João Imbelloni                                                                             27/06/2007

Retalhos (V):  Aparecida

 

   Ela chegou como quem não queria nada. Quando passou chamou a atenção de todos, quer pelo gingado do andar, quer pela beleza do rebolativo traseiro.  Um senhor, de avançada idade, manifestou-se com ar de entendido:

 

 - Que rabo! Grande mas bem distribuído; sempre as julguei pelo tamanho dos rabos.

 

 Não se perturbando com a acolhida dos fregueses do bar, dirigiu-se ela diretamente à minha mesa, olhando-me fixamente com aqueles lindíssimos e indecifráveis olhos azuis. Emitiu apenas um sussurro praticamente inaudível; sentou-se, posso afirmar, quase aos meus pés e, sob os curiosos olhares dos presentes, não se importou quando passei as mãos sobre a sua cabeça, costa ...o imenso rabo. Arrepiou-se toda e não desviou os olhos da mesa e do meu cúmplice olhar.

 

 - Com licença!  Não posso aceitar a presença dela neste recinto.

 

 Seu Manuel, o dono do bar, olhava-a com desprezo. Arrogante, ameaçava expulsá-la a qualquer momento.

 

 - Um momento! Considero-me um bom cliente. Ela fica ou saímos os dois.

 

 O português não se deu por vencido:

  

 - O senhor é quem sabe, ora pois ...

   

 A raiva já ia tomando conta de mim. Medi aquele homenzarrão de cima até os nojentos pés alojados numa espécie de chinelas bastante surradas. Levantei-me, fulminei-o com um olhar de poucos amigos ...

   

 - Parem com isso! Era o nosso amigo Delegado Percival que se manifestava.

   

 - Só mesmo neste bar para o cliente não ter razão. Onde já se viu não saber tratar com fidalguia um cliente que, acima de tudo, também é um amigo de tantos anos ...

    

 O português, com o rosto   ainda mais vermelho em virtude das palavras do policial, deixou-se cair em uma cadeira, respirou fundo e, voltando-se para mim, exclamou:

   

  - Era só o que me faltava! ...  Está bem, seu Sousa. Ela pode ficar no ambiente, desde que se comporte e não perturbe os outros fregueses.

     

 - Obrigado!

    

  Como ela não aceitava bebidas alcoólicas, pedi uma garrafa com água mineral que ela ingeriu, lentamente, após acabar com todo o tira-gosto de filé de peixe que lhe servi sem dar a mínima atenção para os olhares que reprovavam a minha atitude ...

 

 Com a decisão tomada de levá-la para casa,  pensava somente no que acharia a minha mulher a respeito. Os meus filhos, tinha eu plena certeza, ficariam bastante felizes em ganhar a companhia daquela bela gatinha ... Persa, acho eu.

 

 

Obs.:  FICÇÃO

 

João Imbelloni 

Home |   Volta