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João Imbelloni 08/05/2010 |
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MORAL DAS HISTÓRIAS DE MÃE
... ”e com certeza uma mensagem, embora simples assim – finalizava o texto do meu amigo, referente ao Dia das Mães -, funcionará como um remédio para o teu descontentamento com as críticas não construtivas que recebes (respostas às tuas opiniões) de despreparados e desinformados. Peço que atentes para a moral da história que me foi contada por minha saudosa genitora”.
O amigo-irmão, em tudo que escreve ou fala, quase sempre faz questão de citar a “moral da história”. E é um mestre na comunicação. Dessa feita, por exemplo, ele ensinou que “respeitar as opiniões do outro, em qualquer aspecto, é uma das maiores virtudes que um ser humano pode ter. As pessoas são diferentes, agem diferente e pensam diferente. Portanto, nunca julgue. Apenas tente compreender”. Compreensão para tudo o que se passa ao nosso redor?! Grande amigo: tuas palavras sobre este dia e a excepcional mensagem que a mim endereçaste via e-mail, além do efeito da possível cura, levaram-me a recordar das lições aprendidas nos recados anteriores: a crueldade humana nunca desaparecerá e está em toda parte. “Os seres humanos agem como bestas se submetendo à loucura da dor insuportável e do prazer de superioridade”. Centenas de crimes diários, inclusive atingindo sofridas mães, comprovam que é fora de cogitação ler qualquer jornal sem que nos deparemos com os traços mais pavorosos da perversidade humana. Toda história, porém, por mais insignificante ou cabulosa que possa parecer, deixa sempre uma lição, qual o caso que me foi contado pela mulher que me trouxe a este mundo. Narração do tempo da minha distante juventude na cidade de Óbidos.
Maria Tucandeira, guardando-se as devidas proporções, não deixava de ser, no mínimo, adepta da perversidade, principalmente quando, entre tantos pequenos crimes, pesavam contra a mesma a acusação de diversos abortos, contos do paco e furtos variados. A pretensa parteira era completamente solitária, morando num casebre “atrás do cemitério”. Pariu uma única filha que, não a suportando e não sabendo quem era o próprio pai, foi trabalhar como doméstica na capital amazonense. Má ao extremo, Maria tinha como um dos seus prazeres “cuidar” da vida alheia na pequena cidade, e a ferina língua não diferenciava as constantes vítimas que fazia. Na falta de pecados ela os inventava, fazendo da mentira e da calúnia terríveis armas para ferir a reputação de muitos conterrâneos. Certo dia, contudo, após uma noite mal dormida, desabafava com a sua comadre Filomena. Dor de consciência na cabeça de pedra? - Passei a noite do Dia das Mães, imagine a senhora, sentindo uma dor terrível no peito, a modo como se fosse uma mão grandona apertando o meu coração. Uma opressão esquisita. Não é meu costume, mas senti tanta insegurança que chamei pela minha velha... Seria a angústia, comum em mulheres normais? Maria Tucandeira não sendo “normal”, como se achava, jamais sofreria uma manifestação de ansiedade ou medo do futuro. Seria assim? O certo é que aquela rude mulher não poderia saber que “a angústia pode estar associada a causas psicológicas como traumas, complexos e ambiente repressor ou desgastante”. Some-se a isso tudo o negativo modo de viver de Maria, desencadeando, até nela, as sensações da terrível opressão nascida de problemas agudos e desgastantes. Para piorar o quadro, Maria não levava uma vida saudável (odiava a mãe e o mundo, alimentava-se mal, fumava e bebia muito), não tinha bons pensamentos e, exceto a pescaria de subsistência, jamais teve atividades produtivas. Suas emoções, consequentemente, nunca foram sadias.
