João Imbelloni                                                                             27/06/2007

Retalhos (VI): O  APAGÃO

 

 

O apagão que deixou a cidade às escuras por determinado tempo, teve o seu lado bom.

 

Pelo menos para o velho Sabá Boca de Caçapa. Tranqüilamente, como se fora um mago em plena contemplação, apanhou uma antiga cadeira de balanço e sentou-se em frente a sua residência, observando, atentamente, o prateado efeito do luar sobre as casas, ruas e o Rio-mar ao longe. A Serra da Escama destacava-se soberana como sempre, mexendo com as gratas recordações daquele caboclo, aposentado recentemente e de regresso à Terra natal “para passar feliz os últimos dias da profícua existência”, ao lado dos parentes e amigos que jamais abandonaram a querida Óbidos.

 

Com aquele luar, tão acentuado pela falta da luz elétrica, veio a doce lembrança das serenatas “puxadas” pelo João Cabeça, acompanhado pelo Ferrinho e o seu mágico violão. Quanta saudade! Lembrou-se que a canção de abertura – “Relógio” - interpretada pelo trovador, naquele tempo já continha um triste apelo: “...Detém o tempo eu te peço / Faz desta noite perpétua”. O relógio-deus jamais atendeu ao clamor dos jovens, pois não tinha forças para vencer o tempo-diabo que, inexorável, trouxe a todos para os presentes dias.  Sabá agora entendia a mensagem que João Cabeça tentara passar através do poema  tão nítido em sua mente:

 

Meus tristes olhos

refletem o amor

oriundo do tempo,

passado tempo

antes do óvulo,

depois da morte.

Alma luz divina

no rumo do porvir...

 

- Boa noite, vô Sabá! – Heráclito interrompeu os pensamentos do saudoso homem.

- Boa noite, meu neto! Vê se pegas aquele “mocho” que ali está e senta-te ao meu lado.

- Que coisa vô! Enquanto não se cumpre a promessa dos homens, a ameaça de apagão continuará. Que venha logo, meu Deus, o “linhão” de Tucuruí.

 

Sabá Boca de Caçapa não estava disposto a falar sobre energia elétrica. Cortando o assunto, indagou:

- Como está a tua mãe?

- Agora ela está melhor. Depois que papai a abandonou alegando traição, ela parece que criou vergonha na cara e está meio sossegada cuidando da casa e do trabalho na mercearia. Problema grave são os meus irmãos mais crianças. Lembra-se da Rita e do Anastácio?

- Sim! São os meus netos mais crianças.

- Pois é vô. A Rita depois de muito “aprontar” aqui, foi embora para Manaus. Meteu-se com uma turma barra pesada e acabou sendo presa. Cumpre pena em um presídio feminino. O Anastácio abandonou a família, começou a furtar e roubar para manter o vício dos tóxicos e já sabemos onde vai parar...

 

O caboclo ouvia tudo em silêncio. Talvez fosse por isso que estranhava tanto o progresso do mundo moderno. Mais como um desabafo a qualquer outra coisa, danou-se a falar para o neto e para si mesmo:

 

- Traição, tristeza, enfado e o remorso (às vezes) fazem parte da quase totalidade das relações do mundo de hoje. O galanteio, a troca de olhares e o sincero carinho, foram substituídos pela vulgaridade copiada da televisão. Fala-se só no modernismo das relações via computadores, nas baladas que balançam para cair...para ferir. Cadê o caminhar de mãos dadas? Cadê os lugares românticos? Cortejar de verdade extrapola o físico; é o diálogo de almas buscando o amor. Cadê os grandes amores nascidos na diária lisonja, namoro feliz?

 

Respirando fundo, como se falasse para uma grande platéia, concluiu falando bem alto:

 

- Adeus doces mensagens, flores, espera na praça, atenções especiais. O amor foi trocado pelo nefando “ficar”. AH! Divinas músicas de outrora; a mediocridade das modernas composições embala os jovens na direção do nada.  Opacos cérebros dançam no vício...

 

Calou-se de chofre e, apanhando a cadeira que lhe servira de púlpito, recolheu-se aborrecido, sem dar a mínima atenção para o atônito Heráclito que não conseguia mais conter o pranto.

 

Não sabe o revoltado Sabá Boca de Caçapa que ainda restam esperanças de um mundo melhor. Progressão mostra o futuro que se pode mudar no presente, como deveríamos ter modificado o hoje, no passado, no tempo das serenatas, no feliz tempo do primeiro amor ...

 

 

João Imbelloni

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