João Imbelloni                                                                                                17/02/2010

RETALHINHO: C i n z a s (II)

N


o país das maravilhas a grande festa popular chegou ao final (folia que continuará em eventos afins ensinando “aproveitar o presente e esquecer o amanhã”). Paradoxalmente, espraiam-se cinzas pela nação, de maneira a esconder – quem sabe? – tantas coisas tristes, entre as quais os habituais excessos de determinados economistas do governo, cujas previsões carnavalescas indicam um crescimento de até 6% da economia neste ano, visualizando eles, também, sinais de superaquecimento, identificados, segundo os mesmos, pelo Banco Central. Podemos acreditar nos devaneios depois do carnaval, quando muitos acreditam que aquele país, de fato, “começa a funcionar”?

 

Bom mesmo seria que virassem cinzas, naquele país, os crimes contra o meio ambiente; a crescente violência; a atropelada ética; a corrupção generalizada (até quando o plantinha e asseclas ficarão presos? Já se esqueceram do Ali Barbudo e os quarenta ladrões, digo, mensaleiros impunes e mandando naquela pátria quase vermelha?); os desmandos; os gastos excessivos do governo que limitam o corte dos juros e o legítimo crescimento; o próximo retorno da elevação da taxa básica de juros (março/abril); as desmedidas contratações de servidores públicos (principalmente de comissionados); os programas sociais do jeito que vêm sendo realizados; o ralo do desvio de dinheiro público (detectado, uma vez mais, pelo tribunal de contas daquele país, mas, motivo de galhofa da maioria do legislativo que se submete aos caprichos do grande Ali Barbudo), e a inércia daquele estado.

 

Alguém poderá questionar o que escrevo neste pós-carnaval sobre os gastos públicos, como os realizados na área de pessoal. É importante saber, para melhor juízo, que a jornalista Regina Alvarez, baseada em dados oficiais daquela nação, informa: “na Presidência da República, por exemplo, o número de funcionários mais que dobrou. Eram 3.147 em 2002 e agora somam 7.906, aumento de 190%. Também houve reforço substancial na área jurídica, com o contingente de funcionários da AGU passando de 1.683 para 8.939. Por outro lado (peço especial atenção ao escrito da jornalista), áreas chaves (negritei) para um estado que pretende ser forte e presente junto ao cidadão permanecem, praticamente, com o mesmo contingente”. Vejamos: a Saúde tinha 103.634 funcionários em 2002 e, com a população aumentada, agora tem 104.160; a Previdência teve o quadro reduzido de 39.523 para 39.270; o quadro da Ciência e Tecnologia encolheu de 7.051 para 6.950; na Infraestrutura, em sete anos, o contingente passou de 4.882 para 5.718 servidores; na Educação (base de tudo) houve um crescimento de apenas 19,2 % (31.736 contratações), porém quase a metade das vagas ocupadas por pessoal administrativo. O professor doutor Nelson Marconi (FGU-SP e PUC-SP), especialista em administração pública, destaca que “há uma distorção na distribuição desses cargos na Educação, mesmo reconhecendo que houve grande expressão nessa área (criação de universidades e escolas técnicas que patinam, infelizmente, na tentativa de entrar em plena operação. Cadê o apoio necessário?). A contratação de servidores administrativos equivalente ao número de professores é uma distorção grande e pode estar atendendo a demandas menos técnicas”. Como alerta final, diz o doutor professor: “Estado atuante não precisa ser inchado”.

 

No momento em que o Bloco dos Alhos sobe as ladeiras obidenses embalado pela alegria e cantando a cultura pauxis, o Bloco do Manteiga, do distante país a que estou me referindo neste artigozinho, desce as ladeiras da hipocrisia embalado pela sordidez e cantando as promessas de “um controle dos gastos, objetivando um superávit  primário de 3,3% do PIB neste ano (acrescento: de eleições e copa do mundo), com o intuito de conter o superaquecimento e ao mesmo tempo evitar as grandes altas dos juros”. Entendeu? – perguntei ao homem do povo Zeca Maia, meu vizinho.

 

- Eu... O quê?!

 

No desfile do carnaval do eterno futuroso país ganhou disparado o Bloco dos Puritanos Transviados e, novamente, transformaram-se em cinzas os engavetados e velhos projetos em benefício do povo (Repete-se: Saúde, Educação, Segurança, Transporte e Infraestrutura). Depois do carnaval veio a cinzenta notícia (que novidade!): “este é um ano de eleições”, quando o governo federal do país das maravilhas gastará ainda mais e como quiser, “se lixando” para os tribunais. Como o país em questão é considerado por muitos um dos maiores do mundo, cito a internacional revista The Economist, a qual afirma que os gastos mal feitos, da festiva nação, “vem aumentando a uma média de 8% em termos reais desde 2003 e que o Orçamento deste ano prevê um aumento de 15%”.

 

O aumento de gastos poderia não ser tão ruim, se os suficientes recursos, definidos em lei, fossem aplicados corretamente – educação à frente -, com o Ali pensando nas futuras gerações ao invés do “neste momento” de eleições.

 

Como por aqui tudo é diferente, nada custa lembrar das palavras do meu outro vizinho, o gozador doutor Neves, aproveitando-as para terminar este retalhinho de considerações:

 

- Ò país das maravilhas! Tens muito a aprender com o Brasil, Bolívia, Cuba, Venezuela...

 

x.x.x.x.x.x.x.x.

 

 

“Por que só ele? Outros 10 mil tinham que estar aqui. Os porões

do PT são piores que os da ditadura”.

Anita Grossi (impedida de visitar o governador afastado do DF, preso pela PF).

 

 

Belém (PA), quarta-feira de cinzas, 17/02/2010.

João Imbelloni

 

 

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