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João Imbelloni 22/06/2007 |
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Retalhos (IV): O Pirata Ele mesmo considerava-se “pissiquento”; até quando saía de casa para dar umas simples voltas pelas ruas da cidade, rogava à Senhora Santana para que o protegesse dos males, amém. Dizem muitos que ao nascer, a parteira - dona Peteté - o deixou cair na hora da “palmadinha” e a robusta criança quase morre com poucos minutos de chegada a este mundo. Poucos anos depois do inusitado nascimento pegou paralisia infantil e o detestado apelido de Pirata foi em decorrência do uso de muletas desde tenra idade. Na grande cheia de 1953, moleque traquinas, quase morreu afogado nas águas que invadiram a rua da frente de Óbidos, em virtude de um tombo quando zanzava sobre frágeis estivas em pleno folguedo infantil. Adolescente ainda foi estudar em Manaus, onde cursou o ginásio, mas teve que regressar antes do término do científico, depois de um atropelamento que sofreu quando se dirigia para o colégio; as muletas o atrapalharam na hora de fugir do ônibus que subiu na calçada e o apanhou violentamente. Depois de meses internado num hospital público, voltou para a cidade natal buscando a total recuperação junto à família; recuperado, nunca mais retomou os estudos, para desespero dos seus pais, os quais não mediam esforços para vê-lo num lugar de destaque. Inteligente, foi aprovado num dos concursos do Banco do Brasil que lhe negou a posse, alegando a incapacidade física, fator limitante, naquele tempo, para acesso ao serviço da Instituição. O Senhor Filgueiras, seu pai e antigo funcionário do Banco, nada pôde fazer em defesa do único filho. Edson Filgueiras, alcunhado de Pirata, muito forte da cintura para cima e gozando plena saúde, jamais demonstrou qualquer complexo com referência às muletas que usava com desenvoltura. Acompanhava os companheiros nas festas e aventuras noturnas regadas com a saborosa cachaça e as geladas cervejas do Bar Andrade. Era muito solicitado para cantar nas serenatas realizadas nas madrugadas enluaradas e sem a concorrência da luz elétrica. Dizia-se poeta e compositor; para tristeza dos pais, afirmava convicto: Como é bom ser “vagabundo”! ... O problema era a “pissica”. ... Naquela noite de julho, Bar Andrade lotado, Mário, Hermógenes e outros declamavam e cantavam, para satisfação de poucos e queixas de muitos. - Então, meu jovem, hoje não nos brindarás com nada? A voz de Hermógenes já sentia os efeitos das várias cervejas ingeridas ao longo do dia. Todo sábado era assim, principalmente no mês da festa da Padroeira.
- O fato aconteceu comigo e já transformei em música;
vamos lá! – Pirata começou a cantar: Em seguida, emocionado, declamou um dos muitos poemas de sua autoria:
Desabafo:
No frio Curuçambá, corrente ligeira,
Nos sagrados muros do velho forte,
Do cume da torre da Matriz, Ao notar a presença da sua professora do curso primário, fã de poemas, Pirata emendou: - Em homenagem à professora Ana, lembrando suas aulas de Português:
Verbopoemando:
Eu ofendi
Não perdoei
Eu sofri
Eu lamentei - És muito triste, porém, com muito talento. Não mereces tanto sofrimento – exclamou Mário com lágrimas nos olhos. - Não tem importância seu Mário. O que posso fazer? Pirata, aparentando raro momento de profunda tristeza, dirigiu-se para a rua. Pretendia ir embora ... Plaft! ... foi atropelado pela bicicleta do Bené Fotógrafo que o atirou contra a calçada, ferindo-lhe a cabeça. Enquanto recebia o necessário curativo das mãos da bondosa enfermeira Dona Zureta e fitando o teto do ambulatório da Santa Casa, Pirata queixava-se ao Bené Fotógrafo, que o acudira: - Não agüento mais esta vida; quando menos espero .. lá vem a “pissica” me aporrinhar! - Se quiseres, mas tens que ter fé, sei como podes te livrar dela. - Como? Faço qualquer coisa. - Amanhã bem cedo, por volta das cinco horas, aguarda por mim na frente da tua casa. Não deixas o teu pai perceber. No dia seguinte, na hora marcada, Bené Fotógrafo apareceu. - Vamos, meu amigo, o teu dia de sorte chegou. Seguindo-o na direção da estrada grande, Pirata não agüentava de curiosidade, contudo, mantinha-se calado. Por volta das sete horas, suados e sujos graças à mata fechada, chegaram num limpo terreiro de uma tosca barraca. - Olá! Alguém em casa? Sou eu Dona Júlia, o Bené ... - Vamos entrando, meu filho, recebi o teu recado e estava te esperando. O moço é esse? - Sim, Senhora, é ele ... A mulher era muito magra e parecia não ter um só dente. Roupas velhas mas muito limpas, descalça, os cabelos amarrados na nuca, cabeça coberta por um chapéu de palha, era a simplicidade em pessoa. De marcante a sua voz; grave e ao mesmo tempo suave: - Sentem-se meus filhos. Abaixo de Deus não existe mal que as minhas ervas não cure. Para isso, entretanto, é preciso que o moço tome um banho bem preparado. - Topo qualquer coisa, volto a afirmar. O importante é a minha cura. Desde logo, com os rapazes acomodados num tronco de uma grande árvore caída, a mulher começou a colher ervas, juntando-as numa grande bacia . Algumas foram apanhadas distante da casa e o cheiro agradável de todas elas invadia o ambiente. Ao meio dia em ponto, Pirata tomou o primeiro banho dentro do preservado igarapé que passava ao fundo da propriedade, jogando sobre o corpo o produto das ervas e deixando a água corrente levar – segundo Dona Júlia – toda a “pissica” acumulada.
À tardinha, ainda em jejum e sem roupas, conforme mandava
o ritual, Pirata adentrou sozinho o igarapé, de joelhos e
com água pelo peito em face da ausência das muletas,
preparando-se para o segundo e derradeiro banho de ervas.
Dona Júlia e Bené ficaram conversando na barraca, pois o “
moço já sabia o caminho”. Olhando para as copas das imensas
árvores, Pirata admirava a privilegiada natureza amazônica
ao mesmo tempo em que jogava sobre o corpo o conteúdo da
bacia; processo propositadamente lento, visando também
refrescar o combalido corpo naquele final de tarde. Ao longe
o cantar de certo passarinho lembrava-lhe a infância e os
banhos tomados no Curuçambá, Engenho, Cipoal, Porto de
Cima, Laguinho ... Na Delegacia de Polícia Bené e a Dona Júlia não sabiam como explicar o desaparecimento do Pirata. Depois de longos dias o primeiro quedou-se em louco silêncio e a segunda continuava afirmando que o jovem fora vítima de encantamento. Estaria muito feliz, corpo perfeito e ao lado da cobra grande ...O Delegado insistia nos diários interrogatórios. Não desistiria facilmente. O soldado Arquimedes, escrivão “ad-hoc” e caboclo da região, exclamava de quando em vez: - Cobra grande! ... Será? Incessante pipocar de foguetes acordou todo mundo na Delegacia, inclusive o Delegado Tempo Feio. Era o alvorecer do dia 26 de julho do ano de 1966 e o início da grande Festa da Padroeira Nossa Senhora Santana ... OBS: FICÇÃO João Imbelloni |
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