João Imbelloni                                                                              08/06/2007

Retalhos (II):  O  Macho

 

Naquele belo final de tarde de verão estava ela, raro momento, sentada na tosca cadeira assistindo, extasiada, ao inebriante pôr-do-sol. Banho demoradamente tomado com sabão de cacau para afugentar o calor e exalando a forte fragrância do perfume barato concentrava-se, agora, no fenômeno, quando os últimos raios de sol pareciam mergulhar nas barrentas águas do rio Amazonas. A casa, bem no alto e na margem do grande rio, proporcionava a invejável visão do grande espetáculo da natureza. Tentava Maria Joana, este o nome da cabocla, ofuscar os pensamentos que buscavam, desesperadamente, soluções para os diários problemas que o duro trabalho apresentava àquela cabocla obidense, magérrima e com o bonito rosto já marcado  pelo inexorável tempo. Viúva há mais de quinze anos e com o casal de filhos trabalhando na Zona Franca de Manaus, vivia sozinha naquela lonjura; às vezes, isso ela não dispensava nem escondia de ninguém, sentia a falta de uma companhia para amenizar a solidão mas tomava o cuidado para não ser “nada sério”. Preferia os furtivos encontros com algum parceiro ocasional pois jamais aceitaria, desconfiada como era, trazer alguém para compartilhar a casa, a plantação, o “gadinho” e, principalmente, a privilegiada Fazenda Bom Retiro tão cobiçada por muitos, a qual, no entanto, pensava em deixar para os filhos queridos após a sua partida para o outro mundo.

 

De repente, trazendo-a para o mundo real, lascivamente, a língua de Bob, tão quente e molhada percorreu uma de suas pernas e desceu aos cansados pés, como se fora um bálsamo reparador para aliviar as dores oriundas da longa caminhada do dia findante.

 

Encarando-a com o olhar suplicante, bastante amoroso, Bob não precisava falar para expressar o que sentia ... o que queria.

 

A cabocla, antes absorta, agora prestava especial atenção ao apelativo “trabalho” do belo macho que jazia aos seus pés, felicíssimo pela expectativa do esplendoroso momento que se anunciava.

 

Sabia ela que Bob, naqueles momentos, jamais se lembrava das muitas companheiras que com ele dormiam, inclusive a jovem e linda Suzie que, recentemente, descansara de tumultuada gravidez. Ele não amava ninguém; interessava-se apenas pelo puro e irracional sexo.

 

De maneira selvagem e cortando de uma vez por todas quaisquer pensamentos, Bob mordiscava e lambia com sofreguidão a barriga da passiva cabocla, almejando alcançar o mais breve possível o objeto dos seus desejos ...

 

Diante do irresistível apelo Maria Joana capitulou. Carinhosamente desvencilhou-se de Bob, a essa altura sentado em seu colo e, apressadamente, foi buscar a ração preferida do faminto cachorro ...

 

 

Obs: FICÇÃO

 

João Imbelloni

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