Crônicas do Haroldo Figueira                                                                                                                     23/12/2010

REFLEXÕES NATALINAS


José Pedro Haroldo de Andrade Figueira

 
 

É tempo de Natal. A leitura do capítulo 2, do Evangelho de São Lucas, reaviva  para mim a situação aflitiva amplamente conhecida daquele santo casal de galileus peregrinando pelas ruas de Belém. Em pensamento, visualizo José acompanhado de Maria, grávida de nove meses, batendo de porta em porta em busca de abrigo. Ninguém se sensibiliza. A aparência de gente pobre não ajuda. E a resposta, algumas vezes precedida de justificativas, outras dadas de forma peremptória, é sempre a mesma: não há vagas!

 

Esgotadas as tentativas de encontrar uma habitação humana, por mais precária que fosse, o jeito foi dividir espaço com bois e vacas no interior úmido de uma gruta na periferia da cidade. Nesse ambiente nasceu Jesus, o Rei dos reis, tendo por berço um cocho forrado de palhas e como testemunhas de sua vinda ao mundo, além dos seus pais, pastores assustados atraídos ao local pelo som do choro de criança misturado ao mugido dos animais.

 

Imagino, então, que outros protagonistas entram em cena. Agora quem procura hospedagem não é mais um operário suado, empoeirado, acompanhado de sua jovem esposa prestes a dar à luz. Quem demanda alojamento é um rico mercador e sua consorte gestante. Ambos estão confiantes. Sabem que não precisam ir longe. Afinal, dispõem de recursos e isso basta para abrir portas e derrubar barreiras. Tenho razões para crer que o desfecho da história seria bem diferente.

 

A narrativa de São Lucas e a simulação que acabo de fazer expõem um modelo de desigualdade social com o qual a humanidade convive há milênios. Quem tem dinheiro pode quase tudo. Quem tem poucos recursos, ou não os têm, está condenado à preterição e até à indiferença. Em síntese, funciona como uma espécie de regra não escrita a estabelecer que as pessoas valem pelo que têm e, não pelo que são.

 

Costumes não mudam facilmente. Não há como evitar, pois, nas relações humanas, sobretudo negociais, que quem disponha de meios para pagar mais receba tratamento diferenciado. O que não está certo e nem se deve admitir é negar ajuda a quem dela necessite. Isso é incompatível com a fé cristã.

 

Natal é comemoração maior da Cristandade. Nesta época, em homenagem ao nascimento do Menino Deus, as pessoas procuram aproximar-se uma das outras, trocam presentes, confraternizam-se. Sente-se, por toda a parte, um clima contagiante de boa vontade. Torna-se evidente em cada cristão e até mesmo em quem não tem religião, o desejo sincero de fazer o bem ao seu semelhante.

 

Lamentavelmente, essas manifestações de amor ficam restritas a círculos de familiares, parentes e amigos. Muita gente esquece-se dos irmãos desamparados, justamente aqueles que Jesus recomendou que cuidássemos com desvelo e com os quais fez questão de identificar-se, seja com seu exemplo de vida, seja em sua mensagem evangélica. Trechos como os que se seguem são bastante eloquentes a esse respeito: “As raposas têm suas covas, e as aves do céu, ninhos, mas o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lucas, 9,58); ou, “o que fizerdes ao menor dos meus irmãos, a mim o fazeis” (Mateus, 25,40).

 

O texto que ora escrevo não tem a pretensão de dar lições a ninguém, até porque, como sugere o adágio popular, o roto não tem autoridade para ensinar ao remendado. Na realidade, dirige-se a mim mesmo e serve de autorreflexão. Se estou empenhado em organizar uma festa de aniversário para alguém que muito prezo e deixo de convidar amigos diletos desse alguém, devo considerar que o aniversariante não há de ficar plenamente feliz como eu gostaria que ele ficasse.

 

Natal, 13 de dezembro de 2010 

 

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