João Imbelloni                                                                             09/07/2007

Reflexão nas férias:  MISTER PANNY
 

Mister Panny surgira do nada. Embora um aparente vagabundo era dono de um porte altivo e comportamento que mesmo nas pequenas coisas, como “filar a bóia”nas residências, demonstrava superioridade. Olhos claros, cabelos negros, longas pernas sustentando um longilíneo corpo e uma cabeça e rosto muito bonitos. Verdade era que fazia muito sucesso junto à Comunidade.

- É gringo! Paresque que desceu de um navio estrangeiro. - Explicava Dona Mariazinha, a sabichona da Cidade.

- Eras! ... Como ele é diferente. Acho que é cigano. – Acrescentava a comadre Filomena.

 

Não se importando com os comentários e fofocas tão comuns numa cidadezinha do interior da Amazônia, Mister Panny levava sua estranha e calma vida.

Flagrado em plena rua, “fazendo o que não devia” com uma companheira de infortúnio, foi ameaçado de expulsão pela conservadora localidade, em decorrência das reclamações do Clube das Mães.

- Onde já se viu! Na frente de todo mundo. – reclamava a Presidente, Dona Rosicléia Santos.

O marido da Dona Mariazinha, o cearense Tonavez, ameaçava-o de morte:

- Apago esse vagabundo e jogo o corpo no Amazonas.

- Estou com o Senhor, compadre. – bradava Zé Miguel Printes, o Presidente da Câmara de Vereadores.

 

Diante de tanto “blá-blá-blá”, atendendo ao pedido do Padre Nazareno, Atanagildo Moreira, Prefeito da Cidade e ferrenho defensor dos desamparados, acolheu o “maior abandonado” em sua própria casa, pelo menos até encontrar outro abrigo para Mister Panny.

 

No seu canto, o protegido do Prefeito, como ficara conhecido, demonstrava total desinteresse pelos assuntos da coletividade, normalmente abordados nas habituais reuniões na casa do Chefe do Executivo, com a presença dos “figurões” do local.

 

- Mister Panny, você é testemunha da minha total dedicação ao povo deste Município. Sou diferente desses ladrões que existem por aí, assaltando os cofres públicos. – desabafava o bom homem.

- Desde que assumi este Cargo, todos os meus esforços são concentrados em prol do meu querido povo, tão esquecido por outras administrações ...

 Mister Panny ouvia tudo em silêncio. Mas estava pensando, mesmo,  na hora do jantar que se aproximava.

- Você tem acompanhado, junto a mim, todos os assuntos abordados pela televisão nos últimos dias. Dá vontade até de vomitar ao ficar sabendo da corrupção generalizada que parece zombar de uma Justiça compromissada, assim parece, em soltar as nojentas figuras presas pela Polícia. Os meus companheiros de Partido dizem que eu sou um tolo em ser honesto, quando o exemplo vem de cima, de membros dos governos (Estaduais e Federal), do Congresso, dos Tribunais. Graças a Deus ainda há a grande parte não podre de políticos e magistrados, onde estou honradamente incluído.

Quanto mais falava o Prefeito, mais o calado ouvinte sentia fome. Ficava impassível diante de qualquer assunto.

- O Jornalista Augusto Nunes afirma que ao contrário do que diz o Presidente, estamos na Era da Mediocridade. O homem, diz ele,  é “bom de conversa e ruim de serviço; detesta reuniões de trabalho ou audiências com ministros das áreas técnicas. E escapa sempre que pode do expediente no Palácio do Planalto”. Também não concorda o Jornalista quando o Companheiro se compara ao Presidente Juscelino: “O pernanbucano de Garanhuns é um bom político. Pensa nas próximas eleições. O mineiro de Diamantina foi um genuíno estadista. Pensava nas próximas gerações”.

 

Quando Mister Panny achava que o Prefeito terminara com o discurso, ele arrematou:

 

- Você sabia que todas as mortes são causadas pela ganância desenfreada de quem já tem muito? Confesso, só a você, que tenho medo de enfrentar esses madeireiros e fazendeiros que vieram de tão longe aporrinhar as nossas vidas. E esses movimentos, ditos sociais? E as ONGs, loucas da vida para conseguirem o meu apoio? Apoiar o quê, meu Deus! Faço muito em não roubar, mas, denunciar os poderosos, aqui para nós, nem pensar; tenho família e amo a minha vida ...

