Manuel Ayres                                                                                                                                 14/06/2007

O MESTRE E O DISCÍPULO

                Conheci o Dr.. Chernoviz, o MESTRE, ainda criança, na Pharmacia Esculapio do Seu Ayres, o DISCÍPULO. Companheiro permanente em cima da mesa de trabalho de meu saudoso pai, farmacêutico prático que sempre estava com ele ao seu dispor, na forma de dois grossos volumes de um Tratado Popular sobre ciências médicas, publicado no Brasil em 1843, com o título de “Manuais de Medicina Popular do Dr. Chernoviz”. Na época, esses Manuais foram muito importantes na difusão das práticas médicas, “aprovadas pelas instituições médicas oficiais para regiões rurais do Brasil Imperial”, contribuindo, nessas áreas, para a instrução de inúmeros praticantes leigos, pois a maioria dos médicos exercia atividades somente nos principais centros urbanos. Destaque-se que o MESTRE, nasceu na Polônia, em 1812, e ainda bem jovem foi estudante de medicina da Universidade de Varsóvia, mas formou-se em Montpellier, na França, em 1837. Chegando ao Brasil em 1840, seu nome polonês, Piotr Czerniewicz, foi abrasileirado para Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, tendo falecido na França em 1881. Seus Manuais tiveram muito sucesso, com várias edições e, embora outros volumes sobre práticas médicas tenham sido publicadas, como os famosos Almanaques, nenhuma teve a repercussão da produzida e editada pelo Dr. Chernoviz. Registre-se, ainda, que durante meus seis anos de curso médico, iniciado em 1943, em Belém, Pará, exatamente um século após a publicação da referida obra, não ouvi qualquer referência sobre os Manuais do Dr. Chernoviz.

Em sua Pharmacia Esculapio, na cidade de Óbidos, Pará, meu pai, o DISCÍPULO, produzia todos os principais produtos de manipulação da época, como as Pomadas de Enxofre e Mercurial, o Elixir Paregórico, a Tintura de Iodo, o Xarope de Camomila, muitos ainda prescritos nos dias de hoje. O quinino, droga milagrosa contra a malária e de amargor inexcedível, era acondicionado em cápsulas confeccionadas de trigo, brancas como as hóstias sagradas, para facilitar sua ingestão. Todos esses produtos eram preparados pelo Seu Ayres, com sua inteligência e experiência farmacêutica desde sua juventude, em Lamego, Portugal, com o apoio relevante do MESTRE, o Dr. Chernoviz. Muitas vezes as habilidades e o conhecimento do DISCÍPULO surpreendiam até os médicos que exerciam suas atividades na cidade de Óbidos, bastando relatar dois casos de meu conhecimento para ilustrar essa afirmação.

                Uma das minhas irmãs, em 1934, com cerca de 13 anos de idade, apresentou um estado febril, com temperatura elevada: 39 e 40 graus centígrados. Um médico, amigo do Seu Ayres, foi chamado e, após o exame da paciente, fez a prescrição que julgou adequada. Transcorrida uma semana, minha irmã não melhorava. Foram afastadas hipóteses de várias enfermidades de natureza endêmica na área, como o impaludismo. Novos medicamentos foram administrados, mas o quadro não se alterava, a febre persistia e minha irmã definhava. Após 15 dias de tratamento, sem resultados e sem diagnóstico firmado, e não se dispondo à época, em Óbidos, de exames e procedimentos de apoio (laboratoriais, radiográficos, etc.), Seu Ayres, o DISCÍPULO, tomou uma decisão: injetou no tecido subcutâneo de uma das coxas de minha irmã, pequena quantidade de terebintina. Esta substância, como se sabe, é o nome genérico de resinas extraídas de árvores coníferas e terebintáceas e, pelo Dr. Chernoviz, a sua injeção subcutânea provocaria o chamado “abscesso de fixação”, o qual incrementaria, substancialmente, as atividades do sistema imunológico dos pacientes. Decorridos três dias, minha mana estava sem febre, melhorando a cada dia, e, pouco a pouco, começou a sentir incômodo no local da injeção, eis que se formava um pequeno nódulo purulento, o “abscesso de fixação”, drenado pelo autor do tratamento com uma pequena incisão. Ficamos todos felizes com a terebintina recomendada pelo MESTRE e a argúcia do Seu Ayres, o DISCÍPULO.

                Por diversas causas, o Homo sapiens pode apresentar contrações espasmódicas do diafragma, ocasionando abalo do abdômen e tórax, com passagem ruidosa do ar através da glote: o soluço. Manifestação que nos acomete eventualmente, de pequena duração, mas, em determinadas circunstâncias, torna-se repetitivo, durando horas e até mesmo dias, esgotando o paciente e preocupando os familiares, como nos casos de acidose ou alcalose. Foi o que ocorreu com um Sargento do Batalhão de Artilharia de Costa da cidade de Óbidos, nos anos 30 do século passado. O soluço era de tal monta que os familiares do paciente, muito preocupados, solicitaram a presença dos dois médicos que exerciam suas atividades profissionais na cidade, tendo sido realizada uma verdadeira Conferência Médica. Após a administração dos medicamentos indicados e das recomendações alimentares adequadas, o paciente continuava a soluçar e a manifestação já durava cerca de oito dias. A família, desesperada, pois o doente piorava a cada instante, resolveu ouvir a opinião do Seu Ayres. Ele se dirigiu à casa do enfermo e fê-lo ingerir uma colher das de chá de éter sulfúrico, como recomendava o Dr. Chernoviz, nos casos de soluços persistentes. Foi “tiro e queda”, como se diz. A contração espasmódica do diafragma desapareceu, para encanto e contentamento dos familiares e felicidade do soluçante.

Manuel Ayres
Belém, Pará, 10 de junho de 2007.

 

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