Crônicas do Haroldo Figueira                                                                                             02/01/2007

A BOCA DA SURUCUCU

José Pedro Haroldo de Andrade Figueira

Surucucu é uma serpente venenosa encontrada nas várzeas e terras firmes da Amazônia muito temida pelos moradores da região. Uma vez inoculado no sangue da vítima, seu veneno, caso não seja tempestivamente neutralizado, pode matar em poucas horas.

Dizem os entendidos que a nocividade da mordedura não estaria, tanto, na secreção venenosa em si. Por esse aspecto, a cascavel seria mais maléfica. O que potencializa a toxidade da peçonha do ofídio amazônico é a quantidade bem maior que consegue liberar.

Desassistidos e entregues à própria sorte, até por habitarem lugares de difícil acesso, os amazônidas da área rural buscam na natureza os meios para a sua sobrevivência. Contra mordidas e ferroadas de animais peçonhentos, por exemplo, os ribeirinhos do município de Óbidos, Pará, contam com um poderoso antídoto à base de ervas, produzido artesanalmente por uma família local, cuja fórmula é passada de pais para filhos e mantida sob rigoroso sigilo.

Especula-se que o patriarca do clã e criador do elixir fitoterápico descobriu a poção por acaso. Nas suas andanças pela floresta, teria testemunhado um acirrado combate entre uma surucucu-pico-de-jaca (a mais temível da variedade) e um jacuraru (espécie de camaleão). Notou que mordido pela víbora o lagarto corria até determinado arbusto, engolia algumas folhas e voltava para a luta sem dar sinais de debilidade. Fez experiências e comprovou as propriedades antiofídicas da planta 

Para os nortistas, falar da serpente remete a risco de morte. Mariano, um amigo de juventude, usava a imagem da cobra para metaforizar situações de perigo iminente. Diante de ocorrências arriscadas como, por exemplo, a de um temporal que se abatesse sobre uma frágil embarcação ameaçando-a de ir a pique ou, a do teto de uma casa prestes a desabar sobre os moradores, valia-se da expressão:  olha a boca da surucucu!

Penso nessa alegoria toda vez que, pela mídia, vejo-me confrontado com a violência desenfreada que assola as maiores cidades do país. Ali a periculosidade campeia solta. Assalta-se, rouba-se, seqüestra-se, estupra-se, mata-se sem piedade e até sem motivo. Nada parece fora do alcance e da ousadia das investidas criminosas. Nem residências, nem igrejas, nem escolas, nem hospitais. Nem mesmo delegacias de polícia ou quartéis.

A rigor, ninguém se sente protegido. Nem pobres, nem ricos. A vulnerabilidade estende-se até mesmo aos condomínios de luxo equipados com o que há de mais moderno em termos de aparato de segurança. Pessoas mais abastadas ensaiam mudar-se ou mandar seus familiares para fora do Brasil. Aos que, por falta de recursos, não têm para onde ir, resta rezar e seja o que Deus quiser.

Nada obstante estar relacionada a um cenário diferente e bem menos violento, a metáfora do Mariano, se transposta para a realidade das nossas metrópoles, serviria para traduzir, também, o sentimento de medo que se instalou junto aos habitantes de urbes do porte do Rio de Janeiro ou São Paulo.

De fato, atrevo-me a supor que cariocas e paulistas experimentam, permanentemente, sensação análoga a de alguém que visualiza sobre sua cabeça a boca escancarada da víbora amazônica pronta para o ataque. Gritar “olha a boca da surucucu!” soaria particularmente aterrorizante, já que dificilmente poderiam contar com o socorro oportuno de contravenenos eficazes.

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