João Imbelloni                                                                                                23/12/2010

O EMBATE DA SAUDADE (IV)

 

Era uma tarde de um sábado, mês de julho, festa da Padroeira. Não sei precisar qual o ano de quase final daquela década (60) maravilhosa do futebol obidense... Uma história – embora verdadeira – toldada pelo devaneio nostálgico e uma pitada do sal da ficção poética.  Ao escrever neste domingo de recordações, tento homenagear uma geração de grandes homens, bem como uma época sublime perdida no tempo.  Julgo não ser importante, mas peço perdão pelo possível esquecimento e natural troca de nomes dos personagens desta simples, porém mais uma história marcante.

Tudo começou por iniciativa do saudoso Antonio Silva, o Lobão, conceituado funcionário do Banco do Brasil. Transferido da agência de Óbidos para Altamira e depois para Parintins (AM), jamais se esqueceu da Cidade Presépio e, em qualquer oportunidade, visitava o inesquecível Torrão.

Desportista e muito influente na Cidade Tupinambarana, lá constatou a prática de um iniciante e futuroso esporte, denominado futebol de salão (hoje Futsal), tomando logo a iniciativa de tentar promover uma partida Parintins X Óbidos, na Terra Pauxis, visando à divulgação da grande novidade.

Buscando apoio de outros desportistas parintinenses conseguiu o patrocínio para levar até Óbidos o selecionado de futebol de salão da cidade amazonense e nossa irmã regional. A mesma era formada pelo fenomenal goleiro Guido, Cathu, Gilberto, Eraldo, Jovino, Augusto, Noca e outros brilhantes craques que o tempo, infelizmente, apagou por completo da minha cansada mente. O que importa dizer, todavia, é que se tratava de uma equipe espetacular que se propunha a “ensinar” o novo esporte pelas vizinhas cidades, com destaque para Óbidos, em virtude do prestígio e liderança de Antonio Silva.

Marcada a data do jogo com alguns dias de antecedência, Sinval Dias, Ary Ferreira, Zezé Ferrari e outros abnegados desportistas obidenses, responsáveis pelo Time Pauxis, tinham muitos problemas. A começar pelo básico: em nossa Cidade, naquela época, sequer existia uma bola de futebol de salão e um único par de tênis especial para a prática do esporte. Alguma pessoa, no entanto, providenciou a vinda de outras plagas (Belém?) de duas bolas pesadas do novo esporte, assim como dos tênis, igualmente indispensáveis. Essa pessoa gastou um bom dinheiro naquele tempo de muito amor pelo futebol obidense.

Se não estou enganado, mais uma vez o Renato Martins, juntamente com alguns jogadores principais do “futebol de campo”, informaram-se e aceitaram o desafio para “armar” uma equipe, dentro das possibilidades, uma vez que nenhum jogador obidense conhecia, na prática, o novo esporte.

Tudo planejado, onde seriam os treinos e o jogo?

Para felicidade de todos existia a visão de futuro da direção e dos alunos da Escola Profissional São Francisco. Não é que ali, embora sem cobertura e no puro cimento, havia uma quadra para a prática do futebol de salão, dentre outros esportes? Os membros daquele estabelecimento praticavam rudemente a novidade com qualquer tipo de bola. Até a de seringa, alguém se lembra?

Cedida a quadra pela direção da Escola, a seleção obidense começou a treinar. Não preciso dizer que, mesmo diante das naturais dificuldades, o sangue pauxis – testado nas artes e no esporte – sobrepujou o desconhecido e, por consenso, chegou-se a uma forte equipe. Muitos não se “aclimataram”, contudo, com a novidade. Juracy, Bicho, Olívio e tantos outros, não quiseram participar, do que seria, para eles, uma intempestiva aventura e a ameaça de uma vergonhosa derrota.

Como toda novidade, o assunto ganhou às ruas da pequena cidade, resumindo-se tudo nas categóricas palavras do Sabá Bucheiro:

 

- “Disque vão jogar de sapato, no cimento, com uma tar de bola du tamanho du culhão de um boi. É invencionice do seu Lobão, cumpadre Chico”...

- “Paresque um futebor de dança no salão!”

 

Naquela tarde um bom público apresentou-se na Escola Profissional São Francisco. Como inexista arquibancada, arrumaram-se os desconfiados torcedores, de qualquer maneira, em redor da quadra, contidos somente por improvisadas cordas, a guisa de alambrado.

Todos olharam admirados quando os jogadores da seleção parintinense adentraram no recinto tão simples, mas, naquele instante, como se fora um palco de iminente grande espetáculo. No bate bola dos rubro-negros, com chutes para as defesas do goleiro Guido, surgiram os primeiros e empolgados aplausos. Diferente um pouco, mas era, aos olhos da torcida, o velho futebol de sempre.

Com o uniforme azul-celeste do Mariano Futebol Clube, a seleção obidense, indiferente à natural desconfiança, ingressou na quadra com a seguinte constituição inicial: João Cabeça; Gonzaga e Edmar. Merunga e Tibinga Branco. No banco, se não me engano, Canela, Pacu e Coruja, que formaram com mais dois jogadores, um quinteto à altura dos ditos titulares.

