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João Imbelloni 21/09/2008 |
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O EMBATE DA SAUDADE
riovaldo Moraes chegou por volta das dez horas na banca do João Pindoba. Era um sábado, de um certo mês, de um distante ano da década de sessenta. Demonstrando os efeitos do rega-bofe da noite anterior, fez o pedido, acrescentando em seguida: - Bota numa cuia grande e com bastante pimenta. É para espantar a ressaca. - Já vai! Depois do Sinésio e do Alberto é a tua vez. Enquanto aguardava pelo saboroso tacacá, o funcionário do Banco do Brasil, assim como todos os desportistas obidenses, fixou o pensamento no grande jogo do dia seguinte, válido pelo Intermunicipal daquele ano (1967 ou, quase tenho certeza, 1968, se não me falha a memória). Saboreando ou aguardando pelo tacacá, os fregueses comentavam o encontro, mas o bancário preferia refletir sozinho, alheio ao falatório daquela bonita manhã na banca de tacacá mais famosa da Cidade: - Óbidos perdeu de 5 a 1 na casa do adversário, lutando muito, porém sentindo o cansaço de alguns veteranos jogadores – preocupava-se Ariovaldo. Como aguentar uma linha com Manoel Maria, Arapixuna e Espadim? O técnico Sinval Dias promete mexer no time. Quer sangue novo e uma formação mais harmoniosa e com grande aplicação, o que espera conseguir com a entrada de Rubinho, Gonzaga, Lola e, possivelmente, outros jovens jogadores. Os treinos foram intensificados e o preparo físico, pela primeira vez, ocupa lugar de destaque, inclusive com trabalho pelas madrugadas, antes da diária labuta. Além das mudanças, a Seleção jogará com a camisa do Paraense (sugestão de alguns atletas), trocando a preta e branca da Liga Desportiva Obidense e buscando, com a cor vermelha, o indispensável entusiasmo da massa torcedora. Sabem todos, no entanto, que a torcida só apoiará um bom futebol... - Pega a tua cuia! – Pindoba entregou ao preocupado torcedor o “cura-ressaca” esperado, libertando-o dos pensamentos.
À noite, no Bar Andrade, seguindo o assunto que dominava os quatro cantos da Cidade... falavam do jogo. - O pior é que o Cachinga não vai jogar. Falei hoje com a Dona Chaguita e ela me deu a triste notícia: Ele está doente – sentenciou o Paulo Curica. - O Sinval não vai escalar o Sérgio Santos e o Pacu. O Sérgio não aguentou – vítima de estranha doença – todo o jogo lá em Santarém, sendo substituído pelo João Cabeça. O Pacu será substituído por conta e risco do técnico que prefere o menino Rubinho – comentou Aluisio Ferreira. Sabá Buchão que esporadicamente ia ao Bar, ali estava e criticava: - Esse Sinval entende mesmo é de estatística. Agora, de futebol... bem que o compadre Hélio Magalhães diz que ele prefere os jogadores do Mariano. Do Paraense, gosta só da camisa... - Uma porra! – reagiu Dedézinho Barbeiro. Quem tem, mesmo, o melhor time é o Mariano, o bi-campeão da Cidade. Depois vem o Santos... - Quanta besteira! O Paraense, desde o início, é o melhor. Quer saber quem tem mais títulos? Claro que é o Papão! – chutou o Valmir Marinho. Zé do Bar resolveu meter a colher de sorvete para esfriar os ânimos, uma vez que a discussão partia para algo mais sério: - Égua! Escutem bem. Nós temos que torcer por Óbidos, não é mesmo? A Seleção é formada por jogadores de todos os times; vamos fazer o seguinte: Amanhã, depois do jogo a gente volta aqui para ver quem tem razão... quem sabe até comemorar. - O Senhor quer dizer, depois da derrota de Óbidos para os profissionais de Santarém – concluiu Chico Tubo puxando a fila da retirada dos “perus” que tumultuavam o ambiente. Os jogadores de “vida”, principalmente o Legito, ficaram agradecidos pelo oportuno silêncio que beneficiaria suas estudadas tacadas nas concorridas partidas daquele tipo de jogo de sinuca.
O curuçambá estava cheio de gente alegre. O assunto dominante? O jogo entre Óbidos e Santarém daquela tarde. - Quero ver o baile que o Manoel Maria vai dar e quantos gois o Arapixuna vai marcar no João Cabeça – deixou escapar Djalma Carrapeta, quase apanhando dos torcedores mais afoitos. - Vamos aguardar o final dos noventa minutos. Tomara que a gente não passe muita vergonha – desejou Antonio Pirão, já no embalo para assistir ao tão esperado jogo...
