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Crônicas do Haroldo Figueira 17/02/2010 |
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TAMANCOS E SANDÁLIAS
José Pedro Haroldo de Andrade Figueira
Por volta do início dos anos 60, era comum ver pessoas calçando-os, principalmente entre crianças e adultos do sexo masculino. Produzidos artesanalmente, seu feitio era simples: um par de plataformas de madeira branca, encimadas por tiras transversais de couro de mais ou menos cinco centímetros de largura. Falo dos antigos tamancos.
Quando novos, incomodavam um pouco, notadamente em função do peso. Todavia, com o passar do tempo, a parte de madeira desgastava-se e os calçados tornavam-se leves e confortáveis. A superfície destinada à acomodação da planta dos pés ficava lisa, mas não escorregadia, e ganhava brilho como se tivesse recebido, regularmente, aplicação de camadas de cera. Nesse estágio, dava gosto usá-los.
Além de abrigar os pés, tinham outras utilidades. Fincados, verticalmente, no solo sem calçamento, funcionavam como traves nas peladas de rua. Serviam, ainda, para derrubar mangas, cajus e goiabas dos ramos que, extrapolando as cercas dos quintais, pendiam para a via pública. Mas se prestavam, também, a uma tarefa indesejável: às vezes substituíam as palmatórias nos corretivos disciplinares aplicados aos filhos pelos pais.
Em determinadas circunstâncias, transformavam-se, de um lado, em motivo de diversão para a garotada e, de outro, em causa de irritação para os mais velhos. De fato, quando, de madrugada, a meninada descia para comprar comida no mercado municipal, à época o único posto de fornecimento de carne bovina da cidade, fazia, propositadamente, com que o ruído incômodo dos tamancos em contato com o piso das calçadas fosse potencializado, perturbando o repouso das pessoas que ainda dormiam. Pura molecagem.
Pouco depois surgiram as sandálias de borracha, importadas do Japão. Vieram, conquistaram o seu espaço e atualmente são produzidas aqui mesmo. A princípio os homens as encaravam com certa desconfiança, temerosos de que se tratasse de algo incondizente com suas reputações machistas. Superadas as resistências iniciais, o povão embarcou na novidade, relegando os tamancos ao abandono.
Hoje o uso dos chinelos de dedo não só se universalizou, como se revestiu de certo charme. Deixou de ser coisa de pobre e passou a figurar como item de consumo na agenda das pessoas das classes média e alta. Quem antes olhava com mal disfarçado desprezo para as chamadas sandálias havaianas, atualmente as exibe com desenvoltura em praias, restaurantes e “shopping centers”.
No dinamismo dos mercados, a rotatividade dos produtos é intensa. Uns vão e voltam, outros desaparecem sem deixar vestígios, inclusive na memória de muitos consumidores. Os tamancos de linha popular enquadram-se entre os últimos. No meu caso particular, porque associados aos belos anos da minha infância, ainda me lembro deles. À época, com eles aos pés, eu e meus amigos zanzamos, aprontamos e fizemos muito barulho pelas ladeiras obidenses.
Natal, 29 de janeiro de 2010 |
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