João Imbelloni                                                                             07/07/2007

Retalhos (VII):  A SINA

Nas minhas andanças de fim de semana pelos arredores de Belém, precisamente na feira do Cordeiro de Farias tentando comprar peixe-pedra para o almoço de sábado, pensei ter reconhecido aquele homem branco, ruivo e forte, aparentando seus quarenta e tantos anos e que vendia o melhor peixe daquele local, segundo informações de amigos.

Certificando-me da qualidade do pescado, como bom “caboco” da beira do rio Amazonas, indaguei ao vendedor:
                - O preço?
                - Quatro reais o quilo. Chegou dagorinha e está fresquinho...
                - Vou levar três quilos, porém vou escolher o produto.

Com o peixe-pedra guardado na sacola, na hora do pagamento, tive a certeza de que conhecia o homem e de onde o conhecia.
                - Tu não és o Zé Alagoano?
               - Oxente homem! Já tinha reconhecido o Senhor; o diabo é que fiquei com vergonha de perguntar, num sabe?
               - Rapaz! Como vieste parar aqui? Se não me engano tinhas um belo sítio na Transamazônica, não muito distante de Altamira.
                - Sim! Eu tinha ... O Senhor até financiou um projetinho pra mim pelo banco, não se lembra?
               Lembrava-me, agora, muito bem. A Chácara Cascavel era um lote de mais ou menos cinqüenta hectares; muito bem cuidada produzia  leite, queijo, cacau, além do rendoso cultivo de plantas sazonais como feijão, arroz e milho. Não conseguia entender como aquele brilhante produtor rural era hoje um peixeiro numa feira suburbana de Belém.
                 - Com a ajuda do banco – continuou a falar o Zé Alagoano – consegui formar um pequeno e ótimo pasto pra mode criar umas vaquinhas e produzir leite. O Senhor me ajudou muito, num sabe?

Notei, então, que uma mulher mais jovem do que o peixeiro, olhava-me fixamente. Cara de tapuia, longos cabelos negros que alcançavam a bonita região glútea, pernas e corpo perfeitos e aqueles lindíssimos dentes mostrados por um sorriso tão sonso.

- O Senhor não é filho do Seu Charles?
                Estupefato voltei-me para a cabocla:
                - Sou o filho mais velho dele. – falei sem desviar o olhar.
                - Eu era gitinha mas ainda me lembro do conhecido João Cabeça. Lá em Óbidos o Senhor sempre visitava o meu pai. Sou a Ana Maria, única filha do Antonio Sapucaia.
                Antonio Sapucaia. Meu antigo conselheiro e técnico nos assuntos concernentes a futebol.
                - Como está ele? Perguntei com sinceridade.
                - Continua com a mesma vidinha e é muito feliz curtindo a velhice lá na nossa Cidade.
                Velhice feliz. Como bem diz os nossos caboclos: Será?

Observando, surpreso, o acontecimento inusitado, Zé Alagoano – reclamado para atender os muitos fregueses – convidou-me, com a alegre aquiescência da Ana Maria, para um almoço no domingo, na residência do casal localizada no mesmo bairro.
               - Não se esqueça, homem. Tenho muita coisa para lhe contar, num sabe?
              É. Fiquei curioso, pois a mulher que conheci na Transamazônica, na companhia do Zé, não era a minha conterrânea. Era uma nordestina também muito bonita, para a qual não se podia deixar de olhar com maus pensamentos. Maus?

No domingo, por volta das nove horas, fui recebido pelo casal de novos amigos. A casa – cujo endereço deu-me grande trabalho para encontrar com o auxílio de um simples rabisco num guardanapo de papel – era de madeira, todavia bastante segura e espaçosa; um quintal dos sonhos de qualquer belenense que mora em “apertamentos” no centro da Cidade. Das várias árvores frutíferas, uma mangueira foi escolhida para abrigar em sua sombra, uma mesa redonda e três cadeiras confortáveis, nas quais nos sentamos. Presentes o casal, eu e uma velha senhora, incumbida de cozer, fritar, assar e servir-nos os peixes de primeira grandeza.
               - Patrão, fique à vontade. Desde ontem, a mulher e eu só falamos neste encontro. Espero que o Senhor goste da nossa companhia para passar um domingo diferente, num sabe?

              Depois do consumo de muitas cervejas e boa quantidade de peixes, Zé Alagoano, embora constrangido pela presença de Ana Maria, resolveu, finalmente, contar-me a sua estória:
               - O Senhor se lembra da Márcia? Tinha prometido nunca mais falar disso mas para o amigo não vou esconder nada, num sabe?
               - Acho que podes desabafar comigo. Somos antigos companheiros de estrada (o que não faz o efeito do álcool na cabeça).
               - Pois bem! Para encurtar a conversa que não gosto, um dia ela fugiu para o Paraná mais o Doutor Cisso, aquele engenheiro filho da peste que sempre era tão bem acolhido na nossa casa. O amigo se lembra dele, não é?
                Lembrava-me, sim, do debochado e mau-caráter Cícero Ferreira, engenheiro agrônomo funcionário de um banco.

                - A leprenta foi embora depois de sacar todo o nosso dinheiro. Como o Senhor sabe, ela tomava conta de tudo. Deixou só as dívidas; levou até o meu relógio, minhas jóias e as minhas melhores roupas, quem sabe para o macho dela usar...
                - E a fazendinha? Perguntei, sentindo as mãos da minha conterrânea alisando as minhas pernas, talvez num gesto nervoso ao ouvir o “causo” do Zé.
                - Vendi à vista para o Fernando Torres, pela metade do preço de mercado; paguei minhas dívidas e cai fora. Homem, não agüentava mais os olhares de pena dos vizinhos e amigos. Em Altamira, onde também muita gente já conhecia o ocorrido, peguei um ônibus para esta Capital. Quase vou parar na sarjeta com a ajuda da bebida, mas, para minha sorte, um dia bati no bar da Ana Maria; contei-lhe tudo o que aconteceu, namoramos, juntamos os capitais e aqui estamos. Só mudamos o ramo de bar para peixaria; não era bom ver tantos machos bêbados cercando a Ana...

No embalo do assunto e das cervejas, o peixeiro confessou:

- Pior meu patrão, que parece sina. Fui chifrado pelas duas primeiras mulheres que tive lá nas Alagoas. Vim embora – com pouco dinheiro mas em busca de nova vida – por pura vergonha, num sabe? A Márcia, com quem me casei na Igreja, fez o que fez ... Ainda bem que encontrei a Ana Maria; não é por estar na sua presença que é da Terra dela, mas mulher de vergonha taí! Trabalhadeira, sócia honesta nos negócios e esposa de papel passado, pois casei com ela no cartório. O destino, finalmente, ficou meu amigo; deixei de ser corno ...

Beijando a testa da mulher exclamou feliz da vida:
                - Vamos comemorar, meu patrão! A festa só está começando.

Com uma das mãos não mais nas minhas pernas mas em outro local completamente enrijecido pelo hábil manuseio, Ana Maria, com os olhos acompanhando os movimentos do marido que fora apanhar mais cervejas, segredou-me cinicamente:

- Me amarro num coroa do teu jeito; ainda mais conterrâneo ...


João Imbelloni

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