O Prefeito falou, ainda, do péssimo tempo que levou a maior parte da produção agrícola para o ralo. Queixou-se do valor do Dólar que, segundo ele, prejudicava as exportações dos amigos-empresários da região ...

Finalmente, levantando-se sem ligar para o completo desinteresse do Protegido, falou para (agora, sim!) um interessado ouvinte:

- Vamos jantar!

 

Certo dia, preguiçoso domingo, alguém bateu palmas na porta da residência, na hora do café da manhã na casa do Atanagildo Moreira.

- Até neste santo dia não me deixam em paz! – reclamou o Prefeito.

Antes que Mister Panny se levantasse, o homem acrescentou:

- Acho que são problemas ...

À porta, uma velha senhora, aparentando ser mais uma das muitas pessoas pobres artendidas pelo Prefeito, trazia estampado nos olhos suplicantes, o seu desespero:

- Pelo amor de Deus! Salve o meu filho, Senhor Prefeito.

- Acalme-se! Entre e sente-se aqui.- mostrou uma cadeira.

- Maria, ó Maria! Traz, por favor, um copo de água com açúcar para a Professora Mercedes.

Mais calma, olhando tristemente, ora para o Gestor, ora para o famoso e impassível Mister Panny, a mulher, finalmente, falou:

- Seu Prefeito, o meu filho foi preso e espancado porque furtou uma lata de leite em pó, lá no Supermercado dos Pereira. As crianças estavam, melhor, estão com fome e ele, por desespero, tentou furtar. Foi agarrado pelo segurança “Diabinho”, o qual bateu muito nele, antes de entregá-lo à Polícia.

- Fique aqui, procure se manter tranquila, pois eu vou até à Delegacia verificar como posso resolver o problema. Acalme-se, por favor!

 

O Prefeito saiu e a nervosa mulher, desabafando, começou o falatório, mais para si mesma, diante do silêncio do hóspede da casa.

- Mister Panny, Mister Panny! O meu filho furtou uma lata de leite e está preso. Todo dia a gente fica sabendo que muitos políticos e outros personagens roubam milhões e milhões e ao invés de cadeia, gozam de regalias e gordos salários. O meu vizinho, Seu Aristides, explicou-me que tudo começa bem em cima, pertinho do Presidente da República (“que nunca sabe de nada”) até aos senadores, deputados (estaduais e federais), prefeitos, vereadores, com honrosas exceções. O meu filho é ladrão, eles são corruptos protegidos por alguns magistrados também desonestos. Disse-me ele, também, que “em 40 anos, nenhum político foi punido nos 137 processos que entraram no STF”. Tanta vergonha acontecendo e a lei só funciona para pobre que não pode pagar advogado. Falei com o Dr. Roberto, antes de vir para cá, e ele me disse que “liberaria” o meu filho se lhe pagasse dois mil reais. Como? Com o salário de Professora não posso fazer milagre. Meu marido e filhos estão desempregados e agora vejo que nunca deveríamos ter saído da roça ...

Mister Panny despertou do rápido cochilo. Sentou-se ao lado da Professora, agora instalada confortavelmente numa das poltronas da sala. A mulher continuou:

- O Dr. Roberto não gostou quando lhe disse que certos advogados, em troca de dinheiro (não importando a origem), afirmam que criminosos cruéis, alguns assassinos dos próprios pais, traficantes e outras flores da espécie, são inocentes vítimas, anjos caídos do céu... Que caras de pau! Como não tenho dinheiro, o meu filho é ladrão perigoso.

 

Algum tempo depois o Prefeito retornou.  Com o coração acelerado, a mulher indagou:

- E então? O Senhor conseguiu ...

- Vai para a tua casa! O teu filho lá se encontra e já providenciei cestas básicas para vocês. Pelo amor de Deus, não o deixa furtar novamente, pois aí nada poderei fazer.

- Obrigada! Muito obrigada! O meu coração de mãe roga a Deus que lhe conserve para sempre.

