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João Imbelloni 31/10/2009 |
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A CRÔNICA DE OUTUBRO
A informação terrível chegou de supetão, como toda notícia ruim. Num curto telefonema para o celular de Giovanni Pauxis, o poeta ficou sabendo do passamento daquela que parecia ser a derradeira namorada. O abrupto pesadelo dizia que Samantha Fehy fora vitimada – suspeitam, apenas suspeitam naquelas paragens – pelos vírus da gripe suína que não respeitam fronteiras ou lugares paradisíacos. A jovem sequer teve tempo de chegar à Altamira para receber o impreterível tratamento, morrendo como um dos animais sufocados pela fumaça do constante fogo do descaso e da irresponsabilidade tão comuns na região. Além da natureza, morrem, também, os amazônidas. Ante a imensa e repentina fatalidade, Giovanni busca o suave conforto da lembrança viva da namorada, que há menos de vinte dias estivera feliz em seus braços, momento testemunhado por uma preservada floresta da exemplar propriedade da família Fehy, bem como pelos cânticos dos mais variados passarinhos. Na forma de um raio de otimista expectativa, Samantha aparecera no caminho do sonhador em uma de suas andanças pela região da Transamazônica, iluminando o tortuoso caminho de quem, levado pelas circunstâncias do dessemelhante modo de viver, mantinha-se sozinho ao longo de muitos anos depois de felizes paixões. Na verdade, a doce mulher o fizera acreditar que, finalmente, quase idoso, encontrara o amor...
Ó mês de outubro! No dia do Círio, em Belém, milhões de peregrinos seguiam o andor da esperança, com centenas de promesseiros segurando firmes na corda do possível passaporte para a realização de sonhos. No mesmo momento, ao lado de poucas pessoas contristadas, o poeta acompanhava o sepultamento da querida xinguara sob as roxas terras de um distante rincão da nostalgia, pronunciando tímida prece à Intercessora, pedindo muita luz no retorno do meigo espírito da namorada. Ali, a suja corda que ajudou no enterro, personificava o rompimento do frágil elo da vida terrena com os devaneios.
O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. (Fernando Pessoa)
Todos esperavam por um grande pronunciamento, porém, dizer (ou escrever) simples palavras a respeito da morte da querida namorada tornara-se muito difícil, em que pese a utilização das letras ser o instrumento de plena expressão de Giovanni, que utiliza o “fingimento” da realidade na criação poética e literária da habitual busca da verdade e da emoção. No triste momento de falar da falecida na última homenagem... O poeta não encontra palavras, não sabe o que dizer. Assim, em completo silêncio, despede-se com um demorado olhar para a campa da desilusão e embarca no carro da agonia que o levará para Altamira, onde, nas asas da tristeza, seguirá para a Belém da saudade e das recordações.
Na noite do domingo do Recírio, ouvindo a própria consciência, o solitário poeta volta os confusos pensamentos para duas importantes mulheres que um dia acreditaram nas palavras de um sonhador. Pensa Giovanni (encarando a ameaçadora solidão) na menina primeira que, hoje aos sessenta anos e grande poetisa, entendeu, finalmente, como – apesar dos lindos filhos – tantos planos puderam ruir diante da aparente irresponsabilidade de um inquieto coração, o qual, em determinados momentos treinava voos e, certo dia, enfim, ganhou as alturas e pousou nas frias montanhas da ausência e dos desenganos, submetendo-se à inexplicável vontade de lá permanecer, pairando na saudade... Recorda-se de Rosa-Flor que aos dezessete anos (ele já maduro e calejado pela vida) acreditou, por sua vez, na palavra de amor de um poeta, desconhecendo que seria tão-somente mais uma tórrida paixão, diferenciada paixão que trouxe para este mundo duas esplêndidas criaturas.
Nestes momentos de punitiva aflição, o sonhador entende as palavras de Antonio Tavernard: “De quando em quando, o coração que sinto cada vez mais cansado, se arrastando, marcando o tempo, recontando as horas, pergunta-me, num sopro quase extinto, quando é que virás... Volta depressa, sim?... Se te demoras, já não me encontrarás. A vida deu-me a dor, eu dou-lhe versos.”
Com a partida da xinguara (última esperança de amor?), a dura realidade mostra a Giovanni, acostumado às grandes intempéries da vida, que as dores estão cada vez mais difíceis de serem transformadas em poesia. Nascido em plena garganta do Amazonas, tal qual o grande rio, sabe que as águas do devaneio e da incontida vontade de seguir em frente rompendo obstáculos, brevemente serão tragadas pelo oceano da eternidade que o espera para, quem sabe, colocá-lo de frente às paixões, aos erros e acertos. Aí, então, com o rosto voltado em direção ao Sol, procurará deixar as sombras para trás...
Olhando para o passado Lembrando das quimeras Apelo para as letras Sem as quais nada seria
Bálsamo alfabético que vem Oriundo do sofrido coração Cura-me da grande tristeza Pois escrevo com alegria
Amparado pela saudade Busco as difíceis respostas Para as perguntas que me faço Escrevendo... Para viver
Na clara manhã depois do Recírio, encerradas as festividades de Nazaré, aconselhou-se o combalido Giovanni com a grande poetisa Iara Maria, que lhe disse ostentando um inigualável sorriso:
- “Na maioria das vezes quando vivemos um grande conflito interno, renascemos. Renascemos com sabedoria ao assumirmos a responsabilidade por nós mesmos e pelos nossos sonhos. Mudamos de atitude, ficamos mais fortes para voarmos mais alto”.
Tomara!
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Belém (PA), 31 de outubro de 2009. João Imbelloni
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