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João Imbelloni 30/05/2007 |
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Retalhos (I): A grande festa A chuva que caiu durante toda a manhã e tarde, afastara-se como por milagre e a estrelada noite parecia convidar a todos para a diversão, agora sem o sufocante calor dos últimos dias . Naquele tempo já existia o hábito das pessoas valorizarem a realização de festas na sexta-feira. - Madalena, minha querida, já estás pronta? Daqui a pouco meus irmãos passam para nos apanhar. Jesus, após as orações diárias conforme era de praxe, preocupava-se, agora, com a festa que se realizaria, dali a instantes, na deslumbrante mansão do Sr. Isaac Nina, oficialmente em comemoração ao aniversário de Rebeca, filha única do homem mais rico da região. Continuava, entretanto, com a cruel dúvida: Levaria consigo a jovem Madalena, tendo em vista o outro motivo da realização do evento? - Só um instante, Mestre; quando Tiago, João e Pedro chegarem, estarei pronta. Madalena era uma bela morena, cabelos crespos, negros e longos, lábios carnudos, inigualáveis olhos verdes e um corpo que chamava a atenção até dos velhos religiosos amigos de seu pai, os quais não podiam deixar de olhar para tal monumento. Aquela anca! Aquelas pernas! Aquela...! Exclamavam os fariseus quando estavam sozinhos ... A linda mulher, entretanto, não estava se sentindo bem naquela memorável noite. Os amigos chegaram por volta das vinte e uma horas, à frente Tiago e João, zombando de Pedro que, com o habitual mau humor, reclamava do possível atraso, da distância que teriam de percorrer, etc., etc. Não se importando com as costumeiras queixas de Pedro, iniciaram a jornada pela rua sem calçamento. Jamais se importariam em caminhar por aqueles quase dois quilômetros que os separavam do grande acontecimento social. Jesus parecia não se incomodar mais com a presença de Madalena. A mansão do Sr. Nina ficava, exatamente, no final da rua e no início da grande fazenda Maná, como se a pequena vila fosse o portal daquele paraíso. Especulava-se que a imensa propriedade era bem maior do que o declarado para as autoridades. Variadas plantações somavam-se aos grandes rebanhos de animais, sob os cuidados de dezenas de empregados. De longe, o grupo vislumbrava as luzes e ouvia atentamente o som da música que se sabia especial, uma vez que era executada por músicos vindos da distante Belém. Ah! A indisfarçável expectativa pelo vinho estrangeiro que seria servido junto com a comida também de ótima qualidade. Foi com água na boca que aqueles apóstolos da juventude adentraram o grande salão reservado para a festa. Serviçais com imensas bandejas serviam o sonhado vinho e até Pedro, daí a breve instante, ria à toa. Quando se preparavam para atacar a grande mesa repleta de alimentos de toda espécie, o dono da casa pediu a atenção de todos. - Amigos meus: Antes do jantar, proponho que todos façamos um brinde à saúde e felicidade da minha filha, meu maior tesouro; que ela seja abençoada por Deus todo poderoso agora e para sempre. Naquele instante, conduzida ao salão pelas mãos da orgulhosa mãe, Rebeca conseguiu ofuscar até a beleza de Madalena. Estava impecável nas vestes brancas; ostentava jóias caras mas simples e combinando com suas feições finas de deusa grega. Os loiros cabelos e os olhos azuis também combinavam com o ouro e os brilhantes que lhe caiam tão bem. Com voz tão suave, como a mais sublime música convidou, finalmente, os convidados para que se servissem à vontade da comida colocada sobre a imensa mesa, conclamando-os para que ficassem preparados para o baile que teria início logo após o lauto jantar. Mais uma vez, hipnotizado por aqueles lindos olhos azuis, Jesus não conseguia olhar para mais nada; esquecera completamente a bela Madalena que pela primeira vez na vida sentia ciúmes e reprovava as atitudes dos dois personagens que se fitavam acintosamente. Não dera ouvidos para o falatório circulante na pequena vila. Arrependida, gritava histericamente: - Mestre! Não é possível que o demônio dessa mulher tenha te enfeitiçado. Vamos embora. Já! - Até a minha nobre missão ficou tão pequena diante do encanto de Rebeca. Lamento, Madalena, mas sei perfeitamente o que está acontecendo comigo. - Vamos embora! Não estás vendo que o Inimigo está agindo? - Deixa de bobagem! Um anjo como esse não pode fazer mal a ninguém; e todo mundo sabe que nada és para mim. Aconteceu e pronto! Quero me casar com essa mulher .. Madalena não quis nem debitar ao vinho a estranha atitude de Jesus. Desesperada implorou outra vez - observando que Rebeca se aproximava com um maroto sorriso nos lábios : - Mestre, vamos embora! -Mulher! falou Jesus para que todos ouvissem: - Não és e jamais serás minha esposa. Nada pode me impedir de escolher a mulher com quem me casarei. Ainda ontem acertei tudo com o Sr. Nina e esta festa nada mais é do que a concretização do nosso noivado. Bem aventurados os que amam ! Bem aventurados os que deram origem a esta .. Humilhada diante de tanta gente, Madalena, com espantosa agilidade, sacou e cravou no peito de Jesus o punhal que sempre trazia guardado entre os seios ... No dia seguinte ao daquela festa realizada no distante mês de setembro do ano de 1968, as manchetes dos jornais da Capital estamparam a sangrenta estória do Juiz de Direito Jesus Mestre Valverde assassinado pela Professora Madalena Maria da Silva Borges. Testemunharam o crime, além dos demais convidados, os funcionários do Banco do Brasil Pedro Lins do Nascimento, Tiago de Sousa Ventura e João Coelho Braga, irmãos de Ordem da vítima.
OBS: FICÇÃO João Imbelloni |
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