João Imbelloni                                                                                                04/07/2010

A CRÔNICA DE JUNHO

Dava sono o monótono movimento do automóvel no retorno da viagem ao nordeste paraense, onde permaneci a serviço por quatro longos dias, tendo por companhia o advogado Fabiano Contente e o motorista Josué Teixeira (nomes fictícios), Era a ensolarada tarde do dia 21 deste mês, e o calor vencia a luta contra a refrigeração do moderno carro. O advogado, homem gordo e paramentado com o habitual paletó escuro, apesar do frio ar do interior do veículo, suava bastante. Passando o molhado lenço pela brilhante careca, o solitário passageiro do banco de trás, puxava assunto:

- Vocês sabiam que hoje, em todo o país, celebra-se o Dia dos Acadêmicos de Letras, criado por sugestão do paraense Hilmo Moreira?

Sem obter nenhuma resposta dos cansados companheiros, continuou falando, talvez para si mesmo, quem sabe na tentativa de vencer o grande incômodo que, visivelmente, o atacara nas últimas horas da viagem.

- As academias que conheço, inclusive a que freqüento como membro fundador, são de suma importância para a nossa cultura... E são muito bem dirigidas por competentes líderes que têm o perfil para comandar até mesmo uma nação. Lideranças essas, meus amigos, ausentes em outros setores da sociedade brasileira, principalmente no opaco mundo político. Aliás, permitam-me dizer que a liderança...

Sem ouvir mais as palavras do nobre causídico que soavam cada vez mais longe, pensava eu no que seria a liderança sonhada por tanta gente neste Brasil carente de verdadeiros líderes.

Saindo do torpor da viagem, meus pensamentos tomaram a direção de determinado bairro de Belém.

Lá no Parque Verde, onde reside e mantém um abrigo com mais de cem animais, ela é chamada de “doutora” (mesmo contra a sua vontade) pelo humilde povo que conta com o trabalho da mesma no tratamento de animais doentes, com direito, na maioria das vezes, aos remédios fora do alcance daquela população, grande parte bastante carente, apesar do pomposo nome do bairro, lembrando os condomínios de luxo que nascem nas proximidades.

Enfrentando sérias dificuldades frente ao preconceito, falta de recursos, etc., Maria Joana da Silva Moraes torna o necessário possível na luta empreendida nas quase vinte e quatro horas de labuta, quando, sozinha, cuida do seu abrigo e encontra tempo para atender aos chamados de quantos a procuram para o duro trabalho em prol dos irmãos animais. Humilde diante dos fracos que às vezes a condenam, é independente em pensamento e atividade, na incessante busca de “proteger, tratar e abrigar animais abandonados; conscientizar as pessoas de que os animais merecem respeito, devendo ser bem cuidados e protegidos; colaborar com as autoridades policiais e judiciais em defesa da causa animal; e lutar contra a eutanásia em qualquer espécie viva”. Essas são as principais finalidades do seu trabalho e que constam no projeto do estatuto da organização que está fundando, a Associação dos Voluntários Protetores dos Animais (PROTEGE), que existe de fato há mais de dez anos.

Líder nata, a cabocla bragantina encara os seus erros como aprendizado e indigna-se diante da injustiça cometida contra os inocentes animais que protege e ama. Retribui aos abnegados parceiros que a ajudam e os elogios não a afetam. Afirma sempre que está cumprindo uma especial missão, daí ser magnânima com os vencidos detratores e perseguidores dos animais, em que pese achar que chega de tanta impunidade a incentivar o crime em todos os sentidos. É a favor, entretanto, da concessão da oportunidade aos perdedores que praticaram crimes, excetuando-se, é claro, os hediondos e contra a vida, além da imperdoável corrupção tão maléfica.

Maria Joana trata a todos como iguais, porém os incentiva a lutar contra a indiferença e a comodidade, trocando-as por boas obras, as quais “devolvem ao pecador a dignidade perdida”. Mesmo sendo um exemplo, demonstra que tem consciência de suas limitações, o que não a impede de dizer o que pensa pensando no que diz, não se sentindo, todavia, superior a ninguém.

Questionada, certa vez, por um famoso (no mau sentido) político que tentava aparecer em troca de pretenso apoio à causa animal, a líder, rejeitando a proposta, afirmou que só ambiciona o legítimo, ao contrário do hipócrita interesse pelo voto a qualquer custo. A população do Parque Verde e os colaboradores da grande Belém sabem que a exemplar mulher conduz, não se deixa conduzir.

- Pronto, chefe, chegamos! – era a voz do motorista trazendo-me de volta dos devaneios, com o automóvel estacionado em frente ao portão do terreno que dá acesso à casa do mais novo morador do bairro e minha singela e feliz residência.

Josué, do alto de sua pequena estatura, ostentava um sorriso franco no rosto de um legítimo marajoara, não escondendo a satisfação do dever cumprido.

- Vou deixar, agora, o doutor advogado...

- Muito obrigado, meu amigo! – agradeci com sinceridade.

- De nada, chefe. O senhor permite que eu diga uma coisa a respeito do que o doutor advogado falou sobre liderança?

Antes que eu respondesse, concluiu, sob o admirado olhar do advogado e minha perplexidade:

- Conheço uma mulher do Parque Verde, onde moro, que além da liderança, conforme entendi, espera pela grande viagem, fazendo exclusivamente o bem. Uma obra abençoada na união, no serviço caridoso e no amor... Muito e puro amor!

O automóvel perdeu-se na distância levando, tenho a certeza, um encarnado espírito mais preparado do que um simples advogado e ensinando mais “uma coisa” para o eterno aprendiz, hoje apenas um humilde servidor público. E deste mundo.

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Belém (PA), 30 de junho de 2010,

João Imbelloni

 

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