João Imbelloni                                                                                                 20/02/2009

O PORTAL DO DEVANEIO (IV)

 

    Meu amor, como se fora

um brilhante cometa,

    aqui passou e, ao voltar,

        terei partido deste Planeta.

Outubro/1963

João-João

 

 

Depois de um longo e cansativo dia de trabalho, a humilde casa me parecia um paraíso na noite que esperava ser de merecido descanso. Puro engano. Após poucas horas de profundo sono – sem sonhos – enfrentei uma insone e fria madrugada. E não foram as velhas e perfeitas músicas vindas, bem baixinho,  da residência ao lado que me acordaram. O único “mal” que elas poderiam ter feito a este incurável sentimental, seriam as alegres e tristes lembranças...

No quarto de reflexão, os pensamentos divagaram pelo inabalável tempo. Aonde foram? Inicialmente, para a manhã de hoje quando li no meu e-mail algumas considerações positivas a respeito da Crônica de Janeiro, bem como a atroz crítica de um internauta e pretenso político que, além de me chamar de “pronomes” impublicáveis, aconselhou-me a “deixar de escrever contra autoridades e ficar quieto no meu lugar de velho”. Com apenas sessenta e dois setembros, consola-me a certeza de ter afirmado muitas vezes que não sou escritor, mas, como bem disse o Ademar Amaral, “pior é ser analfabeto”. Pelos padrões convencionais – por onde reza o coitado do internauta – eu estaria velho para fazer muita coisa, inclusive o sagrado direiro de me manifestar no Portal da Esperança (site que completou doze anos de trabalho prestado ao povo obidense, liderado pelo “jovem-velho” Luiz Arthur Brito Teixeira, baluarte que necessita muito mais do que simples encômios para a continuidade do importante e caro serviço). Voltando ao meu raciocínio... quem não conhece alguém  que depois dos sessenta anos, ao invés de uma aposentadoriazinha prefere enfrentar um vestibular ou novas atividades, providos de superações que causam admiração em muitos jovens? Sem queixas das dificuldades esses “idosos” acham que nunca é tarde para um novo empreendimento, para mais um casamento, para voltar a estudar e para quaisquer outros tipos de iniciativas. Aprenderam eles que as grandes atitudes começam na cabeça e na disposição de recomeçar, já que tudo depende da percepção que os mesmos têm de si mesmos.

Esquecendo a covarde ofensa, os pensamentos tomaram a balsâmica direção da querida e inesquecível Óbidos. Nestes momentos de singular nostalgia, ainda mais embalado por sublimes músicas, procuro por velhas lembranças e as antigas fotos e amarelados pedaços de papel com anotações, ajudam-me a recordar de um tempo que não volta mais. Chego a ouvir minha própria e juvenil voz cantando eternas canções nas serenatas da vida, com a parceria do inesquecível violão do Ferrinho, precocemente levado de volta para a grande orquestra do Mundo Espiritual.

De repente chega uma bem-vinda companheira. Embarcada, no silêncio momentâneo no qual o intervalo musical se fez sentir, a mesma bate na porta e anuncia, para o meu bem, a partida da tristeza permutada por ela, a grande amiga saudade. Na parada do pensamento eu a recebo feliz, pois, a nostalgia, desse jeito, personifica uma paixão qualquer, a qual, sem ser o primeiro amor, transforma-se na base para a incessante busca... aí, tão jovem, tento traçar o destino de minha vida, procurando, tenazmente, o alicerce prometido nos olhos do futuro. Debalde são, no entanto, os renovados esforços. Não se pode mudar mais a inexorável sucessão dos passados minutos, horas, dias, meses e anos, perdidos e alheios aos sonhos que não foram realizados. Quantas oportunidades perdidas.

Volto meus olhos, então, para os singelos e quase poemas escritos por um adolescente em simples pedaços de papel de embrulhar pão produzido na saudosa Padaria Progresso. Contam-me eles, na pura simplicidade, a história de minha vida.

 

Peso Pesado

 

Ao sentir o peso

Do próprio peso

Vejo a gravidade

Da própria gravidade

Acusando a consciência

De não ter consciência

De me deixar tão triste

Na orfã vida triste

De uma profunda paixão

Que pereceu de paixão

 

Julho/1963

João-João

 

Durante a queda das lágrimas de uma chuva obidense em um dia do mês de dezembro de 1963, antes de se encontrar com a doce namorada, assim escreveu o jovem sonhador, esperando passar a tormenta:

 

Encontro

 

A chuva cai lá fora

lavando os sentimentos.

O frio d’alma aumenta

buscando a quente companhia.

 

Sentindo a falta do sol

que é o teu grande calor,

protejo-me sob a ansidedade

e parto ao teu encontro...

 

Talvez pela pouca idade, às vezes, mesmo brincando sério, fazia das palavras um marco de um simples acontecimento, fictício ou não:

 

Tarde Quente

 

 

 

Sentindo tanto calor,

mexo-o pra lá e pra cá,

revoltando o pensamento:

- Vá tomar banho!

 

Depois de tanto sabão,

água pra lá e pra cá,

a usada cuia exclamou:

- Vá tomar vento!

 

Depois de tanto andar

em busca da solução,

cheguei ao Curuçambá:

- Vá buscar a Maria!

 

Saí ao vento correndo,

indo de cá para lá

trazendo a Maria que falou:

- Vá tomar banho!

 

Julho/1964

João-João

 

Iniciantes e marcantes palavras que, lidas no futuro, nada mais foram do que o prognóstico correto da vida de um humilde poeta. Ao quebrar paradigmas, a não esquecer a origem de seus princípios, ao usar as experiências e estímulos recebidos durante a existência, principalmente no Torrão natal e, finalmente, ao juntar os próprios pedaços, refaz ele os seus caminhos em plena maturidade, ajoelhando-se ante o passado que o ensinou, apesar de tudo, nunca ser tarde para aprender os ensinamentos da Universidade da Vida...

 

Dia claro, depois da habitual caminhada pela Avenida João Paulo II, diante da marcada face que me olha no espelho do armário do banheiro, tenho a certeza que aceitei – há muito tempo – os meus tantos erros, contudo, fazendo deles, mesmo no pôr-de-sol da minha vida terrena, as imprescindíveis lições para o aprimoramento da eterna vida.

 

.x.x.x.x.

João-João, digo

João Imbelloni

 

 

 

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