João Imbelloni                                                                                06/11/2008

O EMBATE DA SAUDADE (III)

 

Passei grande parte do último domingo, 2 de novembro, pensando nas pessoas (parentes e amigos) que não estão mais conosco. Senti imensa saudade, longe, contudo, da tristeza ou amargos sentimentos detestados pelos mesmos, uma vez que haverá o futuro reencontro, lá onde eles estão ou no eterno recomeçar dentro de minutos, horas, dias, meses, anos, século, milênio...

Num dos rápidos cochilos durante a profunda meditação, sonhei com a minha querida filha e vi no sublime sorriso do Espírito de Luz, a mensagem de Paz e Esperança que os “mortos” transmitem para todos nós. Não sei o porquê, porém, dentre os amigos de um inesquecível tempo, nítidas se fizeram as presenças e lembranças dos companheiros do Mariano Futebol Clube, Olívio, Merunga e Everaldo (Bicho), assim como do Juracy, eterno craque do Paraense Esporte Clube, egresso – ressalte-se – do Paysandu da costa fronteira.

Recordei, talvez por isso, com lágrimas de emoção, mais um histórico embate da saudade. Desta vez, entretanto, tenho alguma coisa palpável, na forma de uma velha, amarelada e valiosa fotografia – obra do Nato – a qual, com a honra e respeito que merece o flagrante do passado, ofereço aos conterrâneos no final deste artigo que não passa de uma simples tentativa de colaborar com a história obidense.

Assim, com a força da saudade, de imediato e sem qualquer ambição literária, escrevi confiando apenas na grande mas falível cabeça, sem pesquisas e informações preparatórias, levado, quem sabe, pela preguiça de enfrentar maior aprofundamento ou o receio de ser prolixo e não oferecer uma leitura como almejava, ou seja, mais para o “curto e grosso”. O presente trabalho, então, nasceu em pouco tempo de uma nostálgica tarde de domingo. Nada impede, todavia, mais informações de conterrâneos no “Livro de Visitas”, para conhecimento de todos.

 

Há quarenta anos, dois meses e poucos dias, durante todo o sábado de 28 de agosto de 1968, o precípuo assunto nas rodas formadas por obidenses (nas padarias do Chalito, Franco e Antonio Padeiro, no Mercado, no canto do Priante, no Trapiche, nos bares do Mário Torres, Jacinto e Santarém, na pensão da Miquita, nas tabernas da Maria Ramos e Sacaca, nas barbearias do Jacó e Laurentino, nos serenos das festas do Antonico e Sindicato dos Estivadores, etc.) era a respeito do jogo entre o Mariano e o Sport Club Belém, reforçado com jogadores de outras equipes da Capital, o qual encerraria em Óbidos a brilhante e invicta excursão pela região, inclusive Manaus. O Mariano tentaria quebrar a tal invencibilidade, sob o comando do ex-craque e grande técnico Felipe Calluf que, por sua vez, buscara também reforçar sua equipe com alguns jogadores dos irmãos do futebol Paraense e Santos, tornando assim, poder-se-ia dizer, uma peleja, de fato, entre Óbidos e Belém.

O evento, promoção da Diretoria do Mariano, contou com o apoio da Prefeitura e responsabilidade de execução dos incansáveis líderes e imortais desportistas, Zezé Ferrari, Ary Ferreira, Dídimo Ferreira, Sinval Dias, Francisco Barros (Barrinho), Salumil, Emanuel Oliveira e Gitinho, cujos nomes aqui representam outros dirigentes e colaboradores que me fugiram da cansada memória. Não se pode esquecer a importância da torcida azulina, representada pelos baluartes Vivi Carvalho, João Pirão e Dadá, bem como de toda a torcida obidense que prestigiou o fantástico acontecimento.

Domingo de sol a pino em pleno dia 29 de agosto de 1968. Continuava o dominante assunto do jogo daquela tarde, tanto nos balneários e bares da vida, como nos almoços dos lares da Cidade Presépio, quando todo mundo, principalmente os jogadores pauxis, mal conseguiam disfarçar tanta ansiedade. No campo de jogo do Estádio General Rego Barros, o Antonio Cabanela dava os últimos retoques no palco do espetáculo, observado pelo brilhante olhar do sargento Oran, comandante do Quartel e diretor do Paraense. Naquela tarde ele torceria pelo Mariano que representaria a Cidade que aprendera a amar.

Aproximava-se das dezesseis horas quando o Sport Belém adentrou o campo, com um time profissional, competente e aguerrido, representado pelo futebol dos jogadores da grandeza de Arlindo, Jacob, Cobra, Zumbi, Carvalhão e outros diferenciados craques que a névoa do tempo não me deixa lembrar.

Com o estrondo de ensurdecedor foguetório e gritos de apoio de uma apaixonada torcida, o Mariano entrou em campo desfalcado do atacante Bicho, gravemente contundido, com a seguinte formação: João Cabeça; Quincas, Juracy (reforço), Olívio e Saulo; Gonzaga (reforço), Crísio, Lola, Jovem que não lembro o nome (1); Merunga e Jovem que não lembro o nome (2) – vide foto abaixo. (Mais tarde, principalmente no segundo tempo, ocorreram várias substituições, ficando na minha mente somente a entrada do Valdelino no lugar do Juracy).

 

Quase às dezesseis horas e vinte minutos começou a tão aguardada partida, com os primeiros quinze minutos em ritmo lento, estudado, destacando-se o toque de bola dos dois times, onde a classe dos profissionais não sobrepujava a disposição de luta dos pauxis, que exerceram uma severa marcação e partiam em velozes contra-ataques. Com a destacada atuação de Olívio, a defesa obidense estava impecável, tal qual a do adversário com as soberbas jogadas do Carvalhão. Assim, no primeiro tempo, em que pese o esforço dos atacantes e o bom desempenho dos meias de articulação, as defesas mostraram-se atentas e mais competentes. Os goleiros foram pouco exigidos.

No segundo tempo foi um eletrizante jogo. O Mariano agigantou-se e mandava na peleja. Tinha o domínio das ações mas não conseguia criar, pelo menos, uma chance de gol. Desperdiçou muitas jogadas, quando Roja, indo à linha de fundo, buscava o jogo aéreo que era neutralizado pela defesa comandada pelo gigante (no tamanho e no desempenho) Carvalhão. Até que, finalmente após gritos de comando do técnico, colocando a bola no chão, com destaque para os refinados toques do Merunga, Gonzaga e Crísio, apareceram quatro chances incríveis, as quais não foram convertidas em gol “por puro azar” – desabafou mais tarde o técnico do Mariano. Na verdade, Roja, Merunga, Lola e Crísio, na cara do goleiro adversário, chutaram para longe a bola e a desenhada vitória.

Passava dos quarenta minutos quando Saulo fez uma falta fora da área, no lado direito do ataque do Sport. Tranquilo, orientei a formação da barreira de cinco homens, cobrindo o meu lado esquerdo da meta e me posicionei mais para a direita para ter uma ampla visão da bola. Zumbi tomou grande distância, o árbitro autorizou e partiu o chute violento, com efeito e sobre a barreira. Sequer esbocei um movimento de defesa. Não houve tempo, pois a bola entrou com extrema velocidade no ângulo esquerdo da malfadada trave da frente do Quartel. Golaço do Sport Belém, lembrando a todos a velha máxima do futebol que diz: “Quem não faz leva”.

Com o surpreso olhar ora em mim, ora na bola no fundo das redes, o zagueirão Olívio, face excessivamente vermelha e molhada de suor e lágrimas, tentou me consolar:

- “Não dava, Cabeça. – pegando a bola – Esta não dava. Vamos para o jogo que ainda tem tempo...”

Olhei para a silenciosa torcida. O banho de água fria igual a do Curuçambá veio naquele gol que não pude evitar, apagando o lume da felicidade de um fiel público. Não segurei mais o contido pranto, disfarçado por uma triste chuva que começou a cair inesperadamente.

O Sport Belém soube segurar a grande pressão sofrida nos derradeiros minutos e, brilhantemente, manteve-se invicto na partida e na excursão. Perdemos de 1 X 0 mas os aplausos no final da contenda mostraram que o nosso esforço foi reconhecido pela torcida obidense, numa tarde em que nada deu certo para o brilhante ataque do Mariano.

 

Cerradas as cortinas do palco do tempo, enxugo os olhos, levanto a cabeça, abandono o local de meditação e agradeço a Deus por ter conhecido tão de perto os meus eternos personagens dos embates da saudade e da vida: Olívio, Merunga, Bicho, Juracy e o “guru” das difíceis horas, o Barrinho, colaborador, enfermeiro, companheiro, conselheiro, exemplo e amigo para sempre de Óbidos e do Mariano.

 

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João Imbelloni

 

FOTOGRAFIA HISTÓRICA

DA ESQUERDA PARA A DIREITA: Felipe Calluf (Técnico) – Zé Mário (Santos) – Valdelino – Saulo – Leme (Santos) – Olívio – Mousinho (Paraense) – Gonzaga (Paraense) – Canela – João Cabeça – Juracy (Paraense) – Euvaldo – Merunga – Quincas – Chimbil – Edmar – Jovem que não lembro o nome (1) – Crísio – Lola – Jovem que não lembro o nome (2) – Cancão (Santos) – Roja – Cubil (Santos).

 

Obs.: Alguém poderia lembrar dos nomes dos jovens (1 e 2) da foto?

 

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