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João Imbelloni 12/10/2009 |
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O PORTAL DO DEVANEIO (VII)
Mais uma vez solicitado por um neto ávido para responder a perguntas necessárias para concluir algum trabalho escolar ou para satisfazer a natural e necessária curiosidade juvenil, conto, outra vez, inocente, mas útil “lorota” no Portal da Esperança. E lá vai o jovem ter que pesquisar. Ao escrever, lembro-me que no passado dia 4 – e muitos não sabem – foi o Dia dos Animais, o qual deveria ser de homenagem aos nossos irmãos. Porém...
Quase todos os olhares se voltaram para Ava, quando ela, provocante, tentava atravessar a movimentada avenida. Postura altiva, rebolando e ignorando a atenção de quem a olhava com admiração, demonstrava saber o que estava fazendo. Andar elegante, mas apressado, levou-a, rapidamente, para o outro lado da via pública, na busca da sombra amiga das árvores da reserva onde está localizado o complexo da COSANPA que abastece de água potável a grande Belém. O olhar azul cruzou com os olhos de João-João que ali estava a meditar depois da caminhada matinal. Os dois seres, embora de mundos diferentes, possuem a mesma região do cérebro responsável pelas emoções. E ambos estavam emocionados naquele momento, em que Ava girava suas orelhas a quase 180 graus, forçando ao máximo os 32 músculos que as controlam, na tentativa de ouvir as palavras do homem no meio do barulho ensurdecedor do trânsito daquela hora e que ficava para trás, na proporção em que eles adentravam o local na direção do centro da conservada mata. - Quem és tu? – indagou, enfim dizendo alguma coisa, a dona de tão belos olhos. - Apenas um poeta que sonha com a Natureza preservada e que muito te admira. - Um sonhador... Acreditas mesmo que o homem não destruirá a natureza? - Sinceramente, não sei! Eles chegaram até a uma gigantesca castanheira, embaixo da qual tagarelavam os bichanos Doutor – assim chamado por sua grande preocupação e o modo de ajudar aos irmãos doentes -, Oncinha, Branca, a diferente Albina e outros animais. Falava o Doutor: -... E o gás carbônico é “um dos principais causadores do efeito estufa e, consequentemente, do aquecimento global”. O Governo do Estado bem que poderia criar neste local, como projeto piloto, um poço de carbono. - Poço de carbono? – Branca estava assustada. - Sim! A ideia é que “as árvores absorvem o gás carbônico (CO2) da atmosfera. Esse processo de absorvição é feito naturalmente, por meio da respiração vegetal. O gás carbônico é um dos principais causadores do efeito estufa”. Levantamentos indicam que só as reservas, mesmo as do tamanho desta, e reservas indígenas, possuem 30% do carbono estocado na Amazônia. - “O que as tornará” – manifestou-se a Oncinha – “potenciais alvos para a construção de poços de carbono”. Uma única árvore absorve até 180 quilos de CO2. - É fato, mesmo guardado a sete chaves, que o carbono absorvido na atmosfera, “transformou-se em uma valiosa moeda negociável no mercado internacional, como qualquer ação de uma empresa. Um crédito de carbono, como foi chamado, equivale a uma tonelada métrica de CO2. Seu valor real pode variar de 5 a 15 euros” – ensinava Albina. - Esses créditos interessam a empresas e países ricos “interessados em atingir suas cotas de reduções de emissões... simplesmente desejam comprar créditos equivalentes à quantidade do poluente lançado na atmosfera” – Oncinha voltava a entrar na conversa. Depois dos cumprimentos de todos dirigidos a Ava, o Doutor resolveu encerrar o assunto: - “Não se pode esquecer, no entanto, que a generosidade do mercado de carbono se estende também aos responsáveis por manter a floresta em pé...” - Um momento! – quase gritou Ava -. Devo acrescentar que a neutralização de carbono é a “forma de compensar o meio ambiente pela emissão de gases poluentes”. Costuma-se plantar árvores. Mas, nós, os bichos, sabemos que o melhor mesmo é reduzir as emissões, já que a atitude proposta só dá resultado no médio prazo, para sermos otimistas. Os animais tomaram o rumo do retorno e Ava, somente com a companhia de João-João, acomodou-se, lambendo-se, bem ao lado da castanheira. Pouco se importava com a presença do humano que falou com sinceridade: - Quanto aprendizado, Meu Deus! E eu que vim aqui na busca da inspiração para escrever um simples poema... - És poeta? - Considero-me assim. - Sabes, então, o que é ser poeta? - Não... No mundo animal onde se encontra – e por isso mais sábia -, Ava, condescendentemente, tenta dar apoio ao Poeta. No azul olhar observa que na própria agonia, o mesmo, ansioso, esperava por uma resposta.
Ato contínuo, Ava olhou fixamente para João-João e, depois, contemplando os peixes do transparente lago que estava aos seus pés, com o apoio do silêncio dos pássaros e do vento que pareciam querer ouvi-la, falou com muita firmeza:
Ser poeta É viajar No tempo, No espaço, Com os pés no chão.
Ser poeta É ser sensato Num mundo louco, Fazendo loucuras Com os pés no chão.
Ser poeta É não ter o amor Como se concebe, Preferindo paixões, Com os pés no chão.
Ser poeta É ter um coração Enamorado, Sem juízo, Com os pés no chão.
Ser poeta É ter o coração no infinito Elevando a própria voz, Perguntando: onde estás? Com os pés no chão.
Ser poeta É ter a certeza Da curta memória, Da ingratidão atroz, Com os pés no chão.
Ser poeta É ser o puro perdão, Transferir o que sabe, Aprender o que ensina, Com os pés no chão.
Ser poeta É fazer das letras O longo caminho A ser percorrido, Com os pés no chão.
João-João, completamente absorto, ficou a pensar que o mais difícil sempre seria permanecer “com os pés no chão”. Ava, espreguiçando-se, tomou o caminho da saída da reserva e o poeta não percebeu que a mesma lhe dissera adeus. Partiria no dia seguinte, para sempre...
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João Imbelloni
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