João Imbelloni                                                                                                31/03/2010

 

A CRÔNICA DE MARÇO

 

 

            Na manhã do domingo de 28 de março, por volta das onze horas adentrei na casa do meu colega de trabalho Paulo Vítor, o qual, contentíssimo, aguardava os convidados para o almoço de confraternização alusivo a... não sei o quê.

           

            Tudo começou com preliminares tragos de vários tipos de bebidas e gozações recíprocas entre torcedores do Remo e Paysandu, o que tomou a grande parte dos assuntos. O futebol, assim, predominou, pois ao lado de esposas e filhos, assuntos outros, principalmente sobre mulher, tacitamente ficaram vedados nos machistas diálogos.

 

            Torcedor do Mariano, Tuna, Vasco e hoje abstêmio, não fui muito bem acolhido nos papos futebolísticos dos – cada vez mais – eufóricos comensais. Porém, nada tinha a reclamar, já que eram abundantes a comida e gelados copos de água mineral. O diabo era o sono advindo da barriga repleta de churrasco.

 

            - Me diz uma coisa, João. Como escolhes os assuntos dos teus artigos publicados no Portal de Óbidos? – indagava a claudicante voz do dono da casa, tirando-me do torpor.

 

            Todos os homens – a maioria estava falando ao mesmo tempo – resolveram dar uma trégua no que achavam que era conversa e voltaram a atenção para o sonolento e único bebedor de água. Falando muito sério rompi o silêncio e tentei dizer alguma coisa, apanhado que fora pela surpresa da curiosidade do Paulo Vítor.

 

            - Toda vez que atravesso o Portal para tentar o diálogo com os meus poucos leitores, muitas das vezes nem sei o assunto que abordarei, posto que são muitos a nascer com o forte desejo de serem conhecidos e sentirem-se úteis na enorme luta contra a falta de vontade de ler da grande maioria das pessoas, que jamais chegarão ao futuro apregoado pelos governantes, sem o passado e presente de uma boa educação. E a leitura é primordial nesse contexto...

 

            - Viva!

 

            A não ser pela isolada manifestação alcoólica do Venâncio Teixeira, pretenso político do bairro, todos, homens e mulheres, mesmo os mais “pesados”, interessaram-se, aparentemente, pelo novo assunto do festivo dia. Tanto que o doutor Afrânio Peixoto completou:

 

            - Causa profunda tristeza ler, ver e ouvir “obras” de artistas e figurões da mídia que “não estão nem aí” para a nosa Língua, cometendo crassos erros e contando com a passividade de um público que, por sua vez, “adora” os programas conduzidos por apresentadores comprometidos com a audiência a qualquer custo. Alí, no meio de outras mediocridades, são apresentadas letras e músicas de composições que nada dizem, comprovando-se que milhões de satisfeitos telespectadores são “burros modernos”. Que se dane a “minoria” que não dá “ibope”.

 

            Breve silêncio, interrompido pela professora Joana Corrêa:

 

            - Preocupa a todos nós, mestres, que seguindo a insensata tendência mundial, milhões de brasileiros, igualmente, acreditam que a internet é infalível. Nos primeiros momentos do aprendizado de informática os professores (poucos, é verdade) ensinam que o computador aceita tudo o que nele se introduz (dados), inclusive insanidades e burrices de toda sorte.

 

            - Lamentavelmente – o quase sempre calado médico Armando Cunha manifestava-se com os vermelhos olhos fixados no copo vazio – a maioria dos jovens de hoje adaptaram-se, por conveniência da lei do menor esforço, ao estranho “falar das comunicações virtuais”, levando os muitos erros para a prática da vida real, quando muitos deles, infelizmente, tornam-se fontes de hilárias histórias, haja vista os brilhantes desempenhos humorísticos nas redações ainda exigidas em alguns vestibulares, redações essas que, aceleradamente, estão sendo abolidas dos concursos. Prefere-se a marca de um “x” de adivinhação nos objetivos quesitos de provas que aceitam as despreparadas cotas. Mesmo assim, quantas vezes ouvi comentários de candidatos a respeito de seus desempenhos nos conclaves de hoje em dia: - “Muleque! Chutei quase todas”.

