Crônicas do Haroldo Figueira                                                                                            05/06/2008

EMPINO DE PAPAGAIOS

 

José Pedro Haroldo de Andrade Figueira

 

Dias atrás assisti ao filme “O Caçador de Pipas”, baseado no “best seller” de Khaled Hosseini que, só no Brasil, já vendeu mais de um milhão e meio de livros. O enredo trata da comovente história de dois garotos que, no tempo em que o Afeganistão era livre, antes da invasão pela Rússia e da tomada subseqüente do poder pelo Talibã, tinham por principal divertimento soltar pipas pelas ruas de Cabul.
 

A similitude entre a brincadeira dessas crianças e aquela que, na mesma faixa etária, meninos da minha época praticavam ficou patente, remetendo-me, imediatamente, às ensolaradas tardes de junho vividas em Óbidos, quando, junto com outros companheiros hoje dispersos país afora, divertia-me empinando papagaios.

 

Diferentemente do que se passa na tela, em que a pipa é adquirida junto a terceiros, o brinquedo obidense costumava ser produzido pelo próprio empinador. Não que fosse difícil adquiri-lo de outrem. Fabricá-lo com as próprias mãos, porém, tornava-se mais motivante. Afinal, assim era possível imprimir ao objeto o gosto pessoal, quer no tipo de material empregado, quer no tamanho ou na combinação de cores.

 

Havia outras modalidades similares tais como a guinadeira, o morcego e a carta, sem esquecer a curica, modelo simples, não competitivo, recortado em qualquer papel, com o qual se procurava satisfazer o desejo de brincar das crianças mais novas. O grosso da garotada, no entanto, optava pelo papagaio.

 

Armava-se o artefato com três varetas de galho de palmeira (inajá, de preferência) cuidadosamente raspadas, dispondo-as sob a forma de cruz com duas transversais. Essas talas horizontais eram fixadas à terceira, mais comprida, posicionada verticalmente. Ligavam-se, então, as extremidades com linha, de modo a obter-se uma figura assemelhada a um retângulo acoplado à base de um triângulo com um dos vértices para baixo. No topo, poder-se-ia apor um minitriângulo, a “biqueira”.

 

Sobre essa estrutura, colava-se papel de seda colorido, formando desenhos diversos (a bandeira brasileira, as cores da camisa do time de futebol, etc). As etapas finais do processo consistiam em construir: a) a “barrigada” (encurvar o braço superior da cruz para dentro transformando-o em um arco); b) o “peitoral” (dotar a parte frontal de uma espécie de alça destinada ao amarrilho da linha de empino); c) a “rabada” (cauda com cerca de 5m de comprimento, confeccionada com tiras de pano ou papel).

 

Pronto o papagaio, importava verificar se funcionaria na prática.  Isso requeria um teste preliminar para saber se preenchia dois requisitos essenciais: “flechar” bem (embicar quase até o chão) e não ser penso (no sentido de manter-se firme sob a ação do vento, sem pender para um lado ou para outro dificultando a movimentação).

 

Ficava faltando, ainda, uma medida de caráter acessório: preparar o cerol, um líquido espesso, resultante da mistura de vidro moído e cola branca derretida ao fogo,  que era passado em toda a extensão da linha com a finalidade de deixá-la afiada, tomando-se o cuidado de evitar o surgimento de nódulos inconvenientes.

 

Tudo providenciado, agora era só colocar o brinquedo no ar, aguardar ou ir ao encontro de eventuais contendores dispostos a medir habilidades técnicas no ato de “lancear” (na linguagem do “papagaiês”, travar duelo para ver quem era capaz de permanecer no alto).

 

 “Lanceava-se” de duas maneiras: entrando por baixo ou por cima. A primeira entrada implicava posicionar-se sob a linha do oponente levantando-a vigorosamente com o propósito de rompê-la. A segunda realizava-se inversamente, isto é, a linha deveria deslizar rapidamente sobre a do outro até seccioná-la.

 

“Pola nego!”. Era o grito que se ouvia quando um dos aparelhos voadores caía. A turma que assistia ao embate corria em disparada, saltando cercas, adentrando matagais, subindo em árvores, na tentativa de apropriar-se da vítima da vez.  Isso quando o orgulhoso vencedor não “cortava e aparava”, isto é, após derrubar, capturava pela rabada o papagaio em plena queda. Cortar e aparar era o golpe perfeito, equivalia a matar a cobra e mostrar a cobra morta.

 

Esse lance, porém, não seria possível de ocorrer nos céus de Cabul, simplesmente porque as pipas dali não possuíam rabo. Bom para o nosso divertimento, mais rico em recursos lúdicos. Melhor ainda para o romance de Hosseini. De fato, se o folguedo daqui e de lá coincidissem em tudo, Hassan, o caçador, o menino que intuía o exato local onde o brinquedo abatido iria cair, correria o risco de, em muitos casos, voltar para junto do amigo Amir com as mãos abanando.

 

Natal, 29.05.2008

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