O árbitro parintinense autorizou o início do jogo por volta das dezessete horas. Inicialmente “só deu Parintins”, todavia, preocupados em dar espetáculo, os parintinenses tocavam em demasia a pequena bola, dando oportunidade para que os obidenses, aquecidos e incentivados pelo público, mostrarem que queriam jogo e não seriam meros coadjuvantes...

No primeiro violento chute do Eraldo contra o Cabeça, gol de Parintins. O Edmar, imprudentemente, deixara passar a bola sob os seus pés, gritando, como se fora no futebol de campo:

- É tua, Cabeça!

Encabulados, os aprendizes olharam para os companheiros e pediram desculpas, porém, o aparente início do desastre, funcionou como incentivo para uma inesperada reação.

Não fosse a categoria do goleiro Guido e da coesa equipe parintinense, Óbidos teria empatado a peleja logo em seguida, através do surpreendente futebol pesado aprendido em poucos dias de treinamento.

O Time visitante tratou logo de tentar jogar tudo o que sabia, chegando ao segundo gol (Cathu) pouco antes do encerramento da primeira parte do jogo. Com a valorização da inesquecível partida pelo empenho e categoria dos Pauxis, até o Sabá Bucheiro e o seu irmão Chico Preto, descontentes de toda hora, gritavam e batiam palmas para lá de satisfeitos. O jogo estava empolgante e prometia muito.

Logo no início dos vinte minutos finais, a temida canhotinha de ouro do Gonzaga acertou a pelota em cheio. Guido mostrou-se espantado. Do meio da quadra Gonzaga o vencera, não o deixando nem esboçar um gesto de defesa: 2X1. Aí o jogo “pegou fogo”, como diria depois o Dadá Barbeiro. Não se sabia, de fato, qual era a seleção renomada e a pretensa aprendiz. Cabeça, Gonzaga e o Edmar resolveram jogar como veteranos daquele esporte. Merunga e Tibinga levavam de roldão a defesa adversária, tanto que aos sete minutos, em bela “tabelinha” com Merunga, Tibinga empatou o jogo, atirando sem apelação na cara do goleiro parintinense: 2X2.

A onça encarnada e preta, cutucada com vara curta, reagiu. Em belíssimas jogadas, as quais, mesmo vendo de dentro do campo de jogo, não se consegue descrever, marcou duas vezes em poucos minutos: 4X2.

Os gritos do Renato Martins, Sinval Dias, Antonico, Renato Viegas e da torcida, mexeram, outra vez, com os brios dos cansados obidenses. Ao tomarem o quinto gol (5X2), ao invés do abatimento cresceram na partida e, com o revezamento permitido aos atletas, os revoltados alunos partiram para cima dos mestres. Coruja, o endiabrado, por duas vezes, e o oportunista Tibinga, obrigaram o professor Guido a buscar a bola no fundo das redes: 5X5.

Na pequena trave, tendo em volta tantos irmãos obidenses, felizes com o nosso grande esforço, senti, tal como em outros embates esportivos ou não, o imenso orgulho de ser obidense. Os ferimentos provocados pelo duro cimento e os machucados dedos foram esquecidos naquele momento, no supremo esforço de defender o sagrado Torrão... Mesmo numa singela quadra da Escola Profissional São Francisco.

Ouso afirmar que aquele árbitro terminou o jogo quase dois minutos antes do tempo regulamentar. Ele atendera, segundo o testemunho de um grande público, a um acintoso sinal do Lobão que, estupefato, assistia ao bombardeio sobre o grande Guido, o qual, com certeza, sofreria outro gol a qualquer instante.

O resultado, contudo, embora decretando o empate entre “professores” e “alunos”, foi o mais justo, pelo desempenho de todos os jogadores ao longo do memorável primeiro jogo de futebol de salão na cidade de Óbidos.

Tantos anos passados. As fortes e firmes mãos do goleiro de outrora, hoje claudicantes, obedecem à cabeça do Cabeça e, saudosamente, encerram o presente escrito, com a convicção de que o nosso Município – não só no esporte – é muito grato aos incansáveis Barrinho, Antonico, Miguel Venâncio, Ary Ferreira, Zezé Ferrari, Renato Martins e o Doutor Fé, aqui representando todos aqueles que já partiram... Deixando o grande exemplo: “Em qualquer situação, no dia a dia, oportuno lembrar que o trabalho é o melhor remédio para nossos males”.

 

Por volta das dezenove horas deste domingo, após o fechamento deste artigo, recebi o triste telefonema anunciando o falecimento, nesta noite, do meu irmão Mauro. Que ele seja muito bem recebido no Plano Espiritual...

 

TRAJETO

 

Vida

Obstáculos

Trabalho

 

Viagem

Tempo

Solidão

 

Silêncio

Nostalgia

Tristeza

 

Lembranças

Oportunidades

Reação

 

Belém (PA), 19 de dezembro de 2010.

 

João Cabeça, digo,

João Imbelloni

 

 

 

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