 

            - Juntando-se a tudo isso que dissemos – retomou a palavra a professora Joana Corrêa –  a grande parte dos jovens brasileiros desconhece, também e principalmente, que estão abraçados pela sofrível educação da atualidade. Não adianta as autoridades seguirem o modismo e mandarem colocar apenas computadores nas escolas. Além desses necessários instrumentos de ensino, urge a necessidade de mais conteúdo, a ser obtido por meio de professores competentes, treinados e, sobretudo, remunerados adequadamente e de acordo com o preparo exigido para a difícil tarefa; se não, qual o futuro da educação neste País, hoje tão vermelho de vergonha?

 

            Aproveitando o intervalo tentei desabafar:

 

            - Muitos me esculhambam e dizem que vivo falando mal do Presidente, sem qualquer razão, ...

 

            - O trabalho do Homem é aprovado pela esmagadora maioria dos brasileiros – interrompeu-me o barbudo Lourenço Simas.

 

            - ... porém, os meus modestos escritos referentes ao Cara estão longe da minha particular antipatia e repulsa ao “trabalho” do mesmo. São artigos atinentes apenas ao que está contido, diariamente, na ameaçada grande imprensa, assuntos com os quais aprendo e tomo como base para chamar a atenção dos meus possíveis leitores, embora de maneira sucinta.   

                       

            - Agora concordo contigo – o dono da casa não estava cochilando. – Só quem não se informa desconhece o caos instalado na educação brasileira. Salta aos olhos de quem enxerga: “a educação continua sendo um dos setores do governo que melhor ilustra as contradições do presidente Lula”. Ele se apresenta e diz nos palanques eleitorais dos quais nunca desceu, que é o presidente “que mais destinou recursos à educação”. No entanto, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), órgão do governo, deu a conhecer um estudo mostrando o oposto do que o Cara proclama.O estudo critica, também, as fracas iniciativas do Ministério da Educação, cobrando do mesmo “um choque de investimentos públicos”, prestando a imprescindível assistência técnica à rede de ensino dos municípios mais pobres do País, justamente os que mais necessitam de ajuda...

 

            - Porra! Cadê o silêncio...

 

            - Cala-te papudinho! – Paulo Vítor repreendeu o Zeca Maia que acordara sem entender o que estava acontecendo.

 

            - Reconheço que aqui não é o lugar para falar mais do extenso relatório que está à disposição de quem quiser se aprofundar no assunto – resignou-se Paulo Vítor. – Contudo, foi muito interessante citar para vocês o oportuno fruto do próprio órgão do governo, dando “a dimensão da distância entre as promessas e autolouvações que Lula costuma fazer em seus discursos e a incapacidade de seu governo vencer a corrida educacional para formar o capital humano de que o Brasil precisa”.

 

            Olhando para os que conseguiam ouvir e entender o seu discurso, fixou os olhos no indagador olhar de Lourenço Simas, o qual, cofiando a branca barba, falou desafiador:

 

            - A educação básica é de responsabilidade dos estados e municípios.

 

            Levantando-se, dando sinal de cansaço através de um bocejo que anunciava o final do encontro, o dono da casa falou com muita calma, como se respondesse para si mesmo.

 

            - Sim! Mas o Ministério da Educação deveria ter um papel mais ativo na coordenação, controle e fiscalização desse nível de ensino, condição básica para aumentar a eficiência das políticas sociais, diante de complexas escolhas sobre investimentos, custos e benefícios. Eu disse políticas sociais; jamais a politicagem eivada de corrupção e negociatas mil que foram institucionalizadas.

 

            Ninguém falou mais. Paulo Vítor, abraçado à esposa, dirigiu-se para a parte superior da casa. Mulheres acordavam os assustados maridos que roncavam nas poltronas, naquele começar de noite. Iniciou-se, paulatinamente, a grande debandada. A maioria, que aguentou os comes e bebes sem apelar para o exagero, poderiam assistir ao Fantástico, BBB, Silvio Santos, Gugu ou os demais programas da noite de domingo.

 

            Saí em direção à toca, P da vida, visto que não haveria transmissões de quaisquer partidas de futebol. Seria uma noite bastante quente, em que pese a torrencial chuva da tarde. Ah! Já sei. Vou pegar as anotações que fiz e tentarei escrever uma cronicazinha sobre o proveitoso – pelo menos para mim – encontro.

 

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            Belém (PA), manhã de 29/03/2010.

            João Imbelloni

 

 

 

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