|
Crônicas do Haroldo Figueira 13/01/2007 |
|
O PAÍS DOS “SEM” O mais conhecido, sobretudo pelos métodos controversos que emprega para dar visibilidade às suas bandeiras de luta é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST. E fez escola. Seguindo seus passos, ganhou notoriedade, também, a associação constituída pelos trabalhadores sem teto. Enquanto aquele age promovendo invasão de terras no meio rural, este atua ocupando prédios nas cidades. Não é deles isoladamente, todavia, que pretendo falar, mas de um universo reunindo milhões de brasileiros, inclusive os partícipes das agremiações citadas, com demandas sociais importantes indefinidamente à espera de solução por parte das autoridades governamentais. Para fins classificatórios, imagine-se esse enorme contingente populacional distribuído em subconjuntos. Dá para perceber, sem maiores dificuldades, que múltiplos grupos com reivindicações distintas poderiam ser formados. De imediato, ocorre-me relacionar o bloco dos sem dignidade, constituído por homens, mulheres e crianças alijados dos mais elementares direitos de cidadania. Passar fome, não saber ler nem escrever, não possuir, em alguns casos, sequer registro civil, são apenas parte das muitas iniqüidades a que seus integrantes se acham submetidos. Para tal grupamento, viver decentemente tornou-se quimera. A luta que empreendem é para sobreviver. Em busca de melhorias, muitos desses indigentes fogem da pobreza do campo para refugiar-se nos grandes centros urbanos e acabam defrontando-se com uma situação ainda pior. Empurrados para a periferia, terão de dividir pequenos e insalubres espaços com outros desafortunados. Às suas inquietudes de antes, virão somar-se novas, dentre estas a angústia quanto à forte possibilidade de morrer antes do tempo. Com efeito, a precariedade das moradias coloca-os sob permanente risco. Incêndios decorrentes de curtos-circuitos em gambiarras, de vazamentos de botijões de gás, deslizamentos de encostas ou transbordamentos de córregos provocados por chuvas fortes, podem fazer desaparecer, em instantes, não só os frágeis barracos com o pouco que há dentro, mas até vidas humanas. Na seqüência, releva dar enfoque aos sem emprego, aos sem assistência médica, dentária e hospitalar, aos sem educação, aos sem transporte, aos sem saneamento básico, aos sem carteira assinada, aos sem justiça e a tantos mais com necessidades afins em relação aos quais se tornaria prolixo tecer, aqui, comentários individualizados. Merece destaque, também, a turma dos sem liberdade, constituída, na sua maior parte, por agricultores nordestinos que, aliciados com a promessa de emprego em fazendas no norte, terminam submetidos, em pleno século XXI, à ignominiosa prática do trabalho escravo. Convém não esquecer do concorrido clube dos sem proteção. Com esse pessoal dá-se um fenômeno sociológico curioso. Em uma nação marcada por profundas desigualdades, a violência decorrente da criminalidade acaba colocando ricos e pobres no mesmo nível. Democratizam-se a insegurança e o medo. Ora, com o potencial econômico de que o Brasil é detentor, fazemos por merecer melhor qualidade de vida. Por que será que ela tarda em vir? Não restam dúvidas que uma das causas prováveis, senão a principal, reside na falta de espírito público das lideranças e representantes que a sociedade costuma alçar ao poder. Não que todos os que lidam com a coisa pública sejam levianos ou venais. Há entre os mandatários eleitos pelo povo, por certo, pessoas íntegras, merecedoras de toda consideração e respeito. Só que estas não conseguem agregar apoio suficiente para fazer com que prevaleçam as idéias e os princípios que defendem. No controle, os politiqueiros de plantão agem com toda desenvoltura. E o fazem, muitas vezes, em detrimento do interesse público, mais preocupados que estão em extrair das funções que exercem vantagens para si ou para seus apaniguados. Nepotismo, fisiologismo, clientelismo, tráfico de influência, inversão de prioridades, malversação dos recursos do erário, corrupção, são alguns dos procedimentos agressivos à ética e lesivos ao bem comum que costumam praticar sem o menor constrangimento. Desse comportamento impatriótico e anti-republicano resultam, em larga medida, as mazelas graves que tanto desalento e indignação nos causam, tais como o atraso crônico no desenvolvimento nacional e a obscena concentração das riquezas do país na mão de poucos. Lembro que, inicialmente, meu propósito era discorrer apenas sobre os concidadãos que, de alguma forma, carecem da presença e da ação do Estado. A classe política ficaria de fora. Explico. Quem trabalha pouco, produz menos ainda, ganha muito e ainda se vale da prerrogativa de legislar em prol da coletividade para inflar abusivamente os próprios salários, não tem de que reclamar. Revejo agora o meu posicionamento. Convenci-me de que é possível, sim, incluir os maus políticos no conjunto dos “sem”. Só que em uma categoria à parte, diferenciada das outras, cujas carências não são de natureza social, mas de ordem moral: a dos sem caráter ou dos sem vergonha, tanto faz. |
|
|