 

O Prefeito, bastante cansado, deixou-se cair numa das poltronas e olhou para o seu protegido:

- O problema, meu caro Panny, é que a gente fala mal desses malditos “graúdos”, porém, a maioria do povo não é honesta tanto assim. Quem nuca furou uma “fila”? Quem nunca usou o jeitinho brasileiro para se dar bem? Quem nunca tentou dar dinheiro em troca de favores? Quem são os poucos que devolvem os valores encontrados, perdidos por alguém? Quem cede os lugares nos coletivos para os idosos ou deficientes? Quem nunca superfaturou notas fiscais? Quem não se beneficiaria do nepotismo? E assim por diante, meu amigo. Que merda! ...

- Ao almoço, meu companheiro! – Agora conseguia a atenção do Protegido.

Determinada madrugada, quando já se preparavam para dormir, após mais uma reunião na Casa Oficial, estranhos adentraram a residência e renderam a todos os moradores.

- Quietos! Se ficarem bonzinhos não se machucarão.

Mister Panny, no entanto, ignorando ao aviso atirou-se contra o líder do bando, que lhe parecia uma pessoa bastante familiar, apesar da máscara.

Recebeu um tiro na cabeça e ficou prostrado no piso da cozinha.

Em seguida, o bandido atirou no Prefeito, à queima-roupa, sem lhe dar a mínima chance de defesa.

Nervoso, gritava:

- Todos vocês, pra dentro do banheiro, se não vão ter a mesma sorte desses dois.

Trancando a esposa e o casal de filhos do Prefeito, bem como a apavorada empregada Maria, o bandido, parecendo conhecer bem a casa, dirigiu-se ao quarto do casal, de onde retirou alguns valores e jóias.

- Vamos embora! Nada mais temos a fazer aqui. Dirigiu-se à porta dos fundos, seguido pelos três comparsas, pularam o baixo muro e sumiram na escuridão.

- Foram tiros!- Sugeriu Tonavez depositando as cartas sobre a mesa.

- Vamos ver! Vieram da direção da casa do Prefeito. – O Delegado de Polícia saiu correndo, com o revólver na mão, tendo atrás de si, além do cearense, os outros companheiros de jogo.

Quando se aproximavam da Casa Oficial, avistaram os homens mascarados, que vinham correndo em atitude mais do que suspeita.

- Parem! É a Polícia.- exclamou o Delegado.

A resposta foram tiros, que só não o acertaram em virtude da rápida ação em direção ao solo. Atirando, por sua vez, assistiu à formidável queda do líder do bando, todavia, os demais conseguiram fugir.

Com bastante cautela, acercou-se do bandido caído no chão.

- Não atire, Seu Delegado, sou eu, o “Diabinho”...

- Joge sua arma para longe ... Já!

Mas o atingido não tinha mais forças para tanto. Estava morrendo.

- Foi o Vice ...

Com a Cidade toda acordada, o Delegado informava que o Senhor Prefeito, infelizmente, estava morto. Já tinha pistas de quem seria o assassino e pedira reforços para a cidade mais próxima e, pela manhã, caçaria os demais bandidos, uma vez que o cabeça jazia liquidado no meio da rua.

Nos dias que se seguiram, a Cidade viveu em função do enterro do Prefeito, da prisão do Vice-Prefeito, suspeito numero um de ser o mandante do crime, da recuperação milagrosa de Mister Panny que escapara da morte e a prisão dos demais comparsas de “Diabinho”.

Meses depois, réu confesso, o Vice-Prefeito foi transferido para a Capital por motivo de segurança e, graças ao trabalho do Delegado, Dr. Martiniano Batista, tudo foi desvendado e o trabalho concluído no âmbito policial. Temiam os munícipes, contudo, as futuras decisões do Judiciário, uma vez que brilhantes advogados já estavam contratados para defenderem os assassinos.

Pela bravura de Mister Panny, a viúva do Prefeito o adotou de vez e, conversando com suas amigas, dizia com toda sinceridade:

- Provou que é um grande amigo da família e só não caso com ele –  brincava - porque é um simples, dedicado, bravo e belo ... cachorro.

 

João Imbelloni

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