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Manuel Ayres 18/06/2007 |
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O FATO E O GESTO... Em 1976 recebi um convite para almoçar na residência de um amigo, Maurício Coelho de Souza, médico, especialista em tisiologia, um de meus colaboradores na Secretaria de Estado de Saúde Pública. Pessoa alegre e sempre descontraída, alegrando o ambiente com suas manifestações adequadas a cada momento. Atendi seu convite e, em companhia de minha esposa, fui almoçar com o prezado colega em sua residência à Travessa Ruy Barbosa. Outras pessoas amigas compareceram a essa ágape, preparado com muito esmero pela dona da casa, Professora Arlete, que entretinha os convidados com seus toques mágicos em seu reluzente piano. Um dos participantes desse encontro, que eu só conhecia de nomeada, era o poeta Augusto Corrêa Pinto Filho, carinhosamente chamado de Augustito, filho de um ilustre obidense, o Intendente Augusto Corrêa Pinto, que dirigiu a Prefeitura de Óbidos de 1917 a 1930. Nesse período, a cidade de Óbidos foi uma das mais prósperas do Baixo Amazonas, pois o Intendente Augusto Corrêa Pinto dotou a Cidade Presépio, como Óbidos é conhecida, de abastecimento de água potável em todas as residências e de luz elétrica para seus moradores, o que hoje poderíamos considerar como um verdadeiro Plano de Aceleração do Crescimento. Nem Santarém, uma das mais importantes cidades interioranas do Estado do Pará dos dias atuais, dispunha, à época, desses melhoramentos. Outra obra que foi edificada por esse dirigente, de grande beleza arquitetônica, foi o Mercado Municipal. Na época, tal construção era um modelo de grandeza e prosperidade, o que muito orgulhava os obidenses. José Cardoso Ayres, meu pai, português de origem e farmacêutico prático, atuava como profissional de saúde nos navios da linha amazônica, conhecidos como “Gaiolas” e viajava, então, com sua noiva, Ana Michiles, da cidade de Maués, Amazonas. Ao chegarem ao porto de Óbidos, no ano de 1917, contudo, ocorreu um episódio inédito: tendo como celebrante o Comandante do navio, efetuaram o casamento no convés da embarcação. Após a cerimônia matrimonial, desembarcaram na Cidade Presépio e meu pai, com dez mil réis no bolso e muita disposição, abriu uma Farmácia em um prédio na rua da frente da cidade, a qual denominou de PHARMACIA ESCULAPIO, em homenagem ao Deus da Medicina. Por motivos vários, meu pai e o Intendente de Óbidos não tinham boas relações, eram adversários ferrenhos. Mesmo assim, quando o Mercado foi inaugurado nos anos 20 do século passado, com toda a população a ovacionar o gestor do Município pela beleza da edificação, Seu. Ayres – como era conhecido meu pai –, mesmo não tendo relações com o Intendente, pediu a palavra e fez os elogios merecidos ao autor da obra para gáudio dos obidenses. Apesar desse episódio, o Prefeito e o Farmacêutico não se tornaram amigos. Essa história vem a propósito do encontro que tive com Augustito no almoço em casa do Maurício. Após ser apresentado e sabedor da minha origem, filho do Seu Ayres, o nobre poeta lançou-se em meus braços e, de maneira comovida, começou a chorar. Fiquei surpreso com a emoção daquele abraço. Contou-me, então, que no momento da vitória da revolução de 1930, o Delegado de Polícia recebera ordens do Interventor Estadual do Pará, para aprisionar o Intendente Augusto Corrêa Pinto, o que de fato ocorreu. Os numerosos amigos do Prefeito desapareceram na sombra do anonimato, mas Seu Ayres, sabedor da ignominiosa ocorrência dirigiu-se ao Delegado e, com sua autoridade e prestígio de bem servir a população obidense, muitas vezes com suas fórmulas prodigiosas preparadas em sua Farmácia, atendendo tanto os cidadãos da cidade como os interioranos, dirigiu-se ao Delegado e determinou, com suas palavras, a soltura imediata do pai do poeta Augustito, prontamente atendida. Foi essa ocorrência que Augustito nunca esqueceu e, no encontro em casa do Maurício, derramou-se em lágrimas de agradecimentos ao Seu Ayres, episódio que para mim era desconhecido. De maneira comovida, meus olhos também lacrimejaram, pois estava recebendo o galardão de uma atitude civilizada e exemplar de meu saudoso pai, reconhecida pela inteligência brilhante de um poeta e filho do Intendente Augusto Corrêa Pinto. Esses foram o fato e o gesto, que a todos engrandece. Manuel Ayres Belém, 05 de junho de 2007.
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