João Imbelloni                                                                             15/09/2007

NATALÍCIO

1)  Amor Felino

Hoje completam exatos sessenta e um setembros que cheguei a este Mundo. Na solidão da minha toca, sei perfeitamente que – por exclusiva culpa minha – mais uma vez estarei só, passando um diferenciado aniversário. Quem sabe um cumprimento do meu vizinho-cricri-amigo Zeca Maia, que ainda ontem me dizia:

- Quem planta colhe! Vives assim porque és teimoso. Eu não aceito a tese de que Deus trocou a tua necessidade de viver com alguém, pela capacidade de seres poeta. Deixas as tuas manias, pois não és mais um jovem para aguentares tantos e imensos trancos. Preocupo-me com a possibilidade de que possas morrer sozinho ... A qualquer momento.

Respirou fundo e mandou:

- E não enguli também a última estória que aconteceu contigo. És um abestalhado, posudo e metido a viver sozinho, lendo e escrevendo; ainda mais se ganhasses dinheiro com isso. Que vida, meu Deus! ...

 

Quanto absurdo. Não vivo tão sozinho assim. Existe um anjo que, pontualmente, das 18:00 às 22:00 horas, diariamente, além de fazer-me companhia, cuida das minhas muitas mazelas, lava a minha pouca roupa e coze algum alimento que por ventura tenha na casa. E as gratas presenças de Ava e Aparecida? Aliás, foram elas as culpadas do último acontecimento lembrado por meu vizinho. Dentre dezenas de acontecimentos que me levaram à quase total solidão, abordarei apenas o último, como exemplo do que acontece com quem é feliz vivendo no “mundo da lua”, como afirma Dona Michelle, a esposa do Zeca Maia:

 

Dias atrás, a minha filha mais velha, bondosa e preocupada comigo, talvez com o apoio dos seus irmãos, falou-me com autoridade:

- Eu lhe ajudo, pagando o aluguel do kit-net que o Senhor mora. Agora, também, quero ajudar a minha mãe, pagando a ela esse aluguel, ao invés de pagá-lo para quem não conheço. Prepare-se! O Senhor vai mudar para um dos imóveis da Madame Izamanda, localizado no centro e pertinho de todos nós que lhe queremos bem. E tem mais. O Senhor e a mamãe estão ficando velhos (que Madame não leia isto) e, mais próximos, um poderá ajudar o outro. Lá, também, poderei ajudar o Senhor a melhorar a sua sofrível e pouca alimentação ... É um antecipado presente de aniversário!

A priori, achei tudo ótimo. Falei com o dono do kit-net e marquei a mudança para daí a poucos dias, no dia primeiro deste mês do meu aniversário ... (Com certeza haveria alguma festinha, pois, a minha filha, Madame e muitas pessoas queridas, estavam, de fato, felizes com a perspectiva da grande melhora de minha qualidade de vida.)

 

Na véspera da mudança o impasse. Ava e Aparecida não seriam acolhidas no novo endereço, quer pela localização e pequeno tamanho do kit-net, quer pela não aceitação das mesmas pelos queridos familiares e vizinhos.

Constrangido, triste e perdendo o apoio da querida filha e afins, permaneci no antigo abrigo. Não houve a mudança ...

Zeca Maia e outros amigos não entenderam. Como perder uma excelente oportunidade de voltar a conviver bem próximo dos queridos familiares, simplesmente pelo amor (inaceitável para muitos cegos) dedicado às felinas que já fazem parte da minha vida?

 

O aluguel de setembro e os futuros, serão por minha conta ... A comida será a de sempre.

 

De repente:

- Feliz aniversário!

 

Não falei? Era o meu vizinho de braços dados com sua esposa e acompanhados pela bela prole.

- Como o Senhor não tem mesmo aonde ir, ficaremos felizes se aceitar o nosso convite para almoçar. Esperaremos pelo Senhor às 13:00 horas.

 

2)  Felina Paixão
 

Dia 05/09/07 – 22:35 horas

 

A mensagem no meu celular chegou de surpresa:

- Estou na tua cidade. Vim participar de um treinamento sobre ...

Imediatamente respondi:

- Como faço para falar contigo?

- Amanhã permanecerei no treinamento durante todo o dia; depois das 18:00 horas estarei livre. Hospedei-me no Danúbio Hotel.

- Após as 18:00 horas irei ao teu encontro.

- Vem! Quero te dar um presente antecipado (já ouvi isto antes) , pois estarás aniversariando no dia 15, não é mesmo? É um presente inesquecível ...

Não durmi naquela noite. Pensava só no encontro do dia seguinte; não acreditava, ainda, que Rosa-Flor, de surpresa, retornara á minha vida. As cinzas apagadas pelo tempo e acumuladas no velho coração, começaram a sentir o eterno vento da esperança e não demorou muito para se transformarem  em fogo. A antiga paixão voltava com toda força ...

