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Crônicas do Haroldo Figueira 28/01/2009 |
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ARTES IRMÃS
José Pedro Haroldo de Andrade Figueira
Quando jovem, ouvi do poeta Saladino de Brito uma frase interessante. Dizia ele, com segura convicção, que música e poesia são artes irmãs. Refleti e concordei. Realmente, trata-se de duas modalidades artísticas que o senso estético do homem achou por bem combinar, fazendo com que nos afetassem juntas, inseparáveis como costumam ser duas irmãs gêmeas.
Talvez, a rigor, a definição não se aplique ao gênero clássico. Neste, a música adquire certa autonomia. Por si só, parece ter o poder de inebriar nosso espírito, levando-o a desprender-se momentaneamente das coisas do mundo para navegar, absorto, na magia arrebatadora da melodia que emana dos instrumentos que a executam.
No gênero popular, quando de qualidade, a premissa inicial se confirma. Há como que uma simbiose entre música e letra. Uma completa a outra, formando um todo harmônico que invade nossa intimidade, identificando-se, muitas vezes, com aquilo que sentimos. Falam de quase tudo. De alegria, de esperança, de saudade, de otimismo, de fracasso, de superação, de desilusão, enfim, de uma profusão de sentimentos, principalmente de amor.
O cancioneiro nacional é rico em belas páginas musicais. Há melodias, ritmos e letras para todos os gostos e preferências. Realizar uma abordagem mais profunda sobre esse acervo demandaria muito tempo e espaço. Atrevo-me, então, a citar, fragmentariamente, versos de algumas canções conhecidas, pinçados a esmo da memória, com o fito despretensioso de exemplificar quanta coisa bonita música e poesia, unidas, conseguem expressar. Convido o leitor a me acompanhar.
Iniciemos por A Flor e o Espinho, de Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha : “Tire o seu sorriso do caminho/Que eu quero passar com a minha dor”. Ou Foi um Rio que Passou em Minha Vida, de Paulinho da Viola: “Não posso definir aquele azul/Não era do céu; nem era do mar/ Foi um rio que passou em minha vida / E meu coração se deixou levar.” Ou, ainda, A Volta por Cima, de Ataulfo Alves: “Reconhece a queda/E não desanima/Levanta sacode a poeira/Dá volta por cima”.
Façamos uma rápida incursão pela bossa nova detendo-nos em Garota de Ipanema, de Tom e Vinícius: “Moça do corpo dourado/Do sol de Ipanema/ O seu balançado é mais que um poema/É a coisa mais linda que eu já vi passar”. E, da mesma dupla, A Felicidade: “A felicidade é como a gota/De orvalho numa pétala de flor/Brilha tranquila/Depois de leve oscila/E cai como uma lágrima de amor”.
Retrocedamos um pouco no tempo para revisitar Chão de Estrelas, de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa: “Nossas roupas comuns dependuradas/Na corda, qual bandeiras agitadas/ Pareciam um estranho festival.” Ou, No Rancho Fundo, de Ary Barroso e Lamartine Babo: “Os passarinhos/internaram-se nos ninhos/De tão triste esta tristeza/Enche de trevas a natureza”. Ou, ainda, A Vizinha do Lado, de Dorival Caimmy: “Ela mexe co’as cadeiras pra cá/Ela mexe co’as cadeiras pra lá/Ela mexe com o juízo/Do homem que vai trabalhar”. Difícil não se comover diante de baiões que falam da vida sofrida, mas esperançosa do sertanejo nordestino, cantados com tanto elã por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira em Asa Branca: “Quando o verde dos teus olhos/ Se espalhar na plantação/ Eu te asseguro não chore não, viu/Que eu voltarei, viu/Meu coração”. Ou Que nem Jiló: “Ai quem me dera voltar/pros braços do meu xodó/Saudade assim faz roer/E amarga que nem jiló/Mas ninguém pode dizer/Que me viu triste a chorar/Saudade o meu remédio é cantar”.
Deleitemo-nos com o romantismo de Detalhes, de Roberto e Erasmo Carlos: “Eu sei que um outro deve estar falando, ao seu ouvido/ Palavras de amor como eu falei, mas eu duvido/Duvido que ele tenha tanto amor, e até os erros do meu português, ruim/ E nessa hora você vai lembrar de mim”. Ou de A Noite do Meu Bem, de Dolores Duran: “Hoje eu quero a paz de criança dormindo/ E o abandono de flores se abrindo/ Para enfeitar a noite do meu bem/Quero a alegria de um barco voltando/Quero a ternura de mãos se encontrando/Para enfeitar a noite do meu bem”.
Seria imperdoável não lembrar de dois dos mais inspirados letristas brasileiros: Noel Rosa e Chico Buarque. São tantos e tão belos os versos contidos em suas canções que fica difícil fazer escolhas. Opto, portanto, por pequenas amostras de cada um. A do primeiro, retirada de Feitio de Oração, em parceria com Vadico: “Batuque é um privilégio/Ninguém aprende samba no colégio/ Sambar é chorar de alegria/É sorrir de nostalgia dentro da melodia.”. A do segundo, de Eu te Amo, musicada por Tom Jobim: “Se nas travessuras das noites eternas/Já confundimos tanto nossas pernas/ Diz com que pernas eu devo seguir/ Se entornaste nossa sorte pelo chão/Se na bagunça do teu coração/ Meu sangue errou de veia e se perdeu”.
Deixo de fora, pelas limitações já expostas, compositores importantes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Lupicínio Rodrigues, Cândido das Neves, Adelino Moreira, Geraldo Vandré, Pixinguinha, etc. De qualquer modo, presto minha homenagem a eles e a tantos outros nomes ilustres da MPB que, infelizmente, não me foi possível mencionar nesta oportunidade.
Retornemos ao ponto de partida. Ali comentei que ouvi de Saladino de Brito, há muito tempo, que música e poesia são artes irmãs. Alguém poderia perguntar: como ele intuiu isso? A explicação pode vir de um colega mais novo, Chico Buarque, na canção Choro Bandido, em parceria com Edu Lobo: “saiba que os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão”.
Natal, 27 de janeiro de 2009
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