Noite escura de uma segunda-feira depois do segundo domingo do mês de maio de 1963. Mesmo com a defesa da serra da Escama, Óbidos recebia o impacto do estranho vento que soprava do lado de baixo, chegando a formar marolas no tranqüilo Laguinho. Com o silêncio dos motores da casa de força e luz, por volta das vinte e três horas, a cidade mergulhou, ainda mais, em tenebrosa escuridão. Ao longe, o triste cantar de um violão (quem sabe o Ferrinho reclamando a falta da lua) anunciava uma réstia de esperança, na claridade do dia seguinte, para o bondoso e batalhador povo da Terra Pauxis. Naquela mesma noite a mulher pescava sozinha, próximo à pedra grande. Suas linhas já tinham apanhado alguns peixes lisos quando a canoa se aproximou. Ouvindo o barulho do remo n’água, estrondoso naquele silêncio, a mulher acendeu a lamparina que logo se apagou com a força do vento que aumentara nos últimos minutos. Destemida, escondeu-se atrás da grande pedra e aguardou pelos acontecimentos. Vislumbrou que se tratava, apenas, do seu Lory Veiga, na busca de guarida enquanto durasse a grande tormenta iniciada naquele momento, com relâmpagos, trovões e água. Água para valer. - Não se assuste seu Lory, sou eu, a Maria Tucandeira. - Égua! Pareces uma visagem... – Lory tremia de frio e agora de pavor. - Tem uma pequena puxada aqui ao lado da pedra. Saia da chuva! O homem se abrigou na improvisada cobertura de lona, a qual, se não detinha completamente a chuva, amenizava um pouco o impacto do frio vento, tendo em vista que a grande rocha era um obstáculo natural à ventania. - Vai demorar um pouco para passar – falou a mulher, procurando assunto. O cínico semblante anunciando mais uma pegadinha de mau gosto. - Vai sim! – respondeu o ressabiado pescador. - Como está a dona Helena e os meninos? Assim, assim... Depois de um breve intervalo no difícil diálogo e ao som de trovões, a megera atacou: - O senhor acredita que aqui tem um bicho do rio que come gente? – de supetão o impacto daquela mentira atingiu o objetivo. Apavorado somente com a presença da mulher, o pobre homem, agora, demonstrava terror. E Maria se divertia a valer. - Pois é, meu amigo. Agorinha, antes de o senhor chegar, eu vi o teba. Tem os olhos de fogo, chifres e uma boca bem grande. Dá para engolir uma pessoa inteirinha. Com a escuridão o pescador não via o rosto da mulher que ria e se deliciava com o seu medo, além de, sorrateiramente, empurrar para o rio a embarcação que jazia na areia da praia. - “Me diga” uma coisa, homem, o senhor não vai buscar a sua canoa que o rio está levando? - O quê?! Meu Deus! – ele não teria coragem de entrar nas inquietas e ameaçadoras águas do rio Amazonas, mormente naquele instante. - Eu vou buscar a canoa, mas agora ela é minha com tudo o que tem dentro... Conhecendo a mulher e suas maudades, o medroso deu de ombros e a macabra senhora, iluminada momentaneamente por um relâmpago, atirou-se no rio, pois a canoa se distanciava, rapidamente, levada pela correnteza. Foi a última vez que o velho pescador viu dona Maria Tucandeira. Também jamais esqueceria o espantoso grito da mesma e o sangue que estava na tona d’água, sob a luz de mais um relâmpago, borbulhando com a coloração muito vermelha; tétrica cena logo coberta pela escuridão. Novo relâmpago e nada mais avistou sobre as ondas; nem a canoa que desaparecera, igualmente, num verdadeiro encantamento amazônico.
Restou ao apavorado homem correr, desenfreadamente, na direção das casas da família Hamoy, apanhando depois a íngreme Rua Corrêa Pinto, indo até a Travessa Eloy Simões e dali até a Praça Barão do Rio Branco onde ficava a Delegacia de Polícia. Durante o longo percurso não lançou um único olhar para trás.
- Quer dizer, então, que a própria vítima avistou o bicho que a pode ter devorado. Não seria uma grande piraíba? – falava o Delegado de Polícia sem duvidar da palavra do conceituado e honesto pescador. - Foi o que ela me disse antes de pular no rio. Mas acho que não era piraíba. Pela descrição de dona Maria era um bicho maior. - O que importa é que o caso está solucionado. Ela sumiu, como outros, no grande rio, principalmente no porto de cima. Espero que o pobre do bicho não tenha uma indigestão. Agora, com certeza – o fingido fazia um pré-julgamento – ele terá muito trabalho para digerir a grande língua e os pecados da desaparecida. O senhor sabe assinar? - O meu nome? - Claro! O meu é que não pode ser.
O pescador assinou o depoimento e o caso, dois dias depois, foi praticamente encerrado. As autoridades detestavam Maria Tucandeira para se preocuparem com ela. - Se puder que descanse em paz! – foram as últimas palavras do Juiz de Direito mandando arquivar o “processo”, depois de seguir os rapidíssimos “trâmites legais”. Em Manaus, pouco se importando com o desaparecimento da megera-mor da cidade natal, sua filha Anita Machadão, agora prostituta e “parteira” nas horas vagas, bêbada, pensava alto sobre os “trabalhos” do dia seguinte: - Aqui na capital é mais fácil. Têm muitas freguesas barrigudas, otários de todo tipo e a gente não fica manjada como a mamãe ficou lá em Óbidos. Vôte! Que cidadezinha para se importar com a vida alheia.
Cerca de quarenta e oito horas antes da hipócrita e apressada decisão judicial, no palco do fundo do Amazonas – depois do pavor e agonia iniciais da luta contra a demoníaca força que a levaria para o negro abismo -, Maria Tucandeira não lutava mais. Pouco se importava com a visão de fantasmas e atentava apenas para a imagem da mãe que abandonara, a qual lhe dava imensa força para suportar o pavor da inevitável justiça final. Presa por fortíssimos dentes que a mastigavam, literalmente, conseguiu, num derradeiro esforço contra o remorso, visualizar a possante luz do arrependimento, antes que o momentâneo e apavorante espetáculo chegasse ao fim.
Moral da história...
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Belém (PA), 9 de maio de 2010. João Imbelloni
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