João Imbelloni                                                                                                26/01/2012

VIAGEM DE MÃE

Com aproximadamente oito anos, muitos filhos, do alto de sua envergadura de mais de um metro, Vitorina, nesta manhã de domingo, observa, lá embaixo, o Ver-O-Peso de pouco movimento. Concentrada no voo alto, em círculos, utilizando as correntes de ar quente, pensa no quanto é bom não ser humana e ser mãe de árbitro de futebol, político, governante, magistrado, policial, advogado, bandido, corrupto...

A fêmea de urubu sente saudade da finada mãe e de sua terra, a farta Ilha do Marajó, há muito trocada pela difícil luta de procurar alimento na grande feira, quase sempre carne em estado de putrefação; um trabalho de suma importância para o equilíbrio ecológico, pois evita, entre outros benefícios, a disseminação de doenças. Apesar de tudo é uma ave (e mãe) feliz.

Do outro lado da cidade, na Marambaia, na voluntária quase prisão domiciliar dos últimos meses, quando sai de casa somente para o indispensável, dona Virgília, longe dos criados filhos, deixa o pensamento, apenas ele, gozar da liberdade de ir ao encontro do que desejar, neste mundo de tristes realidades, porém repleto de belas recordações e muitas saudades. Responde aos que lhe perguntam (por que a aparente reclusão?) que nada tem a fazer lá fora, “exceto o necessário”. Não deseja enfrentar, “à toa”, esta Belém hostil, onde os malfeitores estão à vontade e as pessoas de bem, normalmente, permanecem atrás das grades de suas casas, sem poder evitar, lembram as manchetes, que as mesmas sejam invadidas. A preocupada mãe sabe: em qualquer lugar da capital paraense não está a salvo de bandidos, principalmente de “menores” protegidos por hipócrita lei que a maioria dos políticos (também bandida?) não faz questão de mudar.

Com medo e frustrada vê o seu andarilho pensamento dirigir-se para as bandas do rio Amazonas, para a parte mais estreita e profunda do gigante, para a aprazível Mãe Pauxis, oxalá a derradeira esperança de segurança e paz. Recorda dos dois filhos que por lá ficaram, possivelmente sacrificando o salto maior nos estudos, e oportunidades outras que o torrão natal não pode, ainda, oferecer. Mesmo assim, realizados, somarão esforços com o outro filho que retornará, brevemente, após a formatura em medicina, presenteando Óbidos com mais uma força que se juntará a tantas e, cujas belas obras, continuarão impulsionando o progresso, mas, pensa a orgulhosa mãe, sobretudo a diferenciada vida de segurança e tranquilidade paradisíaca no Município.

O devaneio leva dona Virgília a lembrar com respeito e admiração, igualmente, dos filhos da Mãe Pauxis que moram, estudam e trabalham em outras plagas, os quais, às dezenas, como prova de amor, não medem sacrifícios para visitar, constantemente, a inesquecível cidade natal, principalmente na Festa da Padroeira, no Carnapauxis e no Dia das Mães, dentre outros felizes momentos. Quanta “inveja” – balbucia a cabocla - de tamanhas homenagens ao Torrão, contudo, sente-se gratificada ao constatar na Folha de Óbidos, no Portal de Óbidos e no Chupaosso, a alegria desses conterrâneos a contagiar todos os demais obidenses que se encontram distantes, mitigando as saudades através dos citados veículos ou de outras fontes de comunicação. Vale destacar o tradicional “boca-a-boca” dos prazerosos encontros, casuais ou não, quer no território nacional, quer em qualquer parte do mundo... Alguém duvida?

Mulher culta, a mãe de seis filhos ensina que os obidenses são descendentes de índios, caboclos, brasileiros de vários estados, estrangeiros, enfim, de todas as raças e cores, formando um povo inteligente, trabalhador, solidário, gentil, bom, acolhedor e, acima de tudo, na esmagadora maioria, probo e empenhado na luta por um mundo mais fraterno e feliz.

Com essa convicção, a aposentada retornará, depois de muitos anos, à pequena coletividade, fugindo do caos urbano de uma grande cidade, completamente inóspita para quem conheceu o sossego da terra natal no distante tempo de criança e juventude.

Lá estará livre, acredita, das terríveis diárias notícias de assassinatos, prostituição infantil, pedofilia, violência...

Vitorina pousa ao lado do amigo Nicolau, sobre o telhado do casario que circunda o Ver-O-Peso. Filho da Mãe Pauxis, o velho urubu mostra-se preocupado.

- Em que está pensando o amigo? – puxa assunto a marajoara. – Saudade da falecida mãe?

- Antes fosse. Minha mãe está muito bem e a preocupação é outra: na minha terra natal, outrora tão pacífica, infelizmente, quem sabe pela proximidade de Manaus e Santarém, ou pela privilegiada situação geográfica, ou quaisquer outros motivos que fogem à visão de uma simples ave, faz parte, hoje em dia, dos planos de traficantes. Temo que seja o início do fim da mais salutar segurança...

- Calma meu amigo. Sabemos que com o apoio dos policiais militares da Força Nacional, a Polícia Federal reiniciou em Óbidos a continuação da segunda etapa da Operação Sentinela, suspensa “por falta de recursos financeiros”. Combaterão o contrabando e o tráfico de drogas, trabalhando na prevenção e combate ao tráfico doméstico...

- Doméstico? Quem diria. Isso é a base de outros crimes que começaram a surgir por lá, daí a minha tristeza. Pobres famílias obidenses...

- O maior problema é a injustificável “contenção de despesas” do novo governo, que paralisou as ações no local por um longo período, no qual ficou à vontade um infinito número de embarcações a passar pela garganta... Tomara que o reinício dos trabalhos minimize o estrago.

- Sei dessa história toda, e de outras, fazendo com que procuremos uma resposta para a pergunta que não quer calar: Óbidos mudou para pior, no que diz respeito à segurança, paz e tranquilidade de antigamente?

- Não sei meu amigo. Não sei...

- Que então o Deus Único de todos nós proteja a Mãe Pauxis.

Os urubus partem em busca do almoço, desconhecendo o que acontecerá com o sonho de dona Virgília.

O porto seguro acabou? Ela terá pela frente as revoltas águas das quais está fugindo?

Domingo à noite na Cidade Presépio. Depois de homenageada e orar à Santana, uma compenetrada mãe, autoridade municipal, volta o pensamento para a importante reunião em que tomará parte no dia seguinte, exclamando, com os olhos voltados para os documentos em suas mãos:

- Égua! Não bastassem os graves problemas na Educação, Saúde, Infraestrutura...

Agora esse Pesadelo?!

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Ano de 1961. O adolescente (quinze anos incompletos) obidense, aluno interno da Escola Técnica de Manaus, presta sentida homenagem à mãe distante, com uma singela “musiquinha”, cuja letra é a seguinte (transcrita fielmente):

Não há nada neste mundo

Que seja mais profundo

Do que o amor de uma mãe.

Além de tudo, nesta vida,

Amo a ti, ó mãe querida,

Desde o berço até morrer.

Peço a Deus Onipotente

Que contigo seja clemente

E nunca te faças sofrer.

Porque és nesta vida,

A luz que guia os meus passos,

Consola-me nos fracassos

E para o bem me conduz.

Quando um dia tu partires

Para junto do Senhor,

O teu nome imaculado

Ficará sempre ao meu lado

Como símbolo de amor.

 

            João Imbelloni

 

 

 

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