João Imbelloni                                                                             23/03/2008

Retalhos (XVII):  IDOSO?

 

Neste ano completarei sessenta e dois setembros e estarei muito próximo da idade determinante da velhice (sessenta e cinco anos), segundo estudiosos do assunto. No entanto, a Organização Mundial da Saúde elevou  esse limite para setenta e cinco anos, levando em consideração “o aumento progressivo da longevidade e da expectativa de vida” (acredito que somente em privilegiadas regiões do Mundo, excetuando-se, é claro, alguns brasileiros, principalmente nordestinos e caboclos, frutos de diferenciadas ocorrências).

 

Onde devo me situar perante sábias deduções? Agarrar-me-ei na segunda hipótese, por pura vaidade e um pouquinho de hipocrisia.

Aliás, muitas vezes a hipocrisia leva-nos a afirmar que a proximidade da velhice é uma coisa muito boa, o supra-sumo da experiência sentada no trono do alto das rugas e dos brancos cabelos, inspirando veneração, respeito, acumulado saber, prudência e reflexão. Fugimos, porém, do espelho-aviso dos prenúncios; ninguém, em sã consciência, aceita “ser idoso” com tranquilidade, felicidade e resignação. (O tempo é - mesmo - o senhor da razão?).

 

Ainda sem completar a idade determinante, agarro-me à esperança de lá chegar muito forte, longe das mazelas e características da tradicional velhice. Confio na férrea herança da hereditariedade das raças que forjaram os caboclos que vieram a ser os meus pais. Jamais fumei, não sou sedentário e há muito me tornei abstêmio. Para me marcar, lembrando-me, todavia, a cruel fragilidade, quase desencarnei  em decorrência de grave enfermidade que não atenta para a idade cronológica dos pobres humanos.

Observo, também, com muita tristeza, que o envelhecimento sofre a mais acentuada forma de discriminação. Ela ganha disparada de todas as demais, muito embora exista o inabalável sonho do cumprimento das leis em vigor que ainda “não pegaram” neste País das impunidades ... e das cotas para os preguiçosos e despreparados.

Quando o temor da velhice se aproxima, apego-me à esperança de que a gerontologia progrida cada vez mais e a geriatria minimize as cardiopatias e problemas vasculares, as disfunções neurológicas e os familiares reumatismos que tanto afligem os idosos. Consolo-me ao ler que “o envelhecimento é um processo natural e inevitável, mas pode ser vivido em melhores ou piores condições. A gerontologia é capaz de prescrever procedimentos preventivos no que se refere à saúde física e mental do velho”. Que “não há uma idade universalmente aceita como o limiar da velhice”.

 

Com o apoio do meu travesseiro e no silêncio da noite, analisei, friamente, o cipoal que tentava desenrolar. Entre os prós e contras que se me apresentaram, encontrei detalhes que aumentaram o embasamento da minha quase convicção de que só a hipocrisia admite que a velhice é a derradeira felicidade, respeitando, não obstante, as opiniões em contrário.

 

Solicitados a darem suas opiniões a respeito de tal conclusão, assim se manifestaram alguns amigos:

 

* Zeca Maia (62 anos), dando de ombros, repetiu a famosa palavra que usa toda vez quando tem dúvidas a respeito de alguma coisa:

- Será?  Em seguida acrescentou:

- Acho que devemos transformar nossos maduros momentos, cada vez mais, num somatório de experiências, sem a mínima intenção de mudá-los, pois é humanamente impossível deter o tempo. Ele é imutável e, por nossos méritos, poderá ser bom ou ruim. Daí, cabe a nós mesmos a busca por uma melhor qualidade de vida, em qualquer idade.

 

* Professor Osório (72 anos), ensinou:

- Não se pode resistir ao tempo. Embora caiba a luta, todos os seres vivos sofrem o processo biológico do envelhecimento. Os órgãos, as células, os organismos, tudo sofre o desgaste, a degeneração progressiva que leva à morte, ao recomeço ...  Conformemo-nos, pois, com as rugas, os cabelos brancos e as gradativas perdas da elasticidade, do viço da pele, da força muscular, da agilidade, da mobilidade das articulações, etc. Some-se isso à deterioração da inteligência e a ameaça à atividade sexual, a qual, porém, mesmo diminuindo, pode ser mantida com mais qualidade e, indefinidamente, por pessoas saudáveis fisicamente (Ah, bom ...).  Deve-se atentar – além das mudanças físicas – para as mudanças psicossociais, funcionais e sócio-econômicas ... 

 

Conversando, via telefone, com o compadre “Mané Tiririca” a respeito do assunto, pois o mesmo, em que pese já ter passado dos setenta, esbanja jovialidade e vontade de viver alheia a tal preocupação, falou-me com toda serenidade, “balançando” a minha opinião até aquele momento:

 

- “Cumpadi! Num intendi patavina do que o Sinhu falu. Agora, se o Sinhu qué vê uma cusa sem expricação e não sentí o tempo passá, pur favur, cumpra a sua palavra e venha murá aqui em Óbidos” ... (O Bem para todos os males).

 

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João Imbelloni

 


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