João Imbelloni                                                                                                08/05/2010

A CRÔNICA DE ABRIL

 

No momento em que me preparava para escrever minha mensal cronicazinha, o menino, fitando-me como se fosse eu a derradeira esperança para a resolução do seu problema, solicitou os meus préstimos:

- “Vô! o senhor me ajuda a entender uma coisa?”

Voltei os olhos e a mente para a criatura ávida por respostas e para a qual (ó repetitivo pensamento) não se sabe que futuro herdará desta sociedade “liderada” por um mentecapto/populista e pela imensa parcela de governantes e políticos criminosos travestidos de vermelhos salvadores da pátria. E o que é mais triste, segundo Armando Soares, uma sociedade que “aceita a desigualdade, é indulgente com a corrupção e tem medo da verdade”. Por outro lado, soa como um brado de otimista expectativa, as palavras do jornalista Montezuma Cruz, quando da posse do jovem paraense na Presidência da OAB nacional: “o Brasil todo comemora de certa forma, a fala e a ousadia de Ophir Cavalcante Júnior, tido já como uma espécie de remédio ou antídoto contra a bandalheira interminável da malversação do dinheiro público e o enterro da moral e da ética entre políticos brasileiros”.

Pela inocente interferência de um menino (-“Vô! vais me ajudar, ou não?”), desviei os pensamentos dos problemas brasileiros e esqueci o artigo que falaria de famigeradas personalidades, dedicando toda a minha atenção para a querida criança.

Tenho por costume não entregar na bandeja as explicações sobre os assuntos que me são trazidos pelos netos e pequenos (no tamanho físico) parentes, a respeito da ajuda na elaboração de seus trabalhos escolares. Consultado, sempre procuro contar-lhes uma pequena história, escrita, para que os mesmos pesquisem e tirem as próprias conclusões. O aprendizado, assim, fica mais interessante e, além da fixação, ocorre o exercício da leitura que, por si só, conduz os pequenos (e futuros) leitores às viagens pelas matérias abordadas, aos sonhos e ao sadio hábito da consulta aos mestres dos mestres que são os livros (informam e transformam) e quaisquer outras fontes do sadio ensinamento pela leitura.

Às vezes com muito trabalho, sempre correspondo às expectativas dos interessados consulentes. Até o momento que originou este artigozinho. A inteligente criança da vez desejava “tirar as dúvidas sobre as Figuras Planas”, com destaque para o cálculo das áreas das complicadas personagens. Como a Matemática – exceto a financeira, por dever de ofício – nunca foi o meu forte, fiquei um pouco perturbado, mas não poderia decepcionar o menino, deixando-o sem a história de praxe, como o fizera em passadas oportunidades. O que fazer para atendê-lo?

Depois de muito matutar (e o garoto esperando), lembrei-me que tinha um “doido” na família que já amava a Matemática desde pequeno: o meu filho Fabrizio, hoje engenheiro...

Para minha felicidade, o também professor de Matemática e Física, igualmente caminhava (e caminha), tranquilamente, pelos belos campos dos poemas, contos, crônicas...

Corri para os meus “guardados” e não demorei muito a encontrar, amarelada pelo tempo, uma folha de papel na qual estava um trabalho do então jovem estudante. É uma história que veio a calhar para ser utilizada pelo sobrinho do autor, na busca do saber com a ajuda de uma leitura para lá de interessante:

 

TRAGÉDIA NO MUNDO DAS FIGURAS PLANAS

Fabrizio Israel Imbelloni

 

Naquela manhã o Retângulo acordou arretado da vida. Estava realmente insatisfeito. Não entendia o porquê de Deus lhe ter dado geometria tão feia. Decidiu que era a mais infeliz das figuras. E se dispôs a provar isso. Precisava mostrar a todos o coitadinho que ele era. Bufando de raiva foi ter com o Triângulo. Chegando à casa do amigo triangular foi logo disparando:

- E aí, caro Triângulo? feliz da vida, hem?

Ao que o Triângulo respondeu, com cara de poucos amigos:

- Feliz uma ova! dá só uma olhadela para mim. Enquanto a sua área é base x altura, a minha é base x altura : 2. Sabe o que isso quer dizer? Que eu sou a metade de você, e, portanto, duas vezes mais infeliz.

É claro que o Retângulo não acreditou no charminho do Triângulo.

Procurou, então, o Trapézio. Afinal, com tanta pompa na sua geometria, certamente deveria ser aquele muito infeliz. Aproximando-se o Retângulo do colega trapezóide, notou naquele um certo olhar de descontentamento. E perguntou-lhe:

- Por que esse olhar de tristeza, Trapézio? não vê você que eu sou a mais desgraçada  das figuras e que somente eu tenho direito de ficar assim? quer fazer o favor de parar com essa dissimulação?

O Trapézio, com a calma de sempre, olhou o Retângulo desde a base, deu um sorriso irônico e disparou:

- Vê se não enche o saco! já reparou direitinho em mim? não apenas tenho duas bases que me confundem, como ainda sou meio tortinho. Minha área é dada pela soma das bases, multiplicada por minha altura e depois de tudo isso ainda é dividida por dois. Dá para entender? Após esse breve contato o Retângulo estava que não se continha. Enciumado por outros quererem possuir dor tão grande quanto a sua, lembrou-se do Losango. Aquele sim, não tinha motivos para tantas frescuras, como a de seus colegas.

Indo rapidamente ao encontro de seu companheiro Losango, encontrou-o numa sala de psiquiatria. Então lhe perguntou:

- Caro Losango, o que você faz aqui?

O Losango foi rápido na resposta:

- É que entrei numa profunda depressão. Como você sabe, minha área é dada pelo produto de minhas duas diagonais, dividido por dois.

- E daí? – retrucou o Retângulo meio desconfiado.

Com lágrimas nos olhos o Losango respondeu:

- É que até hoje não consegui descobrir qual das duas é a mais importante. E isso não me tem deixado viver em paz.

Indignado com tanto sentimentalismo barato, certamente fruto de muitos exercícios em livros de quinta categoria, o Retângulo deu as costas ao amigo e se retirou sem demonstrar qualquer piedade. Sua última esperança era o Quadrado. Afinal, desde pequeno o jovem quadradino da silva era admirado por todos. Bastava aparecer num exercício que logo comentavam a homogeneidade e perfeição de sua arquitetura. Finalmente poderia encontrar uma figura cuja felicidade lhe permitiria sentir-se inferior aos olhos dos matemáticos. Finalmente iria constatar, pela felicidade de outrem, a grandeza de sua infelicidade. Talvez até ganhasse o Nobel da amargura.

Após uma viagem de quase duzentas páginas finalmente encontrou o nobre quadradino num exercício antigo de geometria plana. Olhou então para o amigo quadrado de cabo a rabo.

- Oi, amigo quadradino da silva. Você não imagina a minha felicidade em vê-lo. Assim posso ficar bastante triste ao me comparar com você, e também me deprimir ao máximo sem qualquer remorso. Ah! que felicidade. Quanta tristeza! Aliás, tudo junto. É uma maravilha! uma porcaria!

Sem entender muito o Quadrado replicou:

- É certo que minhas formas são perfeitas, uma vez que todos os meus lados são iguais. O que deixa minha área igual a lado elevado a dois. No entanto, basta eu aparecer na rua, na praia, na piscina ou mesmo num simples caderno de primário, que todos comentam: “lá vai o quadrado”, ou então, “é mesmo um quadrado”. Sabe o quê? Quadrado é a mãe! Eu sou é moderno, prafrentex.

O Retângulo ficou de queixo, digo, de lado caído. Como poderia até o Quadrado querer ter uma desesperança maior do que a sua? Que despeito! Desistiu da sua busca e resolveu caminhar de volta para casa. No meio do caminho encontrou a Circunferência, também chamada de Círculo. Chegou a sentir uma certa pena daquela figura tão simples. Apenas uma rodinha no meio do nada. Tão vulgar. Tão sem jeito. Ela realmente tinha motivos para não gostar de seu formato. Não tinha base, não tinha lados definidos e sequer altura. Coitada dela. Uma pobreza de dar dó. Resolveu puxar um papinho, na tentativa de dar um pouco de alento à amiga.

- Como vai essa tristeza, cara Circunferência? soube que você não tem sido muito procurada para participar de concursos e exercícios. É verdade? coitada de você. Se quiser posso lhe indicar o endereço de um ótimo psiquiatra que uma de nossas figuras amigas anda freqüentando. Acho que ele não pode dar jeito na sua feiúra, mas quem sabe...

A “coitada” da Circunferência deu uma risada estridente. Girou sobre si mesma, rodou para frente e para trás, deu piruetas e tudo o mais. Queria mostrar ao amigo Retângulo que estava feliz de verdade.

- Que grande asneira você está dizendo, caro Retângulo. Perdeu o juízo? ou será que você não sabe que eu sou a única das figuras que possui traços gregos na fórmula da área? É o tal do Pi que vale 3,14... Chique, não? Os matemáticos vivem ensinando isso! e mais. Basta eles olharem para mim que se lembram do próprio Planeta, redondinho, cheio de vida. Eles me adoram e eu me adoro por isso. Bom! mas já tenho de ir rolando, pois estou atrasada para uma festa em minha homenagem. Parece que descobriram algo mais a meu respeito.

Depois dessa conversa o Retângulo entrou em parafuso. Não entendia mais nada. Nada mesmo. E resolveu dar um tempo...

Alguns meses depois foi encontrado morto. Resultado do legista: morte por asfixia. O coitado fora encontrado entalado na boca de uma garrafa de refrigerante, quando tentava arredondar suas formas.

 

Depois que o menino se retirou levando a pequena história para pesquisar, a realidade (com tristeza o digo) voltou a mostrar-me que se iniciará o mês de maio com o recrudescimento do “necessário aumento dos juros”... e da continuidade das histórias como a de Brasília, cuja plantinha já está solta e muito rica.

 

.x.x.x.x..x.

 

 

Belém (PA), 30 de abril de 2010.

João Imbelloni

 

 

 

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