 

Dia 06/09/07

 

Após a rotineira caminhada, quando tentei por em ordem os meus dispersos e loucos pensamentos, corri para o escritório onde permaneci na cruel ansiedade da chegada das 18:00 horas. O Danúbio Hotel ficava bem próximo.

Para ajudar a passar o tempo – não conseguia trabalhar – comecei a ler as manchetes do Liberal e, não sabia o porquê, dei especial atenção à notícia referente à greve dos motoristas e cobradores de ônibus de determinadas linhas.

Impaciente, não tirava os olhos do relógio, tanto que Adilton, companheiro de trabalho, observou:

- Algum problema? A tua intranquilidade está na cara.

- É que sou ansioso, principalmente quando se trata de certos acontecimentos.

Almoçamos no escritório. Ele ... Não consegui engolir nada mais do que cafezinho e água.

Por volta das 16:30 horas o meu irmão chegou. Nervoso como sempre, explicou-me: Temos uma reunião urgente às 17:00 horas, com aqueles clientes que estão dispostos a trabalhar conosco. Vamos rápido, pois eles estão nos aguardando lá no bairro da Marambaia.

O motorista, fazendo verdadeiro malabarismo no trânsito congestionado de fim de tarde e véspera de feriado, levou-nos à importante reunião. A mesma iniciou cerca de quinze minutos depois da hora marcada e se extendeu até próximo das 19:10 horas.

- Agora nos vamos até Marituba (região metropolitana de Belém) para encontrarmos com o meu pai e, então, fecharemos o negócio. – Exclamou o principal cliente e – sabíamos todos – um simples “testa de ferro” do rico genitor.

No carro, na direção do Município de Marituba, o telefone anunciou que existia uma mensagem para eu ler:

- Já estou no hotel, ansiosa a tua espera.

Respondi desesperado:

- Motivo urgente, atrasar-me-á um pouco. Por favor! Aguarde contato.

O carro chegou ao destino por volta das 20:00 horas e o cliente, antes de assinar o contrato, “obrigou-nos” a tomar parte em um jantar de comemoração.

- Mano, já está ficando tarde e, pela tua aflição, deves ter algum compromisso em Belém. Se desejares, podes ir que eu fico aqui com o Dr. Arthur ...

Despedi-me rapidamente e caminhei até à BR, onde não demorei a apanhar um ônibus em direção à Belém. Eram 20:45 horas e o ônibus parecia se arrastar. Quando o mesmo, finalmente, chegou ao entroncamento, saltei e busquei tomar outra condução até ao centro e ao Danúbio Hotel. Por volta das 22:15 horas, fiquei sabendo por outras pessoas que enfrentavam o mesmo problema, que os ônibus não estavam circulando em direção ao centro. Era a greve. Para piorar, nenhum transporte alternativo, nenhum taxi salvador, nada. Véspera de feriado ...

Às 23:15 horas, decidi caminhar em direção à minha residência, onde cheguei por volta da meia noite e meia. Antes, havia mandado a seguinte mensagem:

- Graves motivos me impediram de chegar até aí. Explicar-te-ei tudo amanhã. Boa noite!

 

Dia 07/09/07 – 06:30 horas

 

Com o carro à minha disposição mandei a seguinte mensagem:

- Bom dia! Estás de folga no feriado? Poderemos nos ver, afinal?

Silêncio ...

 

                          06:40 horas

 

- Insisto. Poderemos nos ver?

Silêncio ...         

 

                           07:00 horas

 

- Algum problema?  Vou até aí agora mesmo.

Enfim, a inesperada resposta:

- Já estou na estrada, próximo à Tailândia. Saí de Belém às 04:30 horas. O Treinamento foi só por um dia ...

Reuni as últimas forças para digitar a derradeira mensagem:

- Que pena! Mas não desistirei e muito em breve chegarei aonde estiveres. – O que mais poderia dizer?

Terminado estava o sonho de vê-la novamente, depois de muitos anos. Até agora me faço uma pergunta tão incômoda. Por que não falamos diretamente ao invés de nos limitarmos a trocar curtas e frias mensagens? Seria a emoção?... Segunda-feira, eu juro, ligarei para falar com ela. Chega de mensagens ...

 

Dia 15/09/07 – 12:30 horas

 

Ao me dirigir para a casa do meu vizinho, tentava ser duplamente feliz. Teria um lugar para o almoço do meu aniversário e a promessa, na minha mente (feita no dia 10), de me encontrar com Rosa-Flor, no próximo mês. Quem sabe ganharei, finalmente, um inesquecível presente. Extemporâneo mas único.  O sonho retornou ...

 

Aonde foste peregrina Rosa-Flor?

Em que jardim agora estás?

Só peço que jamais esqueças

do velho jardim, tua origem e paz....

 

x.x.x.x.x.x.x.x

 

 

Obs.:  10% - Ficção

            90% - Sofrimento

 

Belém, 15 de setembro de 2007
         
          João Imbelloni

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