Tarde de verão super ensolarada, com o límpido azul do céu parecendo homenagear o sagrado Manto do Mariano. O Estádio General Rego Barros estava “completamente lotado”, conforme anunciava o locutor da Rádio Rural de Santarém que narraria “o espetáculo”. A Seleção santarena, sob o comando de Sávio Fereira, jogaria com a força máxima, onde despontavam estrelas como Surdo, Piraca, Amiraldo, Pão Doce, Afonso, Arapixuna, Inacinho, Geremias, Acari, Espadim e a estrela das estrelas, Manoel Maria (não consigo, infelizmente, recordar dos nomes de todos os jogadores que formavam aquele magnífico plantel). A torcida excitada e barulhenta, mal conseguia esperar o início da partida. Depois da entrada em campo da Seleção Mocoronga (verdadeiros profissionais), com uniforme idêntico ao da Seleção Nacional, olhares desconfiados viram a humilde e quase despercebida entrada em campo da Seleção Obidense, candidata à mera coadjuvante do espetáculo, na opinião de muitos. Meiões e calções com as cores preta e branca, homenageando a Liga e o Santos e, saltando aos olhos, as camisas vermelho-sangue do Paraense, também homenageado naquele momento. Nos semblantes dos jogadores a compenetrada feição de quem não poderia decepcionar. Amadores, que eram, somente sonhavam em dar tudo de si, em troca da glória de defender – de preferência com a vitória – o amado Torrão natal. Confirmadas as mudanças e sem as presenças de Sérgio Santos, Cachinga e Pacu, Óbidos seria representada por João Cabeça (Mariano); Donato (Santos); Valdelino (Mariano); Juracy (Paraense); Lola (Mariano); Gonzaga (Paraense); Rubinho (mariano); Zezinho (Paraense); Merunga (Mariano); Bicho (Mariano); Edmar (Mariano); Wiltom Savino (Santos); Sequilho (Paraense); Mousinho (Paraense); Dídimo (Mariano); Coruja (Mariano); Olívio (Mariano); Tibinga (Santos); Cubil (Santos). Cometo um “crime” por não lembrar se foi esta, de fato, naquela oportunidade, a correta lista (incompleta) de convocados. Não me lembro, inclusive, quem foi o goleiro reserva, ressaltando que, por diversas vezes, tive a companhia do Zé Mário (Santos), Canela (Mariano) e outros bons goleiros da época. Perdão pela cabeça do Cabeça vacilar frente ao tempo...
Silêncio total às dezesseis horas e quinze minutos daquele memorável dia. Sua Senhoria, o árbitro vindo de Belém, autorizou o início da partida, com o primeiro toque na bola efetivado pelo craque Arapixuna. Aí o barulho foi crescendo, crescendo... até ficar ensurdecedor, diminuindo e aumentando de intensidade ao sabor do jogo. Desde os primeiros minutos, a surpresa pelo desempenho dos guerreiros “vermelhos” e a decepção pelo que tentava e não conseguia jogar os estrelados “amarelos”. Lola, na lateral esquerda, não tomou conhecimento da fama do Manoel Maria e o anulou, literalmente, jogando como um guerreiro imbatível, marcando forte, mas visando a bola; conseguia, ainda, aparecer no apoio. Donato, pela direita, além de inviabilizar as iniciativas do Espadim, partia resoluto para o ataque, como se fora um raio, dando imenso trabalho para Surdo e a defesa adversária. Quem foi ao Estádio para ver os grandes Amiraldo (ex-Paraense) e Pão Doce (ex-Santo Antonio de Oriximiná), foram obrigados a aplaudir Gonzaga e Rubinho, principalmente este, que resolvera substituir, com sobras, o futebol dos ausentes Cachinga e Pacu. Foi ele o maestro daquele time que jogou, naquele dia especial, ao som de uma sublime música futebolística. Na defesa, comandada por um gigante chamado Juracy, bolas cruzadas (rasteiras ou alçadas na área) e tentativas de ataques pelo meio, foram frustrados quase sempre, nos poucos ataques levados a efeito pelos estrelados. Os raros, porém perigosos tiros de Arapixuna, Espadim e outros mocorongos, encontraram um João Cabeça firme e, também, bastante inspirado... Maravilhoso toque de bola, desconcertantes e belos dribles de Zezinho, Merunga e Bicho, perfeito meio de campo, defesa segura e uma atitude de seriedade e determinação, desbarataram o esquema tático de jogo do até então invicto esquadrão mocorongo. O zero a zero do primeito tempo não espelhou a realidade dos papéis invertidos: Óbidos no ataque, com um futebol objetivo, e Santarém mais na defesa, na tentativa desesperada de não tomar gois. No segundo tempo não houve a esperada reação fora do comum dos estrelados mocorongos e Óbidos continuou a mandar no jogo, todavia, já com um certo equilíbrio de ações, uma vez que os santarenos jogavam muita bola. A torcida, satisfeita com a grande partida, jamais assistira, até então, tantas jogadas bonitas e um excelente futebol praticado pelas duas grandes equipes, mormente pelo time da Casa. Felicidade pura: por volta dos quarenta minutos, Rubinho lançou o sensacional Zezinho que, com muita calma e abusada categoria, driblou três adversários e venceu Surdo com um chute rasteiro e colocado junto ao poste esquerdo da meta. O grande goleiro olhava, estupefato, a bola no fundo das redes. Goool de Óbidos!... na baliza que ficava na frente do Quartel, enfeitado com bonitos benjaminzeiros que balançavam pelo efeito dos bons ventos e do uníssono grito da torcida obidense saudando a grande vitória. Dali a instantes, o apito final. Placar justo – conforme analisou o comentarista da Rádio Rural – pelo tamanho do que jogou Óbidos, naquela tarde, e pela grandeza daquele timaço santareno. Lá, como cá, afiança um caboclo que assistiu ao jogo, nunca mais se conseguiu formar seleções como aquelas que mediram forças no embate das décadas...
Como num tiro de meta, chuto para longe a modéstia e orgulhosamente posso dizer: Eu estava lá, dentro do campo e jogando contra aquelas feras. E, se já fui feliz algum dia, nesta vida, o fato foi testemunhado pelos componentes daquela inesquecível torcida.
Com as mãos trêmulas – as quais não tremeram naquela tarde – encerro as palavras da privilegiada lembrança, quase escondidas pelas lágrimas que mancham a tinta vermelha da caneta, no azul celeste do papel no qual foi escrito esta história.
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Belém (PA), 21 de setembro de 2008 João Cabeça, digo João Imbelloni
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