Crônicas do Haroldo Figueira                                                                                            05/11/2008

ESTRESSE

 

José Pedro Haroldo de Andrade Figueira

 

É a palavra da moda. O curioso é que o termo se popularizou, apesar ou até em razão da origem inglesa (stress) do vocábulo. Cada vez mais pessoas reportam transtornos físicos e mentais relacionados com o estresse. O que desencadeia esse que parece ser o mal da contemporaneidade e que não poupa nem adultos, nem crianças? As causas são múltiplas, muitas das quais ligadas ao corre-corre, à competição, às ameaças, apelos e desafios da vida moderna, notadamente nas grandes cidades.

 

Comecemos pela família. Pai e mãe, ambos têm, geralmente, que trabalhar fora de casa a fim de reforçar o orçamento familiar. Quase não lhes sobra tempo para dialogar com os filhos ou para acompanhar mais de perto o seu desenvolvimento. O duro é que, com relação principalmente à mulher, o fim da labuta não acontece no retorno ao lar. Ali ainda a aguardam as tarefas domésticas do dia-a-dia.

 

Com tanta fadiga e preocupação, fica difícil para o casal encontrar disposição para realimentar o relacionamento. O pior de tudo é que, ao cabo de tanto sacrifício, desgaste psíquico e renúncia, constatam estarrecidos, pelo menos na maioria dos casos, que o problema que motiva toda essa agitação não está resolvido. Continua sobrando mês e faltando salário.

 

As oportunidades de emprego e renda estão cada vez mais difíceis. Na área privada, exige-se dos candidatos a postos de trabalho, além de qualificação, experiência comprovada. Nos disputadíssimos concursos públicos, lograr aprovação não basta. É preciso estar no topo da lista de classificação para nutrir alguma esperança de ser aproveitado. E haja malabarismo para conciliar a batalha pelo ganha-pão, a freqüência regular à escola e a preparação para os certames empregatícios em cursinhos mais caros que eficazes.

 

Abrir o próprio negócio constitui opção pouco atrativa, sobretudo por conta dos entraves que o empresário tem de superar. O crédito é oneroso e escasso, a carga tributária pesada em demasia, as leis trabalhistas excessivamente protecionistas no tocante à mão-de-obra, a competição muito acirrada e desigual. Não é à toa que as estatísticas especializadas revelam que é da ordem de 80% o número de empresas que fecham as portas logo após o primeiro ano de funcionamento.

 

Enfrentar o trânsito é o caos. Um teste até para quem acredite possuir nervos de aço. Como não se deixar contagiar pelo clima de loucura coletiva que reina em derredor, diante de engarrafamentos intermináveis, freadas bruscas, ruídos de buzinas, gritaria, troca de impropérios, etc.? E quanto aos que moram distante e dependem do transporte público para ir ao batente, obrigados a acordar cedo demais e viajar horas a fio em pé, espremidos em veículos superlotados? Seriam necessárias overdoses de estoicismo para não perder a serenidade e o bom humor.

 

A violência campeia solta. Onde quer que se esteja respira-se apreensão e medo. Não há segurança em parte alguma. Nem em casa, nem no trabalho, nem nos templos, nem nos hospitais, muito menos na rua. Até as escolas, antes lugares destinados ao aprimoramento educacional do cidadão, viraram assunto de polícia. O professor, de figura admirada e respeitada, tornou-se alvo de ameaças, de agressões morais e físicas por parte de seus discípulos. Cenas de lesões corporais e até de homicídios entre alunos estão se tornando recorrentes.

 

Mata-se mais nas periferias de cidades como Rio e São Paulo do que nas guerras do Afeganistão e do Iraque. Imagine-se o apavoramento que toma conta daqueles que, tão-somente por residirem nas áreas conflagradas, vêem-se no centro do fogo cruzado. Vidas jovens são ceifadas aos montões e a vítima da vez tanto pode ser um marginal, quanto um trabalhador, basta que este se encontre no lugar errado e na hora errada. E há ainda o perigo latente de alguém ser colhido por balas perdidas.

 

Filhos adolescentes afligem duplamente os pais. Primeiro, por conta do risco a que ficam expostos (más companhias, drogas, gravidez precoce, inconseqüências próprias da idade, etc.). Depois, devido às incertezas quanto ao futuro, a começar pela boa formação profissional que precisam obter.

 

Ingressar em universidades de renome não é tarefa fácil. As públicas não dão conta de atender à imensa demanda reprimida. As particulares cobram alto pelos cursos que disponibilizam. Transpor a barreira dos vestibulares exige sólida base no aprendizado fundamental e médio, coisa que a escola pública, salvo exceções, não mais proporciona. Conclusão inescapável: quem dispõe de recursos tem mais chances de se dar bem. Quem não os possui, só com muita luta conquistará o seu lugar ao sol.

 

A febre do consumismo virou pandemia. Valoriza-se mais o ter do que o ser. O impulso pela busca de novidades desconhece limites. A prioridade do necessário sobre o supérfluo parece ter deixado de existir. Satisfaz ao ego exibir moradias espaçosas e decoradas com apuro, carros do ano potentes e bem equipados, roupas e adereços de grifes famosas. Compulsões consumistas costumam tirar a tranqüilidade, notadamente quando produzem endividamentos.

 

Poderia discorrer, ainda, sobre muitos outros fatores que mexem com o equilíbrio emocional de muita gente, tais como: o culto ao corpo, a corrupção no serviço público, a instabilidade dos casamentos, a solidão, as desilusões amorosas e até a recente crise financeira internacional que vem fazendo estragos mundo afora. Em benefício da síntese, convém não ir adiante. Peço permissão, contudo, para uma última consideração.

 

Testemunhei, outrora, tempos mais calmos, em que sentar-se à noitinha com a família na calçada e jogar conversa fora, inclusive com a vizinhança, servia para aliviar as tensões do dia. Reuniões assim já não ocorrem. Hoje postamo-nos em frente à televisão na esperança de desfrutar de momentos de descontração. Desapontamo-nos, porém. O intenso bombardeio de notícias ruins que recebemos deixa-nos ainda mais aturdidos e estressados.

 

Brasília, 26 de outubro de 2008

 

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