João Imbelloni                                                                                                10/12/2009

A CRÔNICA DE NOVEMBRO

 

            Minha habitual intuição me dizia que iria acontecer alguma coisa relevante naquela sexta-feira, dia 20 do corrente, quando recebi a notícia vinda do abrigo de animais informando que a minha amiga Ava não se acostumara no forçado e, para ela, inaceitável cativeiro. Senti enorme remorso por ter acatado sugestões médicas e de parentes, no sentido de mandá-la para um cruel novo modelo de vida, punindo a pobre coitada em troca da comodista resolução de um possível problema: a felina seria a culpada – que injustiça! – da minha antiga capacidade de ser campeão de espirros e mazelas fungatórias outras, além do “perigoso” trabalho de cuidar da mesma, fato que poderia levar-me a “pegar” graves e fatais doenças...

            - Ela não come e vive entocada, numa tristeza que dá pena, anunciando, tenho certeza, que morrerá de pura paixão. – Pelo telefone, a voz de dona Maria Joana não poderia ser mais convincente.

            A belíssima gata - exemplo de sociabilidade, tranquilidade, afetividade, independência e autenticidade - foi acolhida ainda filhote e muito doente, tratada e criada com todos os mimos e carinhos de um ambiente que respeita e ama os animais, não sendo possível, agora adulta e mal acostumada, obrigá-la a ficar presa e junto a dezenas de irmãos e, o que é pior, na companhia, por força das circunstâncias, de ameaçadores cães, igualmente abrigados do abandono e dos maus-tratos dos chamados humanos. Quantas vezes – terapia? – ao conversar e acariciar a amiga de todas as horas mandava para bem longe as ameaças da pressão arterial e o estresse que me ameaçavam, ressaltando-se que, não tenho qualquer dúvida, a felina tem o poder de chamar para si energias negativas através do contato, liberando-as depois...

            - Por favor, traga-a de volta. Se possível, agora!

            Não obstante ser experimentado no embate com os problemas da vida e acostumado às agruras impostas pelo terreno pelejar, recebi com molhados olhos os azuis reflexos do agradecido olhar de uma criatura que, ao se alojar nos meus braços, expressava toda a gratidão que poucos humanos seriam capazes de sentir.

            No instante seguinte, com um miado curto disse: - “Oi!”. Depois, com vários miados, fez questão de afirmar: - “Estou muito feliz!”. Com um miado longo e baixo e lambendo as minhas mãos e braços, exclamou: -“Tenho uma confissão a fazer: eu te amo!”

            Ronronando, numa atitude de chega mais, conseguiu dormir profundamente, depois de muito tempo.

            Passados os dias, Ava voltou à feliz rotina e eu à rotina feliz ao lado da verdadeira amiga. A quitinete recuperou a alegria.

 

II

 

            Naquele casual encontro na biblioteca da Fundação Tancredo Neves - também numa sexta-feira, dia 27 do corrente - o jovem se dirigia à sisuda senhora que o acompanhava, pouco se importando com a minha cara de desconforto e apreensão. Era o meu sobrinho Ernesto que sabia das minhas queixas a respeito dos enfrentamentos com a análise sintática, de imensa necessidade, segundo ele, “para quem se mete a escrever”.

            - Este meu parente, Professora, precisa de apoio, na medida em que diz não dominar a análise sintática, mas afirma que, por pressentimento, vive dividindo as orações e períodos em tudo que escreve.

            A mulher pousou os olhos sobre os meus. Transmitia confiança e segurança, muito embora denotasse uma muda censura e, solenemente, como se buscasse a atenção de todos os presentes no local público, falou com todo o capricho possível:

            - “A função das palavras na oração e o tipo de relacionamento entre as orações de um período nos são dados pela análise sintática. Fazer análise sintática significa estudar o relacionamento entre essas várias partes para que se possa determinar a função de cada termo”. Entenderam? – a mestra fixava, agora, os argutos olhos em mim.

            - Por que o senhor não estuda? Não se deixe levar pelos exemplos que vêm de cima – pronto! Agora sou mais um inculto e candidato a bolsas e cotas - , dos políticos e governantes “que se lixam” para a Educação...

            - A senhora critica os governos? Aliás, o Governo Federal comandado pelo grande e querido Lula? Observe as pesquisas... – o coração petista do meu sobrinho o denunciava, mas a Professora não lhe deu a mínima importância, continuando:

            - É uma pena que a grande maioria, desinformada, acredite no “nunca antes neste País” e chafurde na suja marolinha, ludibriada pela política pão e circo do Presidente. Desconhece, tudo indica, que foi no governo anterior que nasceu “um plano econômico que acabou com a inflação, estabilizou a moeda, ajustou as contas públicas, pôs o Brasil no rol do mundo e, só para citar o mais vistoso efeito das privatizações, universalizou o acesso à telefonia e viabilizou o acesso à internet. Já os petistas exibem alegremente seus mensaleiros sem que isso cause, nem a eles nem ao público, um pingo de vergonha ou espanto. Ao contrário”...

            - Professora! Essa história de mensaleiros começou com o PSDB mineiro e agora a bola da vez é o DEM de Brasília. Está em todos os jornais...

            - Um instante, meu jovem. O PT é imbatível nas tristes ações de corrupção. Para a sua reflexão, pois um brilhante aluno meu não pode viver equivocado, informo-lhe que o jornalista Luiz Gustavo Chapchap publicou um artigo em que diz que no governo Lula, além de tudo, o Brasil dá abrigo a homicida (Batisti) com aval do ministro da justiça, sustenta baderneiros (MST) e exalta corruptos (Sarney,Collor, Calheiros, etc.). Para piorar, recebe o presidente do Irã com honras de grande personalidade mundial...

            - Chega, Professora. A senhora se esqueceu que o problema do meu tio é a análise sintática, não questionamentos políticos. – o jovem estava vacilante; tomara que aprenda as lições.

            - Desculpem-me! A indiganação falou por mim.

            Depois de mais alguns instantes de constrangido  “papo sobre análise sintática”, por inspiração do meu sobrinho, a Professora comprometeu-se a ir até a minha residência no vindouro domingo, para iniciar as aulas particulares que poderão me habilitar no correto uso da análise sintática.

 

III

 

            Na quente e bela manhã de domingo, dia 29 do findante mês, por volta das oito horas – bastante cedo para o que fora combinado - a minha irmã caçula que pernoitara em casa e depois me contaria o caso, atendeu ao insistente batido na porta e ficou frente a frente com uma mulher de, aproximadamente, cincoenta anos, olhar penetrante e, segundo a caçula, “uma pose de raínha da cocada preta”.

            - O dono da casa me espera.

            - Por favor, sente-se. Ele está no banho. Aceita um café? Acabei de passar...

            - Aceito, obrigada. Avise ao seu patrão...

            - Irmão!

            - Avise ao seu irmão que já cheguei.

            Minha irmã, que não gostara da Professora, além de não me avisar da importante presença, deixou-a sentada na minúscula sala e foi embora. Sem saber da prematura visita da ilustre personalidade e sabendo que a minha irmã não estava em casa, resolvi – saindo pelado do banheiro em busca da quase sempre esquecida toalha – brincar um pouco com a felina Ava que estava a ronronar em cima da cama pleiteando a ração matinal.

            - Dona Ava, dona Ava. Nem bem amanheceu o dia e a senhora começa a aporrinhar a minha vida. A senhora bem que podia iniciar agora uma dieta, pois está muito gorda, cada vez mais parecida com um hipopótamo. E como já está velha, pode ser chamada de velho hipopótamo. Além do mais é burra, já que faz do alimento a base de tudo. Dona Ava, a senhora não se olha no espelho?

            Foi aí que olhei para a “visagem” de olhos arregalados, não sei se pelas palavras que falei para a gata, ou por meu traje de Adão. No tempo em que apanhava a toalha a Professora bateu com toda a força a porta da contígua sala de visitas da quitinete e ganhou a rua, correndo “como se fugisse do demônio”, dizia-me o vizinho olhando para a toalha que mal cobria o meu corpo...

            Muito preocupado com o ocorrido, procurei pelo cartão que a Professora me oferecera no encontro de sexta-feira. Ali teria um número de telefone celular para contato. Antes, porém, de chegar aos números dos telefones e endereço, meus aflitos olhos foram ao encontro do nome da Professora Doutora, grafado em letras garrafais:

AVA GARDNER FERREIRA DA SILVA.

            É preciso contar, também, que a folha de papel na qual fizera o esboço de um poema para a querida terra natal, não se encontrava mais sobre a mesa da sala, vagando, agora, em pedaços pelo chão do pequeno quarto. Ainda sem título a singela brincadeira dizia:

 

Vem, minha querida,

ceder-me o teu Curuçambá,

para que eu nele mergulhe

o meu ingá de recordações.

 

Deixas que o teu cupuaçu

ou mesmo a tua bela sapoti,

sejam por mim degustados

com o doce refresco deste encontro.

 

Permites que ao chupar os teus abius

na sombra do amigo castanhal,

passe as emocionadas mãos

sobre a tua robusta melancia.

 

 

Continuo com o forte anseio

pelo teu inesquecível Curumu,

e não olvido dos passeios

pela tua linda e estreita Bacuri.

 

 

 

Recordas da única admoestação?

Foi por causa da primeira relação,

quando negociei a intocada pitomba

com a sapucaia de segunda mão.

 

.x.x.x.x.x.x.x.

 

 

Belém (PA), 30 de novembro de 2009.

João Imbelloni

 

 

Obs. Mil desculpas pelo atraso na publicação, por exclusiva falha minha.

 

 

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