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João Imbelloni 31/10/2008 |
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A CRÔNICA DE OUTUBRO
O que escrever neste final de mês para o Portal da Esperança? Lá estava eu pensando no meu compromisso mensal, no ônibus lotado, no início de calorenta manhã, porém no confortador embalo da algazarra de alegres jovens a caminho da escola. Senti, de repente, que ali estava o assunto que buscava para o meu modesto artigo. Prestei atenção no que eles falavam, agora bem comportados. Esperava qualquer outro assunto, menos comentários sobre o nosso País, inclusive sobre a eleição realizada no domingo próximo passado. Muitos deles votaram pela primeira vez, no auge de seus dezesseis, dezessete anos...
Uma bonita jovem negra comentava, para surpresa de todos nós, passageiros daquele sufocante coletivo: - O meu pai acredita que a partir dos resultados destas eleições e dos últimos acontecimentos pelo mundo, teve início o fim do atual modelo de governo do maior de todos, que o vem blindando (ó palavrinha!) da correta opinião pública a respeito das ações dos “aloprados” do PT e aliados, além de o elevar aos píncaros das pesquisas. O apoio popular indica: a maioria continua acreditando que ele não sabe nada do que aconteceu e acontece ao seu redor. Até quando? - Já o meu velho – tentava explicar outro estudante – espera que ele, finalmente, desarme o palanque e comece a governar, de fato, esta Pátria da impunidade engravatada, das bolsas para tudo, das cotas inconstitucionais e das sofríveis educação, saúde, segurança... Um rapaz de aparência frágil, mas mostrando inteligência incomum para a pouca idade, aproveitou o ensejo: - Segundo um experiente político, o Presidente vinha gozando dos efeitos de medidas econômicas tomadas desde Itamar Franco e culminando com o sucesso do Plano Real no governo de Fernando Henrique Cardoso. Mantendo o mesmo plano econômico com os necessários ajustes programados, o atual governo, tranquilamente, levava o Avião Brasil sob o comando do piloto automático ligado há anos. Em vôo de brigadeiro almejava chegar no porto seguro de ações sociais populistas. - E politiqueiras – pensei, quase entrando na conversa. O jovem prosseguiu: - Todavia, a crise financeira internacional que não é uma simples “marolinha”, obrigará o Presidente a desligar o piloto automático. Deverá, pela primeira vez, assumir o comando do Avião, em pleno furacão da economia de efeitos globais, os quais já nos atingem em cheio. - Não acredito na competência do Comandante e sua atual Tripulação para uma boa aterrissagem no incerto futuro global – intrometeu-se uma idosa senhora. - Mas o Homem não é leso – falou outro estudante. Já imaginaram se ele resolver aceitar as sugestões intervencionistas do petismo mais arcaico e radical? Aí está a Medida Provisória que prevê a estatização de bancos, construtoras, etc. Outras virão... e que tenham prazos de vigência. Senão... - Elio Gaspari avisa que “a crise econômica pode colocar o Brasil no trilho que leva ao aparecimento de excentricidades, como se deu com Fernando Collor – voltou a se manifestar a estudante que iniciara a importante conversa. Ou ainda, à radicalização do governo a partir de propostas autoritárias que estão nas gavetas do PT. Coisas como matriz ideológica controlando a imprensa, a necessidade de criar uma poderosa máquina de centrais sindicais e a transformação do Banco do Brasil e da Caixa num comi$$ariado de primeita e última instâncias”. - Vocês não sabem de nada. Deixem o Homem trabalhar, caralho! Nós do povo é que sabemos o quanto ele é bom. Falou dele é mexer comigo. Já ouvi demais – revoltou-se o “homem do povo”, cliente de bolsa, boquinha ou fã do maior de todos. Os estudantes calaram-se e logo depois desceram do ônibus, pacatamente, porém com os rostos sorridentes. Eram diferenciados, sem dúvidas. Muitos passageiros se manifestaram extemporaneamente, comprovando-se, ali, o que dizem as pesquisas do momento. A maioria, mesmo sem nada entender, ficou contra os estudantes. - A gente tinha que pegar aqueles moleques atrevidos – falou com raiva o motorista do ônibus, olhando para o cobrador que era do time dos poucos que ficaram ao lado dos jovens.
Quanto a mim, calado estava, calado fiquei, dando graças pela chegada ao ponto em que desci, pensando no acontecimento e refletindo a respeito. Felizmente, o Presidente antes de tomar posse no primeiro mandato, conveceu-se de que era utopia o socialismo do PT. Sabe agora – embora diga o contrário – que grandes nomes do Partido e aliados outros, não têm escrúpulos nem currículos, pois ostentam verdadeiras folhas corridas e, como o próprio Chefe (diz o grande João Ubaldo Ribeiro), “não agem como servidores dos governados, mas como patrões, com a nossa aviltante concordância ou mesmo subserviência. Para isso cobrem-se de privilégios, imunidades, salvaguardas, firulas jurídicas ou puro e simples banditismo”.
No escritório, leio os destaques dos jornais, excluídas as manchetes sobre as eleições (infelizes acontecimentos no interior do nosso Estado e no Rio de Janeiro):
“Copom mantém os juros estáveis”; “BC aciona fundo emergencial no setor bancário”; “Bolsa cai e fundo do poço aparenta não ter fim”; “BC despeja mais US$-2,3 bi para segurar dólar”; “Escassez do crédito persiste no Brasil”; “Financiamento especial para a construção civil”; “Comércio sem crédito”; “Gangorra na bolsa”; etc.
Sinceramente: Que Deus ilumine o Governo e dê juízo para o nosso Presidente, diante de uma nova, durável e grave realidade. .x.x.x.x.x.
No clímax do mensalão, do dinheiro em malas e cuecas (alguém se lembra?), João-João escreveu:
PASSARINHO
O velho passarinho, num levante, Sentiu saudade do passado Quando podia, num instante, Alçar vôo para qualquer lado.
Agora era assim, o que fazer? Permanecia sempre no ninho, Abandonado e sem carinho, Desejando, às vezes, até morrer.
Certo dia, entretanto, Dinheiro muito entrou em casa; E ele já cansada a asa, Estupefato caiu em pranto.
Antes, tão serelepe e sapeca, Ficou preso, quase esmagado, Mas falou com força, desesperado: - Tirem o dinheiro da cueca!
Belém (PA), 31 de outubro de 2008 João Imbelloni
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