, sempre procurando os maiores intérpretes e as melhores gravações oferecidas à época, tudo de acordo com as características marcantes da personalidade de Abelardo Santos, a retidão e a perfeição. Como homem que foi educado nos valores do espírito e do estudo, ele teve o bom gosto de reservar algumas horas de seu lazer ao colecionismo. Através de vários anos reuniu objetos de arte, sobretudo de estilo barroco, parte dos quais integram, nos dias de hoje, o Museu de Arte Sacra do Governo do Estado do Pará. Abelardo Santos faleceu no Rio de Janeiro em 02 de novembro de 1988, aos 72 anos de idade, e foi sepultado em Belém no dia subseqüente, no Cemitério de Santa Izabel. Um grande amigo e um grande